Fora de tempo

Nestes dias que correm, sinto-me cada vez mais ultrapassada e fora de cenário, em vésperas de arrumar as botas e, como Herculano, retirar-me para um ermo qualquer. Enquanto há cada vez menos gente a ler, as discussões nas redes sociais tornam-se de uma esterilidade confrangedora – e ainda por cima carregadas de ódio – quando os problemas realmente graves continuam todos por resolver (além da fome, da precariedade e do desemprego, por exemplo, os refugiados do campo de Moria que Portugal disse que receberia continuam lá, e a dormir no chão). Enfim, sinto que tudo está a ser dominado de forma completamente cretina pelo politicamente correcto; e, se é óbvio que as situações de injustiça e desigualdade devem ser combatidas, chegou-se agora a excessos difíceis de aceitar. Recebi esta semana, de uma agente literária, a proposta de um livro que está ainda a ser escrito, mas pelo qual uma editora de nomeada nos Estados Unidos já avançou uma enorme quantidade de dólares. A agente está super-entusiasmada com a originalidade e diz-se convencida de que vai ser um êxito em todo o mundo. Fiquei curiosa o bastante para passar à sinopse, mas fui ficando de cara à banda à medida que a lia. O tema? Pois bem, mais ou menos isto: a tinta branca é racista. Pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca. (Não sei como os arquitectos vão lidar com isto, mas estão tramados.) Para dizer a verdade, ainda pensei que fosse um livro humorístico, mas, lendo o texto até ao fim, percebi que não é uma piada, que pretende mesmo ser sério. Devo ser então eu que estou já fora de tempo e de jogo e acho isto estúpido e perigoso, porque alimenta conflitos onde não os havia (e já chegam os reais, ou não?). E, como adoro luz e tenho, por acaso, a minha casa toda pintadinha de branco, o melhor é preparar-me para ser considerada uma racista insuportável. Não tarda muito ainda vão desaconselhar o leite, diz uma colega minha. Adeus, futuro.

Comentários

  1. E até já os estou a imaginar a pintar as vacas todas de preto; assim de uma penada (ou pincelada) resolvem logo o problema da igualdade de género 🐄
    Os Sapiens estão mesmo a regredir: um destes dias abro a porta e descubro que estou no cenário dos Flintstones (que por acaso até eram bem divertidos, coisa que estes trogloditas não conseguem ser, infelizmente).
    A minha casa também está pintada de branco, pois sendo numa zona muito quente (e não sendo uma casa de xisto ou granito como eu gostaria) resolvi fazer como os alentejanos e usar a cor mais adequada ao calor excessivo.
    E o Alentejo, como ficará o belo Alentejo de preto vestido?
    Que pena essa ideia tão negra ter saído de uma cabecinha portuguesa...
    Adeus, futuro.


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    1. Adenda:
      Hesitei em escrever que penso saber quem é a autora do livro, e se a Rosário não disse quem é, é porque não o quer fazer, obviamente.
      Há tempos houve aqui grandes comentários acerca de uma notícia, que iria cair que nem uma bomba, sobre um livro que iria ser lançado no mundo inteiro por uma grande editora americana e etcetera e tal...
      Por conseguinte, e quer eu goste do livro ou não, espero que a autora tenha muito sucesso.


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    2. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2020 às 06:01

      Eheheheh!
      Parece que a pulga anda atrás de várias orelhas... ahahah!

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    3. O livro é de uma escritora norte-americana chamada Wendy S. Walters e tem por título «A Dead White».

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    4. Obrigada, Rosário.
      E hoje não vou jogar no euromilhões...

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    5. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2020 às 09:49

      Prontos... tamém já sacudi as órelhas!
      Ahahah!

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    6. Eu já era! Rosa Alice BRANCO! Talvez só fique com o "Alice". Na verdade, tudo isso é lamentável e nem o Orwell criava uma proeza assim.

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  2. Rosário, não resisto a comentar: olhe que já desaconselham o leite há muito. O de vaca, entenda-se. Eu não bebo leite há 10 anos, contas muito por baixo, serão seguramente mais.
    Não tem nada que ver com a cor do dito, claro está, nem eu me vou pôr a jeito numa discussão de nutrição. A informação, muito contraditória entre si, existe e cada um que faça o que entender dela.

    No que respeita ao politicamente correcto, estou do seu lado. O mundo está a ficar demasiado absurdo. Vamos aguardar para ver se esse livro será uma besta célere.

    Tenha um excelente dia,

    Rui Miguel Almeida

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    1. Ainda me lembro dos anúncios dos 3 copos de leite por dia, feitos com muita convicção por actores já nada jovens...
      Ainda me lembro do Nada de Azeite, use óleo de girassol e outros...
      Ainda me lembro do não coma sardinhas, não coma ovos...
      Ainda me lembro do Não use máscaras! e agora do Use mascaras! e brevemente será É obrigatório usar máscaras ou paga multa...
      Não é fácil viver no planeta azul (cada vez mais negro) com tanta contradição, tanta esperteza de alguns para enriquecerem à custa de muitos.
      Na verdade, a história repete-se sempre, o cenário muda mas a história é sempre a mesma.
      Eu vou continuar a beber leite (de preferência dos Açores) e derivados, simplesmente porque gosto e ainda o posso comprar.
      Um bom dia.
      🍶

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  3. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2020 às 03:32

    Hum... fiquei com a pulga atrás da orelha, com esse livro. Mas vou esperar para saber da autoria do mesmo.
    A originalidade do tema, não é só por si garantia de sucesso, falando em termos de leitura, pois de edição nada sei. Eu leitor e traça dos livros, não compro e menos leio um livro porque o tema seja original, mas porque é interessante e bem tratado, bem escrito. Seria talvez interessante que os gestores de produto que parece serem quem administra o sector, percebessem que "diferenciação" pode fazer parte do marketing mix, mas nem por isso se aplica aos livros. Volto a dizer o que disse ontem, em que me deixaram a falar sózinho, imagino que por estar a ser desinteressante, mas volto à vaca fria: - Quem devia gerir a edição, são os editores, gente da literatura, não os da gestão. As grandes empresas de edição, que se instalaram e concentraram tudo, vão acabar por matar a literatura e a elas mesmas, aos autores.
    Pergunto-me se este caso que nos é trazido aqui hoje, não é mais um exemplo disso?
    A super-editora já adiantou verba ao/à autor/a ... que é como quem diz que escreve por encomenda, a metro, de empreitada.
    A agente literária, já anda a promover a obra que ainda não está acabada.
    Qual a fórmula usada? Deve ser certamente uma dessas ensinadas no cursos de escrita, género: (originalidade + actualidade) x correcção global = sucesso de vendas. Q.E.D.
    O resto, não interessa nada, nem estilo, verve, vocabulário, construcção do diálogo, personagens, pois isso tudo já existe e basta procurar nos catálogos do escritor de sucesso, havendo equipas tecnológicamente formadas para essa finalidade. Depois, bom, é só ganhar um prémio literário - o que também se arranja e para isso serve a força da Empresa Editora.

    Se calhar havendo nas gavetas livros que poderiam ser dados à estampa, com vantagem, mas acabarão nas edições de autor se este tiver meios financeiros para isso. É no que parece que deu a literatura? Realmente apetece-me dizer: Adeus futuro!

    Enfim, é preciso é saúde!
    Saudações cá da Cidade Morena, onde há sempre lugar para quem queira fugir aí dessa desgraceira hipócritamente correcta de brancos estúpidamente deprimidos e pretos oportunistamente colocados.

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  4. É de facto desmoralizante para nós, os mais velhos, vermos o primarismo a atingir a área da cultura, como é a área da publicação de ensaios. A esmagadora maioria dos que compram livros querem satisfazer os seus impulsos mais primários. E, infelizmente, não é só na América. Qual é a mais recente surpresa editorial (best-sweller instantâneo) em França ? Um ensaio de menos e 100 páginas de uma jovem desconhecida (Pauline Harmange) publicado numa micro-editora e que tem o título "Moi les hommes, je les déteste" e não é um livro feminista, pelo contrário... O que preciso é ser ousada no título !

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  5. Os fundamentalismos são todos iguais e têm como objectivo principal "roubar" a liberdade individual de cada um de nós.

    A existência deste livro é a prova da ignorância e estupidez de uma boa parte das pessoas, que recebem diariamente muita informação mas pouco conhecimento. E não são (muitos não querem...) esclarecidos.

    Isto dá cabo de tudo...

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  6. «Não tarda muito ainda vão desaconselhar o leite, diz uma colega minha.»

    Na verdade, nos EUA já o desaconselham, e desde há alguns anos, por o seu consumo (poder) ser considerado, sim, racista:

    https://edairynews.com/en/milk-the-new-symbol-of-racism-in-donald-trumps-america-51608/

    Esta é apenas uma das (muitas) demonstrações da loucura da esquerda norte-americana, do Partido Democrata, que, precisamente, têm tentado - por ser supostamente «politicamente correcto» - concretizar uma série de substituições, proibições, alterações, na história e na cultura, mas não só. São eles - e não os republicanos - que formam as «brigadas» que colocam em novos «indexes» vários livros e filmes. São «candidatos» a ditadores que não hesitam sequer em incitar à violência, como se viu nos motins deste ano em diversas cidades dos EUA.

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    1. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2020 às 05:22

      Extraordinário Octávio, falando do leite - pois do resto já disse tudo, e muito bem aliás, como de costume), gostaria de pôr à consideração o seguinte:
      Há muitos povos em África, sobretudo em África, que se alimentam básicamente de leite, de vaca ou de cabra!
      Portanto é no mínimo curiosa a pretensa conotação racista do leite.
      Também, se olharmos a que os povos pastores africanos, e são muitos, que se alimentam à base de leite, são na generalidade modelos de desenvolvimento físico harmonioso, fortes e saudáveis, bonitos, como argumentar que o leite não é um bom alimento para adultos?
      Portanto os africanos que usam o leite, deveriam antes beber café, ou ser doentes?
      Não sei se é apenas estupidez, o que se diz, ou é desconhecimento de quem a faz, seguro desse desconhecimento em geral?

      Abraço cá da Cidade Morena.

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    2. Caro Pacheco, eu diria que é apenas estupidez... mas uma estupidez muito perigosa, que pode ter - e, aliás, já tem - efeitos nefastos, em especial nos EUA.

      Portanto, quem quiser e precisar de beber leite que o beba, e que não ligue aos estúpidos, mesmo que eles tenham «canudos».

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  7. Ah, diria o exacerbado; pois bem, alguma "fratura exposta" não temará exclamações?! Diz-se sem exageros não fazem mau: caldo de galinha e prudência. Aplicada à circunstância parece que o news perfect ou de (days black) este novo perfil literário americano, busca the lost time. Excelente artigo MRP

    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco13 de outubro de 2020 às 06:02

      Eheheheh!
      Saudações morenas, Extraordinária Cláudia!

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  8. Acredito sinceramente que andam por aí muitos loucos...
    Obrigada pela partilha deste post, que será censurada por uns e por outros apelidado de fora de tempo mesmo.
    Bjs

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  9. Não sei se o politicamente correcto é o responsável pela maluqueira. Sendo o Trump o símbolo do politicamente incorrecto, eu diria que é ao contrário.
    Politicamente correcto seria receber os refugiados de Moria, como prometido.

    P.S. Nos EUA são normais os contratos de milhões para livros ainda não escritos. Sempre foram.

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    1. Pois são!
      Mas aqui nas PUP (Províncias Unidadas de Portugal) só há milhões para 💼⚽✈️(bancos, futibóli e aviões).
      Os livros ficam a ver🛳️🚢
      É a vida...

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    2. Tem razão. Mas o «politicamente correcto» acabou por tornar-se outra coisa muito diferente daquilo que devia ser.

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    3. Verdade!
      Mas faz-me aflição que a extrema-direita se tenha apoderado do «politicamente incorrecto». Assim se vêem os defensores de tal política com o rei na barriga de cada vez que se malha no «correcto».
      Talvez devêssemos prescindir de tais rótulos, seja para elogiar algo que achamos bem, ou criticar algo que achamos mau.
      Enfim, tempos estranhos e difíceis, sem dúvida.

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  10. Sou o 20º mas aqui vai, talvez vá a tempo da autora ler.
    Fui professor durante alguns anos e um dia 2 alunos negros estavam à pancada. Eu intervim separando-os. Um deles quando socava o outro dizia; toma lá preto!
    Disse eu, você está a chamar preto ao seu colega? Resposta: professor, ele é ou não é preto? Conclusão, quem sentia vergonha era eu.
    Cumps.

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  11. Bom dia com alegria e pandemia

    "como Herculano, retirar-me para um ermo qualquer"

    Vontade imensa de fazer o mesmo...

    Boas leituras
    cp

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  12. Nada disto é verdadeiramente novidade. Há vinte e cinco anos já, encontravam-se ensaios expostos em livrarias cultas nos EUA (lembro-me de um famoso campus universitário e não era o de uma universidade esquerdista como Berkeley) onde se podia ler, por exemplo, que a mecânica dos fluídos era uma construção teórica falocrática (ou algo do género que incluia o último termo). Como então já se falava em politicamente correcto um belo dia resolvi perguntar por livros da Enid Blyton. A resposta da livreira foi (com olhos muito abertos) "but that's not politically correct!". Lembro-me de ouvir outras pessoas ligadas à universidade terem uma opinião muito reservada do Astérix "for being books where the moeurs of other people are scoffed at and ridiculed"

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