Bibliotecas
Eu gosto muito de silêncio. Tenho dificuldade em pensar se houver pessoas por perto a conversar, seja ao vivo, seja na rádio e na televisão. Penso menos mal, é certo, se for num sítio em que muita gente fala ao mesmo tempo e indistintamente, como num aeroporto, por exemplo, em que as falas se tornam uma espécie de ruído de fundo que não me incomoda. No entanto, o silêncio das igrejas e das bibliotecas é de ouro, ambas são templos sagrados onde se pode pensar sem interferências. Borges dizia que o mais parecido que havia com o Paraíso eram as bibliotecas, e talvez não andasse longe da verdade. Nas bibliotecas há uma enorme paz, já repararam? E essa paz não advém apenas do silêncio imposto aos leitores durante a sua permanência naquele espaço, mas também do facto (inspiro-me agora num livro que ando a ler e de que falarei aqui no blogue oportunamente) de ser um dos poucos lugares onde coexistem em plena comunhão adversários políticos, países em guerra, línguas vivas e mortas, autores que se odeiam, criminosos e vítimas, enfim, os exemplos podiam nunca mais acabar... Para mim, que gosto tanto de ler, passar a eternidade numa biblioteca como terá sido, por exemplo, a antiga Biblioteca de Alexandria seria um presente dos deuses.
Também me sinto maravilhosamente numa biblioteca porque nela convivem o silêncio e o saber. Mas paraíso, para mim, é o jardim. Os persas criavam jardins em meio de regiões áridas e, na sua língua, exprimem a ideia de paraíso com a palavra jardim.
ResponderEliminarO ideal seria a biblioteca ter um jardim, ou o jardim ter uma biblioteca (em vez de uma estufa, ter uma casinha de livros).
EliminarTambém seria bom ter uma daquelas casinhas nas árvores, cheia de livros, onde poderíamos ler sem ninguém nos perturbar, salvo um ou outro passarito, que seria sempre bem-vindo...🐦
Maria
O livro deve ser... "O Infinito num Junco" de Irene Vallejo.
ResponderEliminarSim.
EliminarAcertei!!!! Bingo! Estou rico! Estou rico! 😂
EliminarAssim não vale, tirou-me a glória mas não faz mal, fico feliz por si.
EliminarQuando vi a entrevista que a Irene Vallejo deu à Teresa Nicolau (no outro Horas Extraordinárias) pensei: tenho que comprar este livro!
E só não o fiz porque estou longe da cidade...
Bom Solstício para todos!
E que este Inverno nos seja benigno!
☃️🎄☃️
Maria
Que chatice, assim nunca arranja primeiras edições! Nem sequer tem linha de metro aí? 😊
EliminarBom solstício também para si e melhores confinamentos.
Nem de centímetro... 😂
EliminarEstou numa aldeia no interior do Interior :-(
Ainda consigo arranjar algumas (os ctt ajudam).
Não é bem (ou só) confinamento, é que sou cuidadora a tempo inteiro, sem folgas nem feriados, e quando vou até à cidade é mesmo a correr (bem, de carro) e para comprar bens essenciais.
Mas tenho uma casa cheia de livros e muitos ainda por ler - olhe se não os tenho comprado...
Boas Festas!
🎄
Maria
Boas Festas! 🎄
EliminarOs deuses dar-lhe-ão esse presente. Oxalá que daqui a muitos, mas mesmo muitos, anos!
ResponderEliminar????... Qual presente? A quem? Aquilo ali atrás era pura brincadeira. Já não se pode brincar?
EliminarBoa disposição e Boas Festas para todos, sem excepção, incluindo os mal dispostos.
Acho que o presente era para mim: passar a eternidade numa biblioteca.
EliminarParece-me esclarecido este assunto tão delicado. 😉
EliminarBoas Festas! 🎄
Pois eu, sou comprovadamente uma pessoa que pensa em qualquer situação!
ResponderEliminarTenho de ser, tive de aprender a ser: caçador e pescador submarino, tenho de fazer uso das funções de selecção e síntese instantâneamente, sobretudo em situações de perigo! Tendo sido agricultor e comercial por boa parte da minha vida profissional - 10 anos a chefiar as compras de perecíveis no Pingo Doce, mais 3 gerente de empresa de comercialização de pescado, 2 como gerente de empresa de comercialização de hortícolas, ainda 3 como director comercial de uma multinacional de hortofrutícolas e finalmente dois como brooker de hortofrutícolas , hoje e há 12 anos consultor de projectos agro-pecuários, agro-industriais, de pesca, cinegéticos e turismo rural, numa delegação remota e longínqua pela qual sou responsável local e expatriado, ex-dirigente desportivo, membro de direcções ou seu representante -, tive de me habituar a pensar sob pressão, em reuniões ou em locais onde nem por isso há silêncio, calma, em meio a discussões ou negociações duras! Como se pode imaginar. Sinto-me pronto para ser deputado... ahahah! E se calhar com muito mais saber e experiência do que os que por lá pontificam!
Aprecio o silêncio e a calma, mas sobretudo lá fora, no campo, praia ou no mar, onde se situam as minhas catedrais, e, por incrível que pareça penso muito no carro, em viagem, falo comigo mesmo, improviso e crio diálogos. A dormir... penso a dormir, sou dos que adormecem a pensar nas coisas, acordo de noite com idéias e salto da cama a meio da noite para tomar notas!
O silêncio do gabinete é-me fundamental para estudar, fazer relatórios, escrever, desenvolver planos ou projectos, mas ajuda-me ter música de fundo o que é um hábito, oiço sobretudo jazz ou clássica.
Não procuro bibliotecas para estudar nem pensar, nunca me habituei a isso, e, menos os templos, não que seja ímpio, mas porque os meus templos são na Natureza - sim, os jardins cumprem parcialmente com essa proposição!
No entanto sou um priveligiado, tenho em casa além do meu escritório, uma grande divisão a que chamamos "o salão", onde há estantes com livros, colecções, música, quadros e muitos cadeirões, um fogão de sala e janelas para deixar entrar luz. Tudo a jeito para ler, pensar, ouvir música com ambiente propício, até para conversar.
Em Angola, por onde tenho andado e assentado arraial, trato de estabelecer um lugar para estar e trabalhar, em casa, além do escritório. Aliás o trabalho de secretária faço-o sobretudo em casa, pela noite fora.
Não sou, definitivamente, nem "rato de biblioteca", nem pessoa que se isole para pensar, consigo e faço-o habitualmente em plena acção... como creio que se entende.
Nunca tinha pensado muito nisto, mas faço-o agora.
Pode não vos interessar para nada, mas é bem a prova da diversidade humana - a maior maravilha de Criação - , de quão diferentes somos, todos nós, e, o quanto temos de o ser nas nossas múltiplas actividades e funções. Creio que é uma curiosidade, interessante.
Uma boa e proveitosa semana, na nossa diversidade, são os votos cá do Bairro Ribatejano.
Bom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarTambém partilho dos sentimentos enunciados, embora por vezes sinta uma angústia: a de saber que não vou ter tempo para os ler todos.
Um pouco como á mesa, tento moderar o apetite, saborear o que estou a ler, mas existe sempre a tentação de um livro mais.
Aliás, já deixei de pagar os livros com cartão. Agora é a dinheiro, para o cônjuge não refilar: "Mais um? Ainda não leste os que lá tens...Não percebo"
Fisicamente, no entanto, é impossível escapar: os meus pecados ocupam espaço nas estantes... e tenho de argumentar com sapatos e vestidos.
Obrigado por este momento confessional
Boas leituras
cp
(é curioso, esse livro é o presente de Natal que a revista "Ler" me vai oferecer, por ter renovado a assinatura...)
ResponderEliminar(esqueci-me de dizer que também prefiro os jardins às bibliotecas... e que penso bem no meio da barafunda, se conseguir permanecer "invísivel"...)
EliminarCuriosa fiquei para conhecer quão imenso livro!
ResponderEliminarE, com vontade de caminhar na Bilblioteca de Alexandria pois nos silêncios livrescos
Não há longe entre as pessoas
quando o vento suave dos corações as percorre
Não há muros, nem pedras no caminho
Não; há pedras preciosas
filigranas de emoções ciosas
Há elos na comunicação
Não há cegueira na visão
Não há longe entre as gentes quando são cruzadas por sóis nascentes
Não há algemas nem prisões
Há simplesmente moléculas do tempo em mutações...
AM
Mais uma intervenção brilhante de Ana Mafalda.Que sensibilidade,que domínio das palavras,quanta musicalidade se desprende destes versos!
ResponderEliminarQue nos fazem refletir,sonhar,conceber um mundo de leitores unidos pela beleza única da palavra e que se sentem bafejados pelo bem supremo de se saberem apreciadores e usufrutuários dessa magia.
Parabéns.Continue a deliciar-nos!
Bibi
Muito obrigada por esse sentir
EliminarAM
Muito bem. O elogio das Bibliotecas.
ResponderEliminarMas já agora : passada a primeira pandemia, nao deviam ter reaberto mesmo, ainda que condicionalismos, claro ?
Falo pelas que conheço: as Bibliotecas Municipais de Oeiras abriram a 6 de maio.
EliminarO Infinito num Junco é o próximo mas estou a acabar As Veias Abertas da América Latina que é um livro extraordinário.
ResponderEliminarTambém adoro jardins e bibliotecas.
Bom Natal e boas leituras!
T Biu
Percorro agora "A Muralha" de Agustina, autora cuja inteligência me fascina. Mas "O Infinito num Junco" já está cá em casa à minha espera. Ter estantes cheias de livros, muitos ainda por descobrir, é umas das coisas que me tem ajudado a aguentar este ano surreal. Saúde para todos e Feliz Natal! Susana
ResponderEliminarEntretanto, deixei-me levar pela leitura do livro " O Infinito no Junco " e só tenho a agradecer a sugestão.
ResponderEliminarÀ medida que as palavras se me depararam carregadas de sentidos o meu pensamento caminhava para uma quase que cronologia saltitante em que o binómio anacronismo / diacronismo da historiografia livresca entrelaçava o passado e o presente nos trilhos da viagem dos livros desde o nascimento da semente até à sua fecundidade na infinitude.
Um relato, ora do caminho do livro, ora do trilho da narradora (por vezes participante) com laivos intimistas mantendo acesa a chama da humanidade na leitura, na descoberta, no sonho deixando em núa liberdade os objectos constitutivos da matéria tal fumo , pedra, papiro , árvore, luz ...
Grata,
AM