Aprender

Li uma entrevista muito interessante no The Guardian a Isabella Rossellini sobre as maravilhas do envelhecimento («mais gordos  mas mais livres», diz ela), entre as quais a actriz destaca o tempo (que, quando trabalhava como modelo, não tinha) e o poder aprender e estudar assuntos que lhe interessam, como, por exemplo, tratar de animais (e não são cãezinhos, mas vacas, galinhas, porcos, pois gere uma quinta e põe a mão na massa). Embora se diga que burros velhos não aprendem línguas, eu gosto de contrapor o «aprender até morrer», sendo a aprendizagem das coisas mais compensadoras e lindas que alguma vez experimentei. E aprendi no mural de um amigo facebookiano a história da primeira poetisa afro-americana a publicar um livro nos EUA, que não conhecia: uma escrava senegalesa chamada Phillis Wheatley (Phillis era o nome do barco que a levou à América, Wheatley o do comerciante que a comprou). Phillis começou a escrever poemas aos treze anos naquela língua que não era a sua e, com vinte anos, como achavam que ela era uma impostora, levaram-na perante uma série de magistrados: mas, além de ter ficado provado que os seus poemas não eram plagiados, ela ainda recitou Virgílio, Milton e passagens da Bíblia, impressionando os dezoito homens de toga e cabeleira: era escrava, negra, mulher, mas... poetisa. Ter aprendido a ler salvou-a mais tarde da escravatura.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de outubro de 2020 às 01:51

    Bonita história, essa!
    Um dia em que não aprendemos nada, é um dia desperdiçado... sou talvez um priveligiado, pois naquilo que faço, todos os dias aprendo coisas novas.
    A leitura dá-nos essa possibilidade e abertura, sobretudo abre-nos a mente à aprendizagem.
    Mas, também pode provocar o contrário, isto é, os literatos por excesso de leitura e pouco convívio com o Mundo exterior real, convencem-se de que sabem tudo, tendem a desprezar aquilo que não lhes cabe já no seu pensar, fecham-se e a partir daí já não são sábios, são meros depósitos de saber.
    Conheço bastantes assim... sobretudo académicos. São esses que se transformam nos homens da toga e da cabeleira e muitas vezes decidem, mal, sobre os destinos daquilo que desprezam ou não conhecem.

    É preciso é ler, e, saúde. Lembrem-se!
    Saudações aprendidas cá da Cidade Morena.

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  2. As belezas ou das belezas em aprender (para mim) em se lhe experimentar o novo ou resgatar o velho, tudo são colunas do saber. Aprender é uma delícia! Mui delicada a(s) lacuna(s) cultural(ais) e creio, amiúda-nos; embora o exercício diário que o inclina, também se lhe faz ênfase o regrar a graça.

    Cláudia da Silva Tomazi

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    1. António Luiz Pacheco19 de outubro de 2020 às 07:46

      "resgatar o velho" . Gostei, também é aprender, sim.

      Saudações cá deste lado do Atlântico!

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  3. Aprender a ler tanto o podem fazer brancos como pretos. Já os escravos terão um acesso muito difícil.
    A poetisa provou quão infundada era a suspeição de plágio recorrendo às suas qualidades pessoais, quer dizer, dando nota da sua apurada sensibilidade através de altos meios de expressão, isto é, recorrendo ao seu talento. Um bem valiosíssimo mas escasso quer em pretos quer em brancos.

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    1. António Luiz Pacheco19 de outubro de 2020 às 09:21

      Na Grécia antiga, a clássica como julgo que se diz, havia escravos cuja função era a de ensinar os filhos dos seus senhores - os pedagogos, creio.
      Esopo era escravo. Deixou literatura.
      Há outros exemplos, como conta a famosa "Contos das mil e uma noites".
      Havia escravos que faziam contabilidade, por exemplo... ou seja, além de escrever sabiam as operações ,não haveria o POC nessa tempo, mas já se contabilizava, sobretudo nas grandes casas comerciais ligadas à escravatura.
      Não deixa de ser uma história interessante e até irónica!
      Abraço!

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