Coragem

Li um destes dias um texto em que uma personagem dizia ao interlocutor que, se fôssemos bem a ver, as coisas em certos aspectos não tinham mudado muito desde o feudalismo: havia uma dúzia de pessoas com mais dinheiro do que quase todas as outras juntas... Claro que é uma comparação exagerada (e já não é a posse de terras que faz a fortuna), mas não deixa de ser verdade que os homens mais ricos do mundo são uma espécie de senhores feudais cujos vassalos são frequentemente escravizados e ganham uma ninharia. Podemos pedir às pessoas que não comprem o que eles produzem? Podemos pedir às pessoas que não lhes dêem mais dinheiro a ganhar e comprem, em vez disso, aos que precisam, aos pequenos? Eu achava que não, mas um livreiro independente de Brooklyn, Nova Iorque, teve a coragem de o fazer. As suas montras são um apelo a que os leitores comprem livros em livrarias independentes e parem de contribuir para o enriquecimento dos que já são ricos. Muito ricos. Mas depois descobri que não é só longe que estas coisas acontecem. Ora vejam estas duas imagens e reflictam.


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Comentários

  1. Os amantes de livros sabem o custo que este amor acarreta. Os preços praticados nas livrarias independentes (sítios que eu adoro) não são comparáveis aos das grandes superfícies e afins.
    Se comprasse todos os meus livros a preços de editor, não poderia ter os livros que tenho. É um facto.

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    1. É de Lisboa? Conhece a Bizantina, a Letra Livre, a Snob, a Campos Trindade, o Sílvio? Encontra aí livros a 1, 2, 3, 5 euros, muito mais baratos do que em qualquer grande cadeia. É um facto. Não só podia ter os livros que tem como poderia ter muito mais. Não há maior mentira em Portugal do que a ideia de que as grandes cadeias vendem mais barato. Os livros novos têm preços iguais, já que estão protegidos pela lei do preço fixo; os livros com mais de 18 meses não se encontram nas livrarias, ou encontram-se tanto como nas livrarias referidas. De cada vez que passo na rua das portas de santo Antão e encontro livros recentes do Javier Marías ou do José Rodrigues dos Santos a 3 ou 5 euros fico a pensar em como é que é possível que se tenha criado esta ideia que esbarra de maneira tão frontal com a realidade

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  2. Ora a minha temática favorita :) Porque têm uns de ser infinitamente ricos, enquanto outros de ser infinitamente pobres? É verdade que a riqueza, seja ela de pessoas ou comunidades, não se (devia) medir pelo material… ele há tanto rico tão pobre, como tão pobre tão rico em valores, ideias, opções, corações, visões e reflexões de vida.
    Vivemos num mundo que tem até esta incapacidade de questionamento, como se fosse vergonhoso a simples interpelação do «porquê de uns serem ricos e outros pobres?»
    Na realidade a pobreza maior está nesta incapacidade de perguntarmos e reflectirmos sobre esta temática fulcral para o desenvolvimento, equilíbrio e paz humana. Não há sociedades capazes sem a resolução dos problemas da desigualdade, geradas na incapacidade de colocarmos na mesa privilégios não decorrentes do esforço, do mérito, do trabalho - daí a luta diária que devemos travar contra o corrompimento da nossa alma, seja ela o que for.
    Mesmo à desigualdade devemos sempre acrescentar a farinha do equilíbrio e do equitativo, usando com eficácia a via da redistribuição de direitos positivos (infelizmente chamados de “discriminação?” positiva).
    Para alguém que começou a sua vida no estudo da alocação dos recursos (escassos) humanos, a percepção acabou por ser que não há razão vital alguma, para além da vil ambição humana e egoísta, que implique a não condenação da desigualdade e o exercício constante do seu desbaste. Nem nos devemos bastar nos determinismos, de um mundo sempre aparentemente incapaz e renitente à mudança. Mesmo que ele teime em não mudar, mudemos nós todos os dias um pouco.
    Mesmo o apregoado mérito - essa levedura de uso “incomedido” - é apenas um privilégio de nascimento, tantas vezes não ultrapassado por sociedades fechadas, classistas, monárquicas no conteúdo, seja de Corte ou nascimento, que exigem de nós temperança e humanidade para com os injustamente desfavorecidos - por Deus ou pelo Diabo. O privilégio neste mundo de enganos e verdades desiguais é ser-se materialmente rico em vida, como se será materialmente pobre e desprovido em morte. Tem isto cheiro balofo a religiosidade, ou algo que seja diferente do senso da Humanidade? Terá isto lugar num espaço onde a leitura ocupa o lugar?
    Tenho para mim que sim, vendo a literatura como uma actividade humana onde as preocupações não devem ser da mera história construída como um castelo de palavras apelando ao adormecimento dos sentidos, mas ao “ficcionamento” da existência desperta e da relação entre os habitantes desta arca desigual. Por isso no regresso “Às Horas Extraordinárias” penso que não há literatura sem poesia, a escrita nua sem senso poético sendo apenas um amontoado de tijolos de palavras.

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    1. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2020 às 03:13

      Muito bom Pedro...
      Abraço azul-e-branco cá de uma república dita popular, porém monarquizada na estratificação social e dos privilégios, aliás como aí nessa, onde os nobres da república seguem fazendo aquilo que nem os reis faziam.

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  3. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2020 às 03:09

    As grandes empresas, sejam elas daquilo que forem, pela concentração, têm a vantagem de fazer funcionar e alimentar toda uma cadeia de valor - é a economia! Têm a desvantagem de engolir/matar as pequenas empresas.
    As pequenas empresas, têm a vantagem de criar pequenos negócios e uma outra cadeia de valor, mais próxima das pessoas e das famílias - é ainda a economia! Têm a desvantagem de ter preços menos baixos... simples questão de escala.
    Parece redundante, mas na verdade é assim a economia, que faz mover tudo!
    O que falta a quem governa, que devia ditar as regras e legislar, arbitrar, gerir os assuntos do país e das pessoas, é o bom senso, saber e honestidade bastantes para saber quando a concentração ou a dispersão devem ser aplicadas.
    Alguns políticos até são da área da economia, mas algum deles alguma vez a praticou como profissional? Não... apenas teorizam e na melhor das hipóteses são meros académicos, sem experiência da economia real.

    Só para dar um exemplo, num país como o nosso, numa cidade como Santarém, haver 8 grandes superfícies, não é admissível! Pura e simplesmente se mata o comércio local, a própria produção e se afecta o rendimento das famílias a troco de eventual "derrama" municipal e de uma miragem (falsa) de criação de postos de trabalho directos.
    Falta de visão, sensibilidade e de bom-senso político, permitem tal absurdo.
    Pela minha parte, confesso que, excepto no caso da alimentação, compro preferencialmente no comércio tradicional, desde logo nas livrarias!
    Neste particular, não compro na FNAC, que boicotei... se não vende bilhetes para a tourada por ser contra, eu não compro nadica na FNAC!
    No entanto quantos de nós temos a coereência, não falo de coragem, de fazer o mesmo? Muito poucos... e a prova disso é que a concentração aumenta sem parar, as grandes superfícies comerciais já se atrapalhando e comendo umas às outras.
    Também não compro livros nos supermercados, por baratos que sejam... é uma outra opção, minha.

    Aqui na Cidade Morena há supermercados de grandes cadeias, compro lá algumas coisas, mas ainda há pouco, chegando da Baía Farta, parei ali na rua e comprei pela janela da carrinha, às "senhoras" abancadas no passeio, manga, banana-maçã, tomate, batata doce, abacaxi! Ontem havia comprado beringela, cebola, mussaka e quiabos. Fruta e hortaliça, só compro na rua, pois as "zungueiras" têm que viver.
    Além disso é colorido e pitoresco: " Lévá pái! Tá barráto!"... "mámão? Á cébôla, ó tómáte... à cénoura! Arface? Tem ó cóentro, à sálsá! O répôlho!". "É duzento!", "léva só quinhento... cinco mánga é um mil!".
    Ahahahah! É por isto que gosto de África, desta África.

    Votos de um Extraordinário fim de semana, com muitas e boas leituras!
    É preciso é saúde.

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  4. A verdadeira liberdade está na cabeça e não, no coração. Se bem, tanta gente do contrário limitata-se no mundo de paixões e nem os precisaria citarem, filósofos desempenhando fundamentos feito Spinoza, Nietzsche ou Sartre. Está dita "delimitada racionalidade" em prol do cidadão Platão já o fizera. Escapam-lhe a fortuna... Consta independência por ato a coragem em não o ser subserviência desde o berço; quando àquele bebé o salta para fora das grades. Felizmente o mundo de causas é forjado à sensibilidade os que carregam o coração no cérebro, onde cada martelada de paixão trás na ação a boa ventura, exalta a exacta de seu tempo e não de seu temor.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  5. O maior desejo do ser humano é apoderar-se de bens e o seu esforço é dirigido a esse fim. Não importa se o faz por meios lícitos ou ilícitos como roubo, violência ou guerra. A governação exerce-se com base nessa realidade, explorando-a e desenvolvendo-a. Quem tenta de outra forma sossobra.
    Mas, como os vulcões que parecem extintos mas ressurgem em atividade explosiva, sempre se regressa a essa tentativa.

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  6. Olhem eu, sempre que posso, compro na Bertrand. Não tenho pequenas livrarias aqui por perto e gosto de folhear os livros.
    Agora, com a pandemia, e porque não ando às compras muitas vezes, mando vir pela Wook.
    Concordo que a riqueza devia ser partilhada. Não se admite que os reformados tenham pensões de miséria e outros andem a esbanjar dinheiro em frotas de automóveis, só para dar um exemplo!

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    1. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2020 às 06:12

      Já somos dois Bertrandistas, é a minha livraria favorita!
      Concordo inteiramente com o que diz, sobretudo num num país que se apregoa solidário!
      Votos de um Extraordinário Fim de Semana.

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    2. Obrigada!
      Felicidades aí na Cidade Morena ( acho uma delícia este nome😊!)

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