Os clássicos
Costumo dizer que estou à espera da reforma para poder ler os clássicos que me faltam. Porém, na semana passada li no The Guardian que a pandemia, coisa tão deprimente que não lhe consigo encontrar nada de positivo, tem paradoxalmente contribuído para que os ingleses se estejam a pôr em dia com a leitura dos clássicos. Ao que parece, as vendas de calhamaços como Guerra e Paz, de Tolstoi, Crime e Castigo, de Dostoievsky, ou D. Quixote, de Cervantes, subiram bastante, bem como as de volumes de Obras Completas de autores célebres. Não sei se as pessoas querem de repente valores seguros e têm medo de ficar sem possibilidade de comprar livros; mas é sempre uma boa notícia que os leitores regressem aos clássicos, desde que não seja só para decorar as estantes. Eu por acaso releio um clássico, mas mínimo: trata-se de A Metamorfose, de Franz Kakfa, que vou prefaciar em breve para uma edição dedicada aos estudantes do Secundário. Um clássico cada vez mais actual.
Infelizmente, os "clássicos" que a notícia do Guardian citava como os mais vendidos durante a pandemia, segundo dados dos editores ingleses, são os vários volumes de aventuras de Harry Potter. Dá vontade de terminar este post com a frase como que a Maria do Rosário costuma terminar as suas crónicas no DN...
ResponderEliminarBom dia com alegria
ResponderEliminar"a pandemia, coisa tão deprimente que não lhe consigo encontrar nada de positivo"
Cada caso é um caso, mas existe sempre o reverso da medalha. Senão vejamos:
- redução da actividade de uma das indústrias mais poluidoras do mundo, o turismo. Reverso, os ganhos na qualidade do ambiente, o Algarve a falar português.
- obrigatoriedade de teletrabalho. Ganhos diários com as deslocações que deixaram de ser necessárias.
- Confinamento. Não é despiciendo o facto de a minha sogra não sair de casa :-)
Boas leituras
cp
Permita-me cp:
Eliminar- "obrigatoriedade de teletrabalho. Ganhos diários com as deslocações que deixaram de ser necessárias."
Mas o teletrabalho é uma vantagem? para quem? para o trabalhador não é, por mais voltas que lhe dêem - então e os gastos que o trabalhador tem com água, electricidade, internet, etc, para além do efeito nefasto psicológico que tem na sua saúde psicológica/mental este seu "confinamento" obrigatório.
É, para a grande, grande maioria dos trabalhadores uma tremenda contrariedade e um passo atrás do trabalhador nas suas indispensáveis relações com os outros.
Caro ASeve,
EliminarHa sempre um lado bom em tudo.
Eu estou em teletrabalho ha 8 meses e se pudesse já não voltaria ao escritório.
Ganhei tempo, cerca de 3 horas por dia, e dinheiro (transportes, comida, etc). E parece que também foi bom para o planeta.
Claro que há o reverso da medalha, a economia...infelizmente temos de produzir cada vez mais coisas inuteis para que possamos ter trabalho. É um tema que da pano para mangas.
Cumprimentos,
Maria A.
«o Algarve a falar português»
EliminarO que é que quer dizer com isto, uma espécie de «The Algarve fisrt?!»
Sou algarvio, e ouvir falar inglês ou outra língua estrangeira, como ouvir a língua portuguesa cai sempre muito bem no bolso de quem aqui precisa de trabalhar. As línguas nunca serão a mais para quem, graças à pandemia, vive diariamente com dinheiro a menos.
Ó Caríssima Maria do Rosário, ouso acrescentar, KAFKA não é só clássico e actual, KAFKA é ETERNO!
ResponderEliminarHá muito que talhe em (termos), sob a mansidão necessária ou de acordo com gostos; populares os Clássicos vêem de encontro à(s) resposta(s) sem delírio. Pontuar a importância de livros que argumentam valores, trás de certo modo coerência à partida. A fórmula contida na Bovary ou nos trabalhadores de Vitor Hugo, entoam a distância romântica de um cenário promissor; trata-se de linha e não artifício. Moderar a leitura o aspeto circundante de raízes tão profundas quanto personagens distintos, se lhe alcança acomodar na tinta tal embate menos alucinante de nossos dias. Excelente post MRP!
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
A Metamorfose é, sem dúvida, o meu livro preferido do Kafka.
ResponderEliminarE consegui comprar uma edição sem uma horripilante barata na capa.
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Maria
Li "A Colónia Penal" recentemente (nunca tinha lido) e fiquei deslumbrado com a capacidade profética de Kafka. Isto, além de ser um conto perfeito, pelos personagens, pela ambiência, pelos diálogos e pelo fio narrativo. Escrito antes da Primeira Guerra Mundial, este conto antecipa o nazismo e a adesão do cidadão comum a presenciar o sofrimento alheio, desde que a ordem para a tortura venha de cima e o método de tortura seja científico e eficaz. Na "Metamorfose" (ou "Transformação", como alguns tradutores preferem) são as relações familiares disfuncionais os protagonistas, e não tanto a disfuncionalidade do mundo social que nos rodeia. Também para mim é a obra máxima de Kafka.
ResponderEliminarTendo eu própria testado positivo para o Sars covid, e estando de momento em isolamento, dei por mim a decidir a que obra me dedicar.
ResponderEliminarHá muito que o excesso laboral não me permitia esse luxo (outrora necessidade), e apesar do ligeiro torpor nauseado, acabei por selecionar várias obras russas (contos e pequenos romances), desde Púchkin a Tchékhov, passando por Gogol e Turguénev.
Hoje o dia é dedicado ao "primeiro amor" do último que referi, e que para já se revela um excelente retrato do amor juvenil, tão estimulante quanto avassalador.
Sabe bem recordar a mestria dos autores russos, particularmente no que toca a dissecar a psique das suas personagens. Recomendo vivamente!
Quanto a Kafka, confesso que a metamorfose não me fascinou. Li-o muito jovem, e talvez por isso tenha estranhado a alienação solitária que retrata.
Pergunto me se não será particularmente interessante relê-lo agora, neste confinamento sob 4 paredes..
Saudações distantes e não covidianas
Gostei da afirmação de os clássicos serem "valor seguro"!
ResponderEliminarOra, foi exactamente isso que fez deles clássicos e os levou e leva , a serem lidos continuadamente. Muito bem observado!
Também gostei da conclusão de que o confinamento propicia a leitura de "calhamaços".
Na verdade eu, como boa traça dos livros que sou, adoro calhamaços! É como pôr um comilão diante de um cozido à portuguesa ou de um rodízio de churrasco...
Nada como um valente calhamaço, bem escrito, como garantia de uma deliciosa jornada que se prolonga; o prazer de conviver por muitas páginas com as pessoas de quem vamos ficar amigas para sempre!
Saudações clássicas cá da Cidade Morena!
Não perca então PÁTRIA, de Aramburu, autor basco. Profundo e acessível ao mesmo tempo.
EliminarNão consigo pôr sapos, que os sapos comem traças! Porém fiquei com a língua de fora, a salivar!
Eliminar"PÁTRIA" -Grande livro. Já um clássico!
EliminarTive exactamente essa reação, ao reformar-me incluí clássicos nas minhas leituras. Foi o tempo de me deslumbrar com Guerra e Paz, D. Quixote, A Cartuxa de Parma. De Dostoievski tinha lido em jovem o Crime e Castigo, em velho fiquei surpreendido e fascinado com Os Irmãos Karamazov. Sou leitor recorrente de Aquilino, Camilo, Vieira. Viva os clássicos e acima de tudo viva os livros e a leitura.
ResponderEliminarCuriosamente, no confinamento e durante o Verão, também peguei em alguns clássicos -Kafka, Hemingway, Hesse, Somerset -, cuja leitura alternei com autores mais recentes - Saramago, Cardoso Pires, Hélia Correia, Le Clèzio, Afonso Cruz, Baricco, ... Não me lembro de ter lido tanto em tão pouco tempo.
ResponderEliminarBom, durante o confinamento estive sempre em teletrabalho. E como trabalhava mais em casa do que se estivesse no emprego, não li mais do que o habitual. Não reli nenhum livro. Li sempre livros novos.
ResponderEliminarAdoro ler clássicos, em particular nas férias de verão. Este ano, devido à pandemia, virei-me para os clássicos-distopias, "papei-os" todos: Fahrenheit 451, 1984, História de uma Serva, etc :-)
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