Moldar a língua

Quando Mia Couto publicou o livro Jesusalém, juro que levei mais de um dia até perceber que a capa não dizia «Jerusalém», como inicialmente pensara, e a perceber a genialidade de um autor que é um (des)construtor maravilhoso da língua portuguesa (a minha/sua palavra preferida é «esparramorto», que diz logo tudo e é bem colorida). Nos últimos romances que li de Mia Couto a língua pareceu-me menos inventiva, como se o autor estivesse a tornar-se mais sério com o passar do tempo; mas, enquanto isso, herda essa elasticidade linguística a obra de Ondjaki, escritor que acaba de publicar o Livro do Deslembramento (que também levei algum tempo a perceber que não era «Deslumbramento»). Ondjaki, numa recente entrevista sobre esse livro que tem que ver com o regresso à infância, disse que o escreveu em língua «desportuguesa» e que não opera «com língua de dicionário, mas com língua de barro». Leio-o citado por Nuno Pacheco num artigo do Público, em que aparece ainda a explicação do autor angolano de que esta língua é a que provém de moldar «o barro indomável da fala que vai aos poucos enriquecendo os dicionários». Nuno Pacheco diz que há outros escritores que trabalham esta língua de barro (Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Luandino Vieira, ou mesmo O'Neill em alguns textos), mas que as crianças é que são peritas em moldar palavras pela deturpação de outras, «como quem vira brinquedos do avesso». Viva então o desportuguesamento voluntário e criativo. E leiam-se artigos assim interessantes.

Comentários

  1. "(...) as crianças é que são peritas em moldar palavras pela deturpação de outras, «como quem vira brinquedos do avesso»(...)". Que linda verdade! A minha filha mais nova era perita em inventar novas palavras, em pequena, quando queria designar coisas de cujo nome se não lembrava: queijarada (requeijão), coconetes (cotonetes), matarecos (matraquilhos) e bitões (botões). A mais velha, num teste na "primeira classe" , tendo-lhe sido pedida a indicação dos tempos verbais e não conseguindo lembrar-se do "Futuro", optou por responder "Destino". Parece-me que terá tido uma visão poética e filosófica da vida que só as crianças conseguem ter😄🌻. Feliz Natal.

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  2. Entre "esparramorto" e "arrumário", faço uma "ligação improvisória".
    Já tinha começado a leitura de ambas as obras, quando dei pelos títulos reais. Defeito meu ou virtude dos autores? Aposto em ambos!

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  3. É bom trazer as pessoas comuns para dentro dos livros, com as suas palavras. Essas mesmo, que não fazem parte dos dicionários.

    Acho que é disso que também vive o maravilhoso "realismo mágico".

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  4. Uma língua, refiro-me ao idioma, é viva exactamente quando surgem novas palavras, creio eu... apesar de poder parecer iconoclastia, mas creio que pelo contrário é mesmo prova de que está viva e a ser falada!
    O prefeito Odorico Paraguaçu, era o exemplo exemplar dessa criatividade, que, se formos a ver nos pertence a todos e não é exclusiva de nenhum escritor que mais não fazem do que canalizar aquilo que o povo pratica, só que o fazem com visibilidade e até criatividade mas não sendo únicos.
    Quem dentre os Extraordinários não cria ou criou, ou se não lembra de termos ou palavras que são usados na sua família?

    A minha empregada Mariana perguntou-me certa vez: "Seu Pácheco , posso béber à água déspórtiva?". Sem saber que no meu grupo da pesca ia passar a ser usado o termo "água desportiva" para se designar o Isostar e as ditas cujas bebidas enriquecidas com sais minerais para reposição rápida do equilíbrio.
    Seria exaustivo dar exemplos, cito este porque acho um pormenor engraçado, porém acredito que este assunto merecia a atenção dos académicos e ser estudado: as novas palavras dentro das famílias e entre o povo, mais até do que na escrita.

    Saudações vivas cá do Bairro Ribatejano.

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  5. Bué veio para ficar. Na mesma época os jovens criaram a palavra coche que empregavam muito mas creio que caiu em desuso. Os meus filhos explicaram-me na altura. Consideravam poucochinho um termo demasiado diminuído e retiraram-lhe o pouco. Ficou cochinho. Mais tarde alteraram a palavra cochinho por acharem o diminutivo também excessivo. Diziam então: podes dar-me um coche disso.

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    1. Bué é kimbundu, uma língua angolana! Não é uma palavra inventada.
      Coche (bocado) ou "beca" também foi trazido pelos retornados... lembro-me bem dessa expressão muito usada pela malta nova. Aliás de Angola e Moçambique, como de Cabo Verde, têm vindo tantas expressões que se usam coloquialmente, no dia-a-dia, sem se saber disso.
      Quem se lembra do "maningue" (Moçambique) virá de "manning" (inglês), e o "iá" ou "ya" muito usado também pelos que andaram por e vieram de, África. E o "chunguila" (bonito - Moçambique) , ou o "tchovar" (empurrar - Moçambique), também o "confusionista" (Angola) ou "maka" (problema- Angola).
      Tal como os nossos emigrantes em França, nos anos 60 e 70 usavam expressões afrancesadas, normalmente palavras francesas ditas em português... hoje igualmente caídas em desuso.
      Lembro-me da famosa tirada: "sampr'an fran... jusqu'á la rue d'alcatron"!
      É a língua viva!
      Nos Palop, usam-se formas diferentes, e temos de nos entrosar: lá não se conjuga o verbo ir como aqui. Por exemplo, quando alguém vai embora diz: "já vou ir " , ou "vou ir em Luanda", pois dizer apenas "vou" pode ser outra coisa: almoçar, por exemplo. E como "ir" é partida (já vais ir?), tem de se especificar. Por vezes o que me parece é que por lá se usam tanto arcaísmos, quanto corruptelas ou neologismos. É a riqueza da língua, creio.

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  6. Mas Mia Couto é, neste aspecto (e não só), inigualável.
    JESUSALÉM é genial (o título, e não só)!

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    1. O prefeito Odorico Paraguaçu, dava 10 a 0 ao Mia Couto!
      Ahahahah!
      Vês no que dá não veres novelas????
      Ahahah!
      Grande Abraço, cá do Bairro Ribatejano.

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    2. Acredito, caro amigo Paxeco e tenho pena de não ter conhecido essa curiosa personagem de que falas, Odorico, é por isso que relembro aquela notável máxima que, neste caso, não me parece descabida: quanto mais aprendo mais alargo o campo da minha ignorância.
      Abraço
      S

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