Livros roubados
Uma vez ouvi contar a história de umas pessoas que, quando voltaram de férias, tinham a casa vazia. Uma camioneta de mudanças aparecera para empacotar o apartamento e, como era Agosto e estava toda a gente de férias, ninguém desconfiou de que não fossem profissionais (eram profissionais, mas do roubo). Curiosamente, deixaram apenas uma coisa: os livros… É triste, mas é cada vez mais verdade que as pessoas não estão interessadas em ler. E, porém, Amosse Mucavele, que foi curador da Feira do Livro de Maputo durante vários anos, contou no Facebook uma deliciosa história: trouxe de um alfarrabista uma série de livros emprestados e, de repente, descobriu que, entre eles, estavam livros que pertenciam a um seu amigo, tinham lá o nome dele e tudo, embora nunca o tivesse ouvido dizer que fora vítima de roubo ou que os emprestara a um… ladrão, mas também não o achava capaz de os ter vendido. Agora o dilema é se os devolve… e a quem. Depois disto, tornou-se mais atento e já encontrou muita coisa nos alfarrabistas que é, de facto, oriundo de bibliotecas de amigos e conhecidos. Nunca compra esses livros, por precaução… Mas, se foram roubados ou vendidos por algum amigo a quem foram emprestados, isso quer dizer que ainda há países onde os livros são, pelo menos, cobiçados por várias pessoas.
A Cabine de Leitura da Praça de Londres (a primeira de muitas que agora já proliferam pelo país inteiro, e onde fui voluntária por largo tempo) foi alvo de assaltos várias vezes. Na última, por um triz, não foram todos roubados. Claro que o intuito dos "larápios" não era a leitura, mas a alguém iriam servir com gosto, ao adquiri-los na Feira da Ladra, onde chegaram a ir parar.
ResponderEliminarConfesso que estas ações em face de um projeto tão bonito e socialmente relevante me entristece um pouco...
Pois a mim poderiam levar-me a roupa, o trem de cozinha, o aquário (menos o peixe), a escova da cadela (menos a mesma), o computador (pois, esse, não! - é demasiado valioso o conteúdo, conta-se não pela riqueza da CPU, ou pela gráfica, mas pelas memórias de anos-escrita), o carro (convinha que o passassem logo pela oficina), mas os livros, não, essa única riqueza que possuo. Com ela posso sempre comprar todas as ilusões de um mundo, que cada vez mais contenho "numa caixa". Senhores larápios, passem p.f. à casa seguinte!
ResponderEliminarÓ Pedro, isso nem parece coisa sua... a mim, como já roubaram 2 PC, e que já por duas vezes também, tive estes completamente apagados, pois comprei um disco auxiliar externo para onde transfiro tudo! Assim, se me roubarem o PC ou por alguma razão este seja apagado, tenho os ficheiros seguros!
EliminarFica a sugestão deste Neanderthal!
Muito triste ser roubado, tive meu notebook e tablet com inúmeras pesquisas.Inclusive, até reconheço que foi uma troca (justa) porque no lugar havia deixado o ladrão uma corda e a faca. Há situações ou exceções em tais fazem falta a humanidade; justamente a contraposição o excessivo humanista.Embora a ideia se lhes pese, livros tem asas.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Delicioso post MRP. Aconteceu-me, há muitos anos, em Alvalade. Enquanto bebia uma bica na Carcassone um larápio rapidamente abriu-me o porta-malas e aliviou-me de algumas roupas e 5 livros. O livros tinham um valor especial porque mos dera o meu pai com dor imensa por se separar deles. Foi uma tortura convencê-lo! Moral da história: o meu pai nunca mais me deu dos seus livros. "Para tos roubarem!... "
ResponderEliminarApesar do que acontece em Moçambique e no terceiro mundo... vou mais pelo começo do texto.
ResponderEliminarO livro deixou há já algum tempo de ser um objecto apetecível, e por isso mesmo, um menor gerador de lucros.
Mesmo em relação à feira da ladra, referida num comentário, os livros vendem-se cada vez mais baratos (a maioria entre 0,50 e 1 euro), pelo que os amigos do alheio, devem pensar que não vale o "peso" (sim, são muito mais pesados quem anéis, fios e brincos...). Embora fique por vezes com a sensação que há demasiada gente que detesta projectos solidários e por isso é que os "boicota" (o meu aplauso para a Isabel e todos os voluntários da cultura deste país).
Ao ler o post e os vários comentários, dei por mim a rir de uma situação algo semelhante mas que no dia fiquei furiosa! Assaltaram-me o carro, onde a coisa mais valiosa que tinha, para mim claro, era os meus códigos e livros de Direito( para quem não é da área, explico que as remissões e apontamentos levam anos a ser feitas).
ResponderEliminarNão lhe manifestou interesse a cadeira de bebé da minha filha(que podia vender encasas de 2ª mão), só levou O CÓDIGO DE PROCESSO PENAL!!! ladrão sim, mas pelo menos bem informado dos tramites do processo!!
Um ladrão conhecedor do código penal, fica no mínimo tão perigoso quanto um advogado!
EliminarAhahah!
Peço desculpa, pela brincadeira.
Cumprimentos cá da Cidade Morena, onde os ladrões roubam sobretudo bilhas de gás e as baterias dos geradores!
Pois é... eu assino todos os meus livros, coloco a data e o lugar em que os comprei e às vezes ainda uma nota sobre as circunstâncias da compra, ou do início da leitura!
ResponderEliminarJá me fizeram a observação (tola, acho eu...) que assim os desvalorizo. Eu penso que nem por isso, porque se um dia vier a ser famoso, ficam é valorizados! De qualquer modo ponho-lhes a minha marca, apesar de não emprestar livros a quase ninguém!
Dos livros comprados em 2ª mão, já me aconteceu encontrar o nome, assinatura, dados ou notas colocadas pelo anterior dono, que aliás para mim constitui uma valorização, parece que fica estabelecida uma qualquer corrente com o anterior dono.
Saudações roubadas, cá da Cidade Morena.
Faço e penso exatamente o mesmo. O valor de um livro com as marcas do seu leitor é francamente superior, para mim, ao de um livro imaculado, multiplicado sem diferenciação em tantas casas, sem que se conecte a alguém no seu tempo e no seu espaço. No outro dia, revisitava um livro (Jerusalém, do Gonçalo M. Tavares) e dei-me conta das notas da altura em que o li, em outubro de 2011. Não fosse o registo e jamais me recordaria das circunstâncias da leitura. O meu filho de um ano e meio estava adoentado e escrevi que assim dormia ao meu lado, quando iniciei a leitura do livro. Quando cheguei às últimas páginas, também estava datado o fim da leitura e atualizadas as circunstâncias. O meu filhote já estava bem e adormecia de novo ao meu lado. Assim me vou deixando, em recados, aos meus filhos.
EliminarSobre os ladrões de livros, várias bibliotecas em Moçambique têm grandes preocupações com a segurança, porque é habitual o roubo. Segundo sei, as motivações criminosas prendem-se com a grande escassez de livros de estudo, são puras necessidades educacionais, num mundo onde os (legítimos) recursos não chegam para o essencial. E a ética é um luxo ocidental. Diria que a priorização está correta: pagar para comer, roubar para ler. Tudo está certo. O crime da educação deverá ser sempre perdoado.
Um abraço a todos (e obrigada pelas vossas conversas, que me fazem muitas vezes companhia ao café :)
Rute Simões Ribeiro