Pobres autores

Estou cada vez mais convencida de que o consumidor final é a única coisa em que hoje se pensa quando se produz um artigo; e, se até há alguns anos a cultura era excepção, pois tudo mudou. Muita gente já não sabe quem escreveu o livro que anda a ler, o que é verdadeiramente triste (embora fosse pior se o livro não chegasse a ser lido), e os autores (seja em que área for) estão relegados claramente para segundo plano. Num anúncio de página inteira do Público do dia 29 de Setembro último, publicitava-se um filme em DVD que vai ser vendido com o jornal a partir do próximo dia 9. Encabeçava a página a frase melosa «A mais bela história de amor...» (com reticências e tudo); e, sobre a fotografia de duas lindíssimas jovens de olhos fechados no momento pré-beijo ardente (as actrizes, bem entendido: uma loura, a outra morena), um texto em duas colunas resumia o enredo desta «história de amor avassaladora» (o adjectivo é sempre o mesmo) e, ao lado, elencava os prémios que o filme ganhou ou para os quais foi nomeado (e são uns quantos). Na base da página, o título Retrato da Rapariga em Chamas, a data a que o DVD estará à venda e o preço (9,99 € com o jornal). Mas... De quem é o filme, alguém me diz? Não. Numa foto minúscula da capa do DVD a um cantinho, o realizador não é sequer legível. Se os autores, que são os responsáveis pela criação artística, já não têm uma linha para eles num anúncio de pagina inteira... Adeus, futuro

Comentários

  1. Mas ó caríssima Maria do Rosário haverá mesmo muita gente que não saberá quem escreveu o livro que anda a ler? Quem gosta de livros não, isso tenho eu quase a certeza, mas acredito que aqueles "bifes" branquinhos que vejo a fritar na praia com um livro todo dobrado, quando intervalam para ir ao banho, esses sim acredito que não saibam quem o escreveu e não são poucos(as) os que vejo besuntados a fritar ao sol com o livro escarrapachado em cima da toalha.

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  2. A frase-talismã: Adeus, futuro. O dia: 6a feira. A autora: a nossa Extraordinária Anfitriã. Que simpatia, obrigado.
    Eu costumo revoltar-me com a seguinte situação: num programa de televisão surge um bailado. São anunciados o título da peça, o nome do coreógrafo, da companhia de dança, dos bailarinos protagonistas, do teatro onde é executado, do realizador de TV que filma, da cadeia de TV, das instituições responsáveis pela produção, sendo sonegados o título da peça musical e o nome do compositor que estão na base de tudo. Acho um afronta constarem todos aqueles nomes (que o tempo vai engolir) e faltarem os nomes de Tchaikovsky, Haydn, Bach como já vi. Não vejo, mudo de canal.

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  3. Há 20 ou 30 anos, a teoria da morte do autor, do Roland Barthes, era lei para todos os teóricos e professores de literatura das universidades. E quem ousasse contradizê-los era acusado de ser retrógrado. Para esses académicos e teóricos da literatura, seguidores de Barthes, Derrida, Foucault e afins, a intenção de um autor não interessava para nada. A única coisa que interessava numa obra era o leitor. No fundo, era uma teoria que via no autor a encarnação da ideologia capitalista, do individualismo burguês, etc. Para eles, havia que dessacralizar a imagem do autor e anular por completo a sua importância no interesse que um leitor pudesse por um livro. Penso que todos esses académicos e teóricos da literatura devem estar muito satisfeitos com o rumo que as coisas seguiram desde então.

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  4. Há uma desvalorização de tudo, nesta sociedade "tecnológica". Passa tudo muito rápido por nós e cada vez com menos profundidade.

    Eu, por exemplo, pensava que o livro seria eterno. Hoje tenho grandes dúvidas.

    E por outro lado, valoriza-se cada vez mais o "espectáculo do vazio", no que quer que seja.

    A televisão é a maior responsável por isso e a cultura a maior vitima.

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  5. Já alguns anos que as televisões quando passam filmes cortam o genérico final, quando passam os nomes de todos os que fizeram o filme, para ganhar tempo para a publicidade ou entrar logo o filme seguinte. Os espectadores não querem estar 5m a ver passar a lista dos nomes e as televisões com medo que façam zapping, cortam logo a "seca" de nomes. Nomes esses que são os autores!
    No teatro, os nomes surgem em pequeno nos cartazes. Quem é o técnico de luz?

    Todos nos habituamos a isso e depois não temos paciência nem para ler excertos de livros, vamos logos às críticas na capa ou à foto da capa de um livro. Ou sugestões de amigos. Ler um excerto de 5 páginas... Lembro-me da introdução dos Maias quando li para a escola que tinha umas 40 ou 50 páginas mas fiz questão de ler toda porque explicava todo o contexto do livro. Quantos o leram? Se calhar liam os resumos do livro.

    Dos filmes por vezes chamam a atenção do realizador (quando é famoso) para vender o filme ou quando tudo é desconhecido se apela à produção de um Spielberg para chamar a atenção.
    As histórias são consumidas rápidamente (livros, filmes, artigos...) e pouco interessa o Autor. Venha outra história e que seja apelativa em terror, sexo ou paixão.
    Bom fim-de-semana. E saudações a todos os extraordinários!

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    1. Henrique, na rtp2 costumavam passar os créditos finais; parece que ainda o fazem, mas a uma tal velocidade que não dá para ler nada: atitude incompreensível, mais valia cortar logo como fazem as privadas.
      No cinema, eu era daquelas patetas que ficava até ao fim para ver os os locais de filmagem e ouvir o tema final da OST (às vezes na companhia de mais dois ou três 'malucos').
      Agora só posso fazer isso com os DVD.
      Bom fim-de-semana.
      🎬
      Maria

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  6. Ainda me lembro de estar no fim do filme, nas escadas para a saída, à espera que aparecesse o nome do Hal Pereira, Director artístico, descendente de portugueses, e que entrou em muitos muitos filmes dos anos 50, 60 e 70...
    Um consagrado. Alguém repara agora no Director Artístico? (se ainda o há?)

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  7. LEMOS LIVROS, GOSTAMOS DE OS LER E DE OS PERCEBER

    DEVEMOS GOSTAR DE SABER QUEM OS ESCREVEU

    Uma coisa é falar sobre livros que gostámos de ler; outra coisa, é irmos um pouco mais longe, saber acerca do escritor, o seu início, o seu percurso, as suas vontades. Perceber o que aconteceu, a polpa da narrativa, a análise metódica da leitura e tentar compreender o efeito ou efeitos que tal leitura pode proporcionar. Estar habituado desde sempre a ler - isso é importante - situar o escritor na sua época, saber localizar, saber colar a História à história.
    Nada se faz de repente. Nada. E este - de repente - significa de um ano para o outro, de um tempo breve para outro tempo mais longo.
    A responsabilidade de quem analisa o que se escreve, é imensa. Tão imensa quanto a de quem escreve.

    Isto não está fácil, não!

    Cristina Carvalho

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  8. António Luiz Pacheco2 de outubro de 2020 às 08:25

    Os autores das obras, devem sempre ser designados, mais não seja para serem responsabilizados!
    Porém, como se vivem tempos de desresponsabilização e irresponsabilidade, tal se reflecte nas artes... será?
    Ou estou a asnear?
    Hoje ninguém é responsável, nem se pedem responsabilidades, e, a fazê-lo, é-se fascista, tirano, ditatorial, inquisitorial, etc.
    Portanto vejam lá bem o que dizem, pois não estão a ser políticamente correctos!
    Corremos o risco de ver discutido na AR uma moção sobre um bando de díscolos protofascistas a pretenderem que se nomeiem os autores de obras, sem observar o seu direito ao anonimato nem preservar a sua intimidade!
    É este o presente, que o futuro não se sabe e pode ser bem pior, quiçá será mesmo proibida a criação artística, quanto mais a nomeação dos autores, excepto se para serem queimados, arrojados de prédios, decapitados ou lapidados!
    E não estou a brincar, não!

    Pela parte que me toca, procuro sempre saber quem é o autor daquilo que me impressiona, pelo bem ou pelo mal. Até, procuro saber sobre ele, como muito bem diz a Extraordinária Cristina Carvalho.
    Mais não seja porque sabendo quem foi o autor, temos alguma garantia na próxima obra.

    Saudações cá da Cidade Morena, cumprimento de minha autoria se bem que não o tenha registado, mas creio que já não deixa dúvidas... eheheh!

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    1. Estamos a caminhar para regimes ditatoriais, estamos. Pelas mãos de Trumps, Bolsonaros, Venturas e quejandos.

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    2. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2020 às 04:45

      Não tenho receio por esses... não são eles quem vai abrir a porta aos que nos virão impor regimes teocratas, cobrir as mulheres, cortar liberdades e cabeças, destruir obras de arte, proibir a leitura profana ... mas isto sou eu, o caro anónimo lá sabe aquilo que receia e a quem abre a porta da sua casa, na minha só entra que eu quero e quem lé vá, tem de se adaptar e respeitar-me e à minha família.
      Bom fim de semana!

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  9. Boa tarde com alegria e pandemia

    "Depois da arte-para-os-deuses, da arte-para-os-príncipes, e da arte-pela-arte, estamos agora na era da arte-para-o-mercado que triunfa"

    O capitalismo estético na era da globalização
    Gilles Lipovetsky/Jean Serroy

    Boas leituras (e não se esqueçam: só vivemos uma vez)
    cp

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  10. Caríssima, conhecer o autor tem o seu interesse, mas o conteúdo é bem mais importante.
    A referência que se fazem a duas mulheres como uma boa » historieta» sai fora da normalidade da natureza e como tal não dá valores mas inverte-os.
    Cumprimentos.

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  11. A realizadora do filme é Céline Schiamma e, apesar de a publicidade ao DVD o vestir, pelos vistos, com um manto de frisson sobre um romance meloso, trata-se de um filme sensível e estimável.
    Paulo Lopes

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  12. Por acaso vi esse filme no City Cine ainda antes do confinamento; é um bom filme que se destacava no panorama paupérrimo da nossa exibição; creio que a autoria é de uma senhora de que não recordo o nome; não vou comprar o DVD, não tenho espaço nem para livros!

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  13. O importante é que haja leitores e leituras efetuadas. O resto há de vir...

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  14. Belo texto e belo tema!
    Num dvd qualquer, a não ser que o filme seja de um realizador de "culto", o problema é o mesmo.

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