Namorado

Sim, sei que o título deste post empurra para assuntos do coração, mas não é nada disso. Falo, para que saibam, do poeta Joaquim Namorado porque acabo de ver que a sua obra poética reunida num volume intitulado Sob Uma Bandeira vai ser apresentada no próximo dia 17, no Museu do Neo-Realismo, pela não de Fernando Pinto do Amaral e com a presença de António Redol, filho do escritor Alves Redol. Joaquim Namorado dirigiu a revista Vértice em Coimbra, para onde o Manel escrevia quando ali estudava na Faculdade de Direito; quando, porém, decidiu vir para Lisboa acabar o curso, foi comunicar a sua mudança para a capital a Joaquim Namorado, querendo saber se continuava a colaborar com a revista e explicando-lhe que, enfim, era em Lisboa que viviam os escritores e que estava desejoso de os conhecer. Foi então que o matemático e poeta estalinista lhe deu uma forte cachaçada e o preveniu: «Os escritores são para ler, e não para se conhecer!» Quanta razão, mestre. Há mesmo alguns que nem deviam pôr os narizes fora das suas casas.

Comentários

  1. Bom dia a todos.

    Sou um apaixonado pelo neo-realismo: tanto na literatura, como no cinema. Eu diria, até, que o livro que me fez leitor foi o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos do grande Alves Redol.

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    1. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2020 às 03:33

      Não resisto a comentar sobre algo que não é a primeira vez que leio/oiço, e, é Extraordinário:
      - Identificar o livro que nos despertou para a leitura!
      Será algo que ocorre com qual frequência, que muitos conseguem localizar? Ou nem por isso?
      Interessante questão, que me deixa a matutar...

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    2. não falaria de um livro, mas de vários livros, como não falaria de um momento: lembro-me perfeitamente do livro que referi do Alves Redol e do impacto que causou, noutro momento posterior, apaixonei-me pelo Fogo na Noite Escura do Fernando Namora, que nem é dos seus livros mais aclamados. Outros livros e outros momentos existiram seguramente e espero que continuem a existir, porque são esses livros os grandes catalisadores deste acto de resistência que é, nos dias de hoje, ler livros .

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  2. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2020 às 02:00

    Os escritores são para ler!
    É verdade... quanto a porem o nariz de fora, discordo, devem, têm mesmo de fazê-lo para se inteirarem do que os rodeia, identificar os seus personagens, viver os casos que romancearão!
    Podem fazê-lo incógnitos e até sem se manifestarem.

    Saudações cá da Cidade Morena.
    É preciso é saúde!

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  3. Coimbra! Também por lá passei, mas o meu mundo era outro bem como o curso. Não eram os escritores que eu queria conhecer mas sim músicos, compositores, críticos musicais, melómanos em geral...
    Tanto na música como na literatura, é bom conhecer os criadores e demais acólitos, afinal de contas partilhamos o mesmo universo de gostos e interesses (que presunção a minha!). A conversa flui naturalmente, sentimo-nos em casa. Um porto de abrigo.

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  4. Os escritores são para ler. Mas depois de os lermos, é normal termos curiosidade em os conhecer (e até questionar...). Penso que isso sempre foi uma coisa mais literária que mundana.

    Claro que há FDP em todo o lado. E penso que foi sobre esses que Joaquim Namorado deve ter falado. Até porque antes de Abril havia uma divisão clara entre escritores, que se podiam dividir em três sectores: os situacionistas, os oposicionistas e os indiferentes (se é que se podia ser indiferente ao regime...).

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    1. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2020 às 03:39

      Eheheh!
      Gosto sempre de o ler Extraordinário Luis Eme.
      Tem razão no que diz, penso eu também. Sem dúvida que não será possível separar o autor da obra, quando esta nos impressiona. Faz parte da literatura, suponho... aliás penso que de forma muito alargada o interesse pelo autor ou intérprete que nos sensibilizem, é completamente transversal, diria mesmo, universal.
      Dentro dos temas ou actividades que nos interessam, evidentemente...
      Grande abraço cá da Cidade Morena!

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  5. Os escritores serão talvez para se ler mais do que para se conhecer (embora eu gostasse muito de os conhecer) e, a propósito de quem lê e quem não lê, ainda ontem falava com um amigo e comentávamos nós, sem qualquer intencionalidade retrógrada, mas realisticamente:- mas quem é que nesta nova geração (com menos de 35 anos) compreenderá, por exemplo, um marco da literatura "AS VINHAS DA IRA", os livros do Steinbeck, do Zola, do Victor Hugo, do Alves Redol, livros que formaram e marcaram gerações, que lhes diria (se os lessem) aquela luta pela vida, a dureza da mesma, esta geração, cuja maioria, lhes cai tudo do céu sem qualquer esforço ou sacrifício, até as prendas já não existem é só rasgar papel desembrulhar e pôr para o lado.
    Realmente em 20 anos até o significado da palavra namorado mudou ...

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    1. Espero que não se importe que, como representante dessa "nova geração", partilhe o outro ponto de vista. Esse será o caso para muitos, mas em qualquer geração haverá sempre quem não compreenda Steinbeck (ou até quem não se anime a lê-lo), mas garanto-lhe que há muitos jovens que se continuam a sentir tocados pelas Vinhas da Ira, pelo A Leste do Paraíso, e tantos outros. A boa literatura não se perde com o mudar dos tempos.
      É certo que a minha geração foi protegida de forma exacerbada até ao fim do ensino superior (pelo menos, foi o meu caso), mas não nos fizeram nenhum favor — repare, fomos criados com a expectativa de que podíamos seguir os nossos sonhos e de que o nosso sucesso no trabalho nos definiria. Pois agora, nenhum dos meus colegas de curso faz o que gosta. Também eu estudei em Coimbra e gostaria de ir para Lisboa "conhecer os escritores", ou simplesmente procurar trabalho numa editora e assistir a eventos culturais, mas depois de ter estado emigrada durante três anos, estou desempregada em casa dos meus pais, sem condições para pagar uma renda em Lisboa. Já que se fala de "namorados", há três anos que namoro com o meu (também português) e nunca vivemos simultaneamente no mesmo país, o que adia qualquer possibilidade de planos futuros ou estabilidade.
      Entre os jovens, sou uma privilegiada. Nunca passei sérias dificuldades e, se for necessário, estou em condições de voltar a emigrar. Mas há que lembrar que há muitos jovens em condições precárias. Os desafios de hoje existem, apenas são diferentes dos de há algumas décadas.

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    2. Da mesma maneira que nós também compreendíamos a Eneida, a Odisseia, os clássicos russos ou o Eça e o Pessoa... Ou será que o Seve pensa que a compreensão e a sensibilidade são exclusivas dos velhos como nós?
      Há jovens que gostam de ler e outros que não gostam; antigamente também era assim. E nós não éramos nenhuns heróis, pois pouco mais tínhamos para além dos livros - heróis são os jovens que ainda hoje lêem livros em papel, apesar das mil e uma possibilidades mais apelativas que têm ao dispor, à distância de um clic.
      Se você tivesse nascido agora, acha que seria diferente deles?
      Não seria, não, seria igualzinho a eles.
      Tente influenciar ou motivar os jovens que conhece para a leitura, mas não com aquela história de "no meu tempo é que era bom": ninguém suporta ouvir isso, isso é conversa de velho do Restelo.
      Faça um upgrade, Seve.
      E boas leituras!

      Maria

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    3. Adenda:
      Ao publicar o meu comentário, li o que a Carolina escreveu.
      Era isto mesmo que eu estava a pensar: se este país não é para velhos, também não é nada bom para a maioria dos jovens.
      Um beijinho, Carolina, e boa sorte para o futuro.
      🍁
      Maria

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    4. Com todo o respeito, mas penso que as generalizações são perigosas em tudo. Discordo do tom negativo com que hoje, genericamente, se fala das novas gerações. Devia haver mais leitores novos, é verdade, mas as novas gerações estão muito bem preparadas em muitas coisas. Tenho cá em casa uma de 20, e nem é das áreas de letras ou ciências sociais (é de Engenharia do IST), que já leu uma boa parte desses autores clássicos e tem um sentido crítico muito aguçado. Para além de dançar, ser apaixonado por cinema e ir muito ao teatro, ainda colabora com o jornal da universidade (e como ela, outros amigos da mesma). Têm a vida facilitada em muita coisa, é verdade, mas também enfrentarão um mercado de trabalho muito mais difícil do que o nosso. Tomar a parte pelo todo ou o todo pela parte sempre foi perigoso. Eu tenho fé nas novas gerações. E não podemos esquecer que fomos nós (no meu caso geração de 71) que os educámos. O que significa que se alguma coisa não está bem também temos "culpas no cartório". Um dia feliz. Susana

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    5. Meu caro Seve.
      Apreciei o seu comentário e como sempre me entendi como não tendo papas na língua, hoje dito "politicamente correcto" o que na prática se traduz em não dizermos o que pensamos mas dizer o que os outros querem que pensemos, comigo não contem para essas patetices!
      É evidente que o Steinbeck, o Victor Hugo, o Zola, O Caldwell e também os nossos Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Namora, Ferreira de Castro e tantos outros não são escritores para gerações de Uber's, nem da trotinete eléctrica, nem das unhitas de gel. Esses andam com o papá na algibeira como dizia a canção do Paulo de Carvalho. Esse pessoal, agora dito a geração melhor preparada quer é laréu e viagens à volta do mundo. Que chatice ainda não se poder ir à lua, aquilo deve ser divertido... Eles sabem lá o que foram sacrifícios, a miséria, a guerra colonial, o........MEDO! sim o medo, não o medo do dentista mas o medo de não se poder falar, o medo de dizer NÃO!
      E depois os livros estão caros. Ah pois estão mas custam menos que um telemóvel ou uma nova PS4. E numa era em que apelam à partilha, partilhar a bicicleta, a trotinete, o pópó (Sharing, vamos todos sharingar) os livros não se partilham porque "eles" não os têm (esse objecto enfadonho e com muitas páginas...). Enfim amigo Seve, não nos conhecemos mas por acaso até partilhamos nesta questão dos livrinhos. O meu amigo inadvertidamente esqueceu-se que esta geração do Erasmus até partilha o namorado se preciso for.
      E por aqui fico aguardando calmamente a artilharia pesada que virá depois daquilo que aqui escrevi mas venham eles que cá me aguentarei. Já agora e para que fiquem todos esclarecidos sou um individuo de raça caucasiana, branquinho, branquinho.

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    6. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2020 às 14:04

      Ahahahah!
      Valente!

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    7. Valente porquê, se nem tem coragem de assinar?
      Coragem tem o Pacheco, honra lhe seja feita.
      Saudações sinceras, mas só para si :).

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  6. Também não embarco na conversa dos "jovens perdidos" ou, mesmo — e que me desculpe a nossa amiga Rosário —, no "Adeus Futuro", já que esse adeus é uma forma de lastimar o nosso passado, não querendo ver que “só o que está para a frente nos faz não ignorar o passado” — «nunca digas “adeus!”, diz, antes, “até já!”
    A única sensação com que fico é pertencer também a outros tempos, não a outra geração, já que a todas pertenço neste presente sempre passado e futuro — talvez, por isso, tenha escrito um livro, por poucos lido, “Adeus, Presente”, a que chamei «O futuro é passado no presente».
    Já quanto aos escritores contemporâneos pouco me interessa quem são, de onde vêm, ou para onde vão, a não ser os velhos escritores e poetas como Bocage, o qual resolvia o problema desse rebuço de conhecimento dizendo a quem se colocava à sua frente: «Sou o poeta Bocage, venho do Café Nicola e vou para o outro mundo se disparas a pistola» — a pistola, bem entendido, era e é o projéctil que nos lança no espaço desse futuro de que seremos sempre necessariamente pertença.

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    1. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2020 às 14:08

      Eheheh!
      É verdade, somos de outros tempos... o que não significa que fossem melhores tempos, tão pouco que éramos melhores do que os jovens actuais.
      Na verdade, tenho saudades desses tempos, mas por aquilo que eu era e conseguia fazer, e, que hoje já não consigo! É disso que tenho saudade, sobretudo, e, também daqueles que já partiram.
      Abraço! Isto hoje deu pano para mangas.
      É preciso é saúde!

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  7. Bom conselho. Foi uma lição que aprendi há uns anos atrás. Boa quinta-feira!

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