Ler com história
Os meus primeiros anos de actividade editorial foram passados em Campo de Ourique. A editora onde então aprendi as diversas fases por que passa um livro (revisão, paginação, composição, fotólito, ozalide, impressão...) ficava nesse bairro de Lisboa, perto do Jardim da Parada, praticamente em frente de uma livraria chamada Ler, que pertencia ao pai de um dos sócios da editora. Pela Ler tinham passado no Estado Novo muitos livros proibidos; e não foi uma nem duas vezes que ouvi essas histórias de resistência da boca do proprietário, o senhor Luis Alves, até porque na altura não havia Internet e, quando eu precisava de fazer consultas e não tinha as fontes necessárias, ia incomodar o prestável livreiro, pedindo-lhe que me deixasse ver determinado volume da Luso-Brasileira que se perfilava numa prateleira bem alta. Pois bem: apesar da concorrência das cadeias de livrarias e hipermercados, a Ler tem sabido resistir e manter-se de pé, honrando o seu passado. E há uns dias li que, com toda a justiça, ganhou a designação de "Loja com História", que de facto merece, não exactamente pelos anos que tem, mas pela história da democracia que passou por ali. Parabéns, pois, à Livraria Ler.
Ora aqui está toda uma vida certamente dedicada aos livros e aos outros; bem merecia ser também condecorada pelo Marcelo que não se esqueceu de alguém que também tem dedicado toda a sua vida à Super Bock, Sagres, JB e à boa vida de aventura e cantoria...
ResponderEliminarPodemos saber de quem está a falar?
EliminarJorge Palma, suponho, que foi ontem condecorado pelo Presidente.
EliminarObrigada, Rosário.
EliminarNão sabia, mas fiquei feliz, gosto imenso dele. :-)
Mas atenção que eu também gosto imenso dele.
EliminarMas o eu gostar dele não invalida nada do meu primeiro comentário.
EliminarAtenção, Pinóquio, err quero dizer Seve, olhe o nariz a crescer...🤥
EliminarCreio que não conheço essa livraria!
ResponderEliminarNa verdade nunca frequentei Campo de Ourique, e, talvez por isso. Não fui "lesboeta" nem nunca frequentei a cidade para lá da zona ribeirinha e até ao Chiado/Rossio/Restauradores, quando muito ia ao Campo Pequeno (com alguma frequência), ao Parque Meyer (regularmente), pontualmente às chamadas avenidas novas, e, bastante ao extinto mercado do Rego.
O nome não me é de todo estranho, porém não me recordo de ter alguma vez lá ido!
No entanto, há sempre tempo para lá ir, uma traça dos livros tem de ir a todas as que possa ou, de traça transforma-se em aranha! Uma livraria é algo que gosto de visitar, como tenho o roteiro das espingardarias, das lojas de material de pesca sub e alguns restaurantes! Vou incluir a Ler nesse roteiro e visitá-la assim que for a Lisboa!
Saudações tracejantes cá da Cidade Morena.
Então o anónimo Pacheco nunca foi à Casa Fernando Pessoa?
EliminarÉ em Campo de Ourique, um bairro bem simpático.
Dicas para prevenir as traças dos livros:
EliminarPara prevenir a acção das traças dos livros deve-se: controlar ou eliminar pontos de humidade, tais como vazamentos em encanamentos;
Evitar acúmulo de jornais, livros, revistas e papéis em geral;
Tapar frestas e rachadelas em paredes;
Verificar com cuidado a entrada de materiais novos em bibliotecas, principalmente caixas de papelão, roupas, móveis, livros, jornais e revistas, pois as traças dos livros costumam ficar escondidas no meio das páginas;
Limpar periodicamente livros e outros materiais que podem servir de alimento e abrigo, colocando entre eles bolinhas de naftalina, removendo frequentemente a poeira de móveis em recipientes fechados;
Limpar gavetas existentes em móveis, paredes e quadros, rodapés, e batentes de portas;
Eliminar papéis em desuso, colchões velhos, retalhos de tecidos e manter as cortinas acima dos rodapés e afastadas das paredes.
Hum... Há aí uma certa confusão de ordem entomológica!
EliminarEssas medidas insecto-profiláticas, que preconiza, destinam-se antes ao peixinho-de-prata (Lepisma saccharina) esse grande sacanola devorador de papel.,
Não confundir com a honesta traça dos livros que eu sou, esvoaçante em volta da luz e atraída por ela, mas bem à vista de todos, ao contrário daquele que traiçoeiramente busca o escuro e os cantos escondidos.
A traça é um lepidóptero, e não come papel, consome livros pela leitura! O outro, o lepisma, pertence à ordem dos Zygentoma!
Saudações tracejantes cá da Cidade Morena!
Não senhora, não fui... penitencio-me por isso, mas nunca calhou!
EliminarCompreendo perfeitamente, e estou a falar (escrever) a sério. É natural que estando tão longe, não tenha mãos a medir quando cá vem.
EliminarPode ser que um dia calhe...
Boa tarde.
:-)
Não deixe que tanta luz o encandeie e o faça esquecer que aqui - salvo raríssimas excepções (a sua, nomeadamente) - todos são anónimos, uns porque não assinam, outros porque assinam com nome falso, outros com nome truncado. E muitos partilham outro tipo de anonimato, no qual me incluo: o da irrelevância. Pelo que apelidar de traiçoeiro um aconselhamento profiláctico sincero e bem intencionado :)) me parece totalmente descabido.
EliminarDe resto está-se bem no escuro e nos cantos escondidos. Quem sabe não devesse experimentar também?
Não... não gosto de cantos escuros e escondidos! Não mesmo. Sou homem, ou insecto, da luz, do Sol de do calor... meridional, ou tropical se quiser!
EliminarE não confunda as coisas: - Eu não apelidei de traiçoeiras as medidas que enunciou para evitar o, esse sim traiçoeiro, peixinho de prata, do qual me demarco completamente pelas razões apontadas, da luz que me atrai aqui e que procuro.
Quanto à luminárias que por cá pontificam, anónimas ou identificadas, são para mim isso mesmo: luz! Umas atraem mais do que outras, consoante o brilho que emitem, ou nem por isso, pois há luz negra!
Saudações luminosas cá da Cidade Morena!
A luz negra é fascinante!
EliminarAhá! Apanhei-te ... o/a caríssimo anónimo/a, é portanto um lepisma! Um peixinho de prata...
EliminarEu bem desconfiava! Traiu-se com essa da luz negra.
MAS , eu sou insecto-democrata, sou a favor da biodiversidade... não se preocupe!
Boa noite então, eu vou terminar a minha actividade e você iniciar a sua, por falta de luz!
......
EliminarVem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
.....
Álvaro de Campos
Belo! Extraordinário/a Peixinho de Prata.
EliminarConfesso que não conhecia este poema!
"Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto. "
No meu caso é o som africano, está visto... e é diferente? É sim, completamente diferente!
Obrigado, e , votos de um bom fim de semana, com os sonhos e os livros!
Só espero que a designação "Loja com História", seja muito mais que isso.
ResponderEliminarEspero que todas as lojas assim designadas sejam apoiadas pelo Município, não em dinheiro mas através da aquisição de produtos e na ajuda nas obras que ajudem a manter a sua história viva e digna, para que não se perca a memória.
Excelente livraria, onde passei vários fins de tarde enquanto esperava pelo fim de aula da minha bailarina mais nova. Sempre atendida com a maior simpatia e onde ainda dava dois dedos de conversa com quem sabe do que fala e do que vende. Susana
ResponderEliminarCom tanta condecoração e comendas variadas um pouco distribuídas a eito, qualquer português que seja falado mais que um dia na comunicação social é logo proposto de Belém para mais um chanceler das comendas, um comendador, grande oficial ou quejandos; não acham que corre-se o risco de se banalizar estes atos simbólicos do PR? Eu cá não queria fazer parte desse bazar das conderações!
ResponderEliminarFrequentei muito essa livraria, anos e anos, sobretudo do lado de fora.
ResponderEliminarFoi naquela montra que iniciei muitas viagens e me apaixonei por muitos livros,pelas suas capas, pelos títulos , por autores de quem não sabia nada.
Como por exemplo um muito peculiar título do Lobo Antunes, que foi o primeiro livro que comprei com o primeiro ordenado.
Mais que loja com história a Ler é um monumento com alma.
A Ler é a minha livraria preferida. Deixei de frequentar a Feira do Livro por causa da Ler.
ResponderEliminarGosto de deambular e o atendimento é de topo. Ainda por cima é no meu bairro! Sou uma felizarda!
Bom dia, Maria do Rosário. Conheci essa livraria, soube que o livreiro permitia acesso à compra de livros proíbidos e, comprei lá alguns. Ainda bem que a guardam como loja histórica!
ResponderEliminarRDC