Tempos duros
Vivemos tempos duros e já aprendemos que um simples vírus, uma coisita de nenhum tamanho, pode de repente mudar o mundo todo, matar milhões de pessoas, alterar hábitos enraizados, provocar depressões, desemprego e divórcios, suprimir a sociabilidade e o afecto, tornar negros negócios que antes frutificavam. Foi também uma coisa de nada (no caso, uma mentira: a de que o líder eleito encorajava a entrada do comunismo na Guatemala) que mudou o rumo do país quando, em 1954, um golpe de Estado orquestrado pela CIA derrubou o governo. É disto que fala o mais recente romance de Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura e autor de grandes romances, muitos dos quais já mencionados aqui no blogue. Chama-se Tempos Duros, está classificado como um thriller histórico e, segundo o El Pais, mostra como as coisas poderiam ter sido bem diferentes se não fosse, de facto, essa mentira. Para ler e aprender. Publica a Quetzal. A tradução é de Cristina Rodríguez e Artur Guerra.
Gosto muito do autor! Certamente que é um bom romance, esse.
ResponderEliminarTempos duros... que tempos não foram duros? Na história da humanidade?
Olhando para ela, fico na certeza de que estes não estão a ser mais duros. A humanidade, enfim parte dela, é que, por força da evolução no sentido do conforto e segurança, cada vez mais se torna medrosa, comodista e pior do que tudo: hiper-sensível, na sua sofisticação e artificialismo, confundindo os conceitos de "dureza" e "sacrifício".
Hoje ao mais pequeno incidente, contrariedade ou imprevisto, tocam todos os alarmes, os media estrondeiam as trombetas da catástrofe que lhes dão ganhos, as forças políticas aproveitam para aparecer e se afirmarem em falsas salvações, e a carneirada em que se tornou a humanidade dita desenvolvida, entra em pânico, incapaz de arranjar um molho de grelos ou escamar um peixe para fazer o almoço, que não suporta sangue, calor nem frio, quanto mais sede ou fome, inclui os animais nos seus afectos erradamente dirigidos e cai em depressão.
Triste humanidade esta que nem está preparada nem sabe o que são tempos duros!
Daria tema para muitos romances...
Saudações cá da dureza, na Cidade Morena.
Muito bem visto a sua análise. Penso muitas vezes assim, quando oiço que estamos a atravessar tempos de crise. Estamos sempre! Em cada momento, a maioria está profundamente convencida que os "tempos" estão maus. Raramente têm noção e escala histórica para posicionar a sua situação presente. É muito bom ter um ideia (ainda que vaga) sobre o que já aconteceu à humanidade, quanto mais não seja para isto mesmo, calibrar a sua reacção aos tempos presentes, e já agora fazer uso do que a humanidade entretanto terá aprendido.
EliminarRecordo um pequeno ensaio que li há poucos anos, notável, que faz precisamente uma análise deste tipo: Antes é que era bom! – Michel Serres
Bom dia
Miguel Henriques
...a carneirada em que se tornou a humanidade dita desenvolvida e quiçá a dita culta...
EliminarQue lúcida e realista realidade!
Do Mário Vargas Llosa já leram "O HERÓI DISCRETO"? Então leiam - uma pérola!
Conheço e li o livro que refere, oportuno e muito bom, aconselha-se, concordo inteiramente.
EliminarCerteiro!
Abraço cá da Cidade Morena.
Também eram "Hard Times" os tempos de Charles Dickens, traduzidos para "Tempos Dificeis" em português. Eram os tempos mais gloriosos e prósperos da Inglaterra, isto é, da classe dominante inglesa, tempos duros para a maioria da população.
ResponderEliminarPertinente observação!
EliminarÉ isso mesmo, e tem que ser percebido... durante anos Angola era o país cujo PIB mais crescia ao ano, o país era o segundo ou terceiro mais rico de África, tinha uma elite esplendorosa (mas inculta em extremo!) ... isto para falarmos de algo actual e que todos entendemos bem! Porém, o povo nunca saiu da miséria, escolas e hospitais não foram edificados, estradas não foram recuperadas, água e luz faltavam na mesma...
Saudações cá da Cidade Morena, em mau estado....
Estou a ler este romance à noite, depois do jantar; faltam-me as cem páginas finais. Sou fã do Vargas Llosa. Como sempre, lê-se como se fosse água a correr num rio, tal é a clareza, elegância e fluência da sua escrita. É aqui ilustrada em detalhe a origem do termo depreciativo "República das Bananas". Para além de ser um relato histórico sobre a prepotência americana na América Latina dos anos 50, assente numa investigação cujo rigor é proverbial em Vargas Llosa, o romance está recheado de personagens populares cheias de vida própria enriquecida pela imaginação do escritor. Os capítulos nem sempre tratam em sucessão a cronologia dos acontecimentos, andam para trás e para diante, quiçá para ginasticar a mente do leitor, método que Vargas Llosa já adotou noutros livros anteriores e de que confesso não ser apreciador. Sendo figuras históricas algumas das personagens centrais do "Tempos Duros", tenho tido a curiosidade de olhar para as suas fotosgrafias, agora tão fáceis de encontrar na internet. Para além das fotos, descobri no Youtube um video com o discurso sabujo do presidente golpista perante Nixon, vice-presidente americano nos anos 50, logo após a tomada do poder na Guatemala sob o comando da CIA. Deu para sentir mais de perto essa personagem central do romance que é o coronel Castillo Armas, o golpista que teve um final trágico. É surpreendente encontrar neste livro de Vargas Llosa a defesa de um regime que promoveu uma reforma agrária quando ele é um autor cujas convicções liberais se têm manifestado sempre a favor da defesa da propriedade privada. Surpreendente, mas sempre uma agradável e esperançosa surpresa, é testemunhar a vivacidade de espírito e de inventiva de um génio que escreveu este romance aos 83 anos de idade.
ResponderEliminarCompletamente de acordo com o que diz, Extraordinário Artur!
EliminarÉ sempre um prazer falar assim, de livros e dos autores.
Também não me agrada muito o andar para trás e para a frente, mas, quando é feito por um Mestre, numa obra de quilate, pois vamos andar por onde ele nos levar!
E, sabe... não me surpreende mesmo nada que o MVLlosa defenda no livro aquilo em que é contra, pessoalmente, só atesta a grande qualidade e lucidez do escritor, penso eu.
Um abraço cá da Cidade Morena.
Caro Artur,
EliminarFiquei com vontade de ir ouvir esse discurso ao youtube. Não sei se sabe, na juventude o Vargas Llosa tinha ideias muito à esquerda, chegou a apoiar o regime de Fidel Castro, depois é que "virou" à direita.
Aconteceu-me uma coisa semelhante quando li o meu primeiro livro de Camilo José Cela, "O assassino do perdedor", que é uma orgia criativa, a vários níveis. Percebi que ele teria uns 77/78 anos quando o escreveu e nem queria acreditar.
Deixo-lhe um abraço literário!
Rui Miguel Almeida
Obrigado pelo comentário, caro Amigo ! De facto, surpreendeu-me muito a lucidez e a simpatia esquerdista do Vargas Llosa por emergir depois dos oitenta anos, quando se sabe que o envelhecimento tende a tornar o pensamento mais conservador. Abraço. PS: acabei o livro ontem à noite; tem um final muito interessante, uma espécie de coda, sobre a personagem principal do romance, Martita (a Miss Guatemala que nunca o foi) que foi amante de vários dos personagens históricos do golpe da CIA.
EliminarCaro Rui, Muito obrigado pela informação sobre o esquerdismo do Vargas Llosa jovem. Se calhar foi aí que ele foi buscar o tom deste seu último romance.
EliminarBom dia,
ResponderEliminarA ter de apontar um escritor favorito (o que não me faz nenhum sentido), o nome que me vem mais rápido ao coração é Vargas Llosa.
Estou a ler este romance, vou quase com 100 páginas. Aborrece-me um bocado ter tantas páginas de mero enquadramento histórico, embora feito com mestria e "enfiando" as personagens lá pelo meio, sempre que consegue. Também resulta um pouco confuso o "desfilar" de nomes de generais, políticos e afins, que às tantas se baralham, em especial quando se retoma a leitura.
Dito isto, este romance tem uma coisa que Vargas Llosa faz com mestria noutros (em especial "Conversa na catedral"), que não creio ter lido noutros autores e que me delicia:
Tem diálogos cruzados, ou seja, uma personagem diz uma coisa e a linha seguinte pertence a outro diálogo, entre outras personagens distintas, noutro contexto, mas é feito com tal mestria que o leitor não se perde, antes pelo contrário, mergulha de cabeça nos meandros da intriga, pois as "respostas" vêm desses diálogos, onde se percebe as razões dos personagens.
Não faço ideia se isto é uma espécie de "trademark" de Vargas Llosa, mas é algo que me conquista totalmente. Ao invés de confuso, considero magistral esta solução de nos mostrar pistas, indícios e motivações dos personagens.
Como já deve ter ficado bem perceptível, sou um enorme fã de Vargas Llosa.
Pelas primeiras 100 páginas, este romance parece-me superior aos 3 últimos do autor, embora possa estar a ser injusto com "Cinco esquinas". Claro está, é apenas a opinião de um leitor devoto do autor.
Rui Miguel Almeida
Ora seja bem aparecido! Há que tempo não lia nada de si... e como sempre muito bem!
EliminarGostei muito desta sua análise, que aliás agradeço pois me aguçou ainda mais o apetite, que já estava salivante...
Grande abraço cá da Cidade Morena!
Fico-lhe grato pelas suas palavras, António! Vou lendo o blog, por vezes acumulando posts no mesmo dia, nem sempre comento, mas aponto muitas sugestões de leituras, algumas foram suas.
EliminarDeixo-lhe um abraço, da cidade dos ovos moles.
Rui Miguel Almeida
Em minha opinião, o livro melhora na segunda parte e foca-se menos nos acontecimentos políticos e mais na personagem que emerge como central na trama novelesca: Martita, a Miss Guatemala que não o foi.
EliminarDo Vargas Llhosa apenas li Pantaleão e as Visitadoras romance sobre o isolamento e a vida militar na Amazónia peruana; está-se mesmo a ver quem são as visitadoras!Há um filme, salvo erro de um realizador espanhol baseado no livro!Para desopilar não há melhor!
ResponderEliminarExcelente, muito bom, tanto o filme quanto o livro!
EliminarSe me permite o comentário, gostei muito desse livro, mas como fã do autor, devo dizer-lhe que o estilo e tom desse romance foge um pouco ao registo Vargas Llosa mais "clássico".
EliminarSe tiver curiosidade em ler mais coisas dele, tem títulos onde o erotismo está muito presente, como "Os cadernos de Dom Rigoberto" e "Elogio da madrasta"; tem uma fantástica história de amor em "As travessuras da menina má"; uns mais policiais como "Lituma nos andes"; mais autobiográficos como "A tia Júlia e o escrevedor"; grandes romances "históricos" como "A festa do chibo" e "A guerra do fim do mundo" e tem autênticas obras primas magistrais (talvez os mais difíceis de ler), como "A casa verde" e o livro que mais me enche as medidas, "Conversa na catedral".
Rui Miguel Almeida
Lituma nos Andes... creio que também deu um filme! Ou estarei a confundir com "as visitadoras"?
EliminarRealmente a obra deste Autor é tão vasta, rica, profíqua, diversificada como poucos terá havido, Camilo? (Castel Branco!).
Bolas, quais anónimo... sou eu!
EliminarO Camilo escreveu mais de duzentos livros, documentados, entre romances, novelas, teatro, poesia, etc. o Vargas Llhosa nunca lhe chegará aos calcanhares!
EliminarObrigado pela sugestão, quando acabar os que estão na calha para ler, como O Idiota de Dostoievski, O Espelho e a Luz da Hillary Mantel, um tijolo de quase 900 páginas, talvez comece pela Conversa na Catedral, sempre é um prémio Nobel!
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