Atrevimento

Houve quem achasse um autêntico atrevimento um escritor negro resolver escrever nos anos 1950 uma história escaldante sobre a relação entre dois homens brancos homossexuais. Houve até quem achasse que o livro não seria publicado nos Estados Unidos, terra natal do autor. Mas O Quarto de Giovanni quebrou fronteiras e barreiras e espantou meio mundo, confirmando James Baldwin, auto-exilado em Paris, como um dos mais arrojados escritores norte-americanos de sempre. Este é um livro sobre a descoberta da homossexualidade de um jovem norte-americano em viagem pela Europa quando se separa por uns dias da namorada e conhece Giovanni, o imigrante italiano que é barman num clube nocturno, e se apaixona por ele, embora sinta sempre que a relação é a prazo, uma vez que tem na mira casar-se em breve e o pai não vai continuar a mandar-lhe dinheiro dos Estados Unidos enquanto não regressar para lhe apresentar a noiva. As descrições deste idílio/inferno no quarto de Giovanni (quarto sujo, desarrumado, pobre) são extremamente avançadas para a época em que o livro foi escrito e sentimos a todo o momento que este triângulo amoroso está sempre à beira do rasgão, mesmo não conseguindo antever qual será o final. A tradução é do escritor Valério Romão. Sobre James Baldwin, não convém perder também o documentário I’m not your negro, absolutamente brilhante, e Se Esta Rua Falasse, sobre o qual já aqui escrevi.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2020 às 01:53

    Penso muito sinceramente que não há temas tabu, na escrita. Aliás nem práticamente em nada, uma vez que a negação do tabu impede a análise, a compreensão, e, é inimiga da luz do saber.
    Ora, nós traças somos atraídas pela luz.
    Há muita gente que se recusa a discutir, analisar, entender certos temas, alguns dos quais me são caros, portanto seria inaceitável que fizesse o mesmo em relação a outros, que não me agradam. Com o tempo e a vida, tenho aprendido algo, e a experiência foi-me tornando mais tolerante, como aliás é normal e verifico que se passa o mesmo com outros.
    Chamem-lhe evolução ou maturidade, ou o que quiserem.

    O tema aqui trazido, é no mínimo polémico e apesar de tudo confesso que não me desperta interesse, apesar de não o recusar ou condenar, duvido no entanto que seja livro a ler por mim, porque entretanto tenho na lista muitos outros que me interessam fortemente e o tempo não me chega já para tudo o que queria ler.
    Preconceito? Não... apenas desinteresse pelo tema, como não lerei tantos outros livros aqui sugeridos pelas mesmas razões: - desinteresse pelo tema.

    Saudações interessadas cá da Cidade Morena.

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  2. Escritoras homosexuais, que tenham escrito livros de conteúdo assumidamente lésbico, não me ocorre nenhuma. Porque será?

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    1. ... por exemplo: "La petite dernière" de Fatima Daas foi publicado em Setembro deste ano.

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  3. Há sempre uns corajosos pioneiros que através da Arte vão abrindo brechas na Sociedade. Não conheço o referido livro, mas escrito nos anos 50 do século passado, deve ter sido um estrondo. Muito antes das lutas pelos direitos civis.
    Para quem não é homossexual, livros como este permite-nos conhecer um pouco mais a diversidade dos seres humanos. Livros sobre a segregação racial, violência doméstica, casamentos nos países árabes... dão a conhecer outros "mundos" e esse é o principal papel da Literatura.

    No final de Setembro estreou um filme "The boys in the Band" a partir da peça do dramaturgo Mart Crowley, que morreu em Março deste ano, e escrita em 1968 sobre um grupo de homossexuais que se juntam para o aniversário de um deles. Escrito numa época que ninguém sabia nada do comportamento dos gays e tudo era escondido da sociedade.

    A Arte é muito importante para a quebra de tabus. E como o Mundo anda em ciclos, o conservadorismo vai tentando colocar todos os tabus de volta ao baú. Se não falarmos dos tabús é como se não existissem.
    Haja atrevimento!
    Saudações.

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  4. James Baldwin nasceu negro e homossexual. Não bastou um estigma, recebeu dois, e nos anos cinquenta do século passado...

    Isso faz logo que seja um escritor especial, diferente, que nunca deve ter querido enfiar-se em nenhum armário. Provavelmente "O Quarto de Giovanni" hoje, é um livro quase normalizado (ainda não li mas fiquei com curiosidade), mas imagino como foi recebido nos EUA, que ainda continua a ser um país de fingidores e cobardes, onde homossexuais não assumidos continuam a ser os primeiros a perseguir homossexuais livres...

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    1. António Luiz Pacheco6 de outubro de 2020 às 13:00

      Tenho opinião, de que, os EUA são a pátria da hipocrisia... da hipocrisia puritana dos Quackers, que faz parte do DNA da sociedade americana, a par de qualidades inegáveis de democracia e liberdade, de pragmatismo... etc. Porém são e serão os maiores hipócritas que há!
      Já agora, ficou-me a vontade de ler James Baldwin, não o livro aqui referido como "cacha", mas outros, onde possa avaliar a sua qualidade de escritor.
      Abraço!

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  5. Fala-se aqui, e elogia-se, (de) um livro sobre a homossexualidade, publicado há mais de 60 anos, e que então «quebrou fronteiras e barreiras e espantou meio mundo». E hoje, como seria? Haveria, h(aver)á, algum escritor «arrojado» com «atrevimento» suficiente para também escrever um livro sobre homossexualidade, embora numa outra perspectiva. mas igualmente com potencial para quebrar fronteiras e barreiras e espantar meio mundo? Talvez. Porém, esse escritor precisa(ria) de um(a) editor(a) corajoso(a), e tal não parece existir.

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