Calvinices

Uma das maiores injustiças da Academia Nobel, quanto a mim, foi não ter dado o galardão ao talentosíssimo escritor italiano Italo Calvino, um fabuloso inventor de modos, estilos e universos literários que, além disso, tinha um humor notável. Bem sei que era ainda bastante jovem quando morreu, mas o Nobel já tinha contemplado escritores mais novos (Camus, por exemplo). Já aqui devo ter falado de vários dos seus livros, mas hoje lembrei-me de Palomar, mais outra maravilha de originalidade e empatia. O livro acompanha um senhor chamado Palomar em várias situações (desde as férias na praia até às compras no talho) para nos mostrar que nunca há só um ponto de vista sobre as coisas e que, se formos como Palomar, nunca conseguiremos escolher entre duas coisas de ânimo leve nem deixar o cérebro descansar um segundinho que seja. Basta ler o capítulo sobre a rapariga em top less e as questões que o senhor Palomar se põe sobre qual deverá ser o seu procedimento ao passar por ela para se saber que até à última página vamos ter muito com que nos deliciar. Leia-se este autor, por favor, com ou sem Nobel.

Comentários

  1. Que bela ironia (ou o termo será paradoxo?) está no título deste post ! "Calvinices" que nos remete para o outro Calvino, o ortodoxo, o regulador, o intolerante, e afinal o texto é sobre um Calvino que é todo o seu contrário. Da ficção de Italo Calvino é "O Visconde Cortado ao Meio" o livro que mais gostei: é fantasista, irreal, um conto moral a confrontar a visão maniqueísta da vida e a desafiar aqueles que propõem uma separação total entre o Bem e o Mal que constitui a natureza humana. Parece um romance escrito por um primo de Voltaire. E que beleza de escrita e sabedoria há nas suas lições americanas ! Estas conferências, lidas por ele periodicamente em Harvard, estão reunidas no livro "Seis Propostas para o Próximo Milénio" (leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência). A sua leitura mostra como estamos a evoluir para bem longe dos conceitos propostos por Italo Calvino.

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    1. O Visconde Cortado ao Meio é só o primeiro volume de uma trilogia apelidada Os Nossos Antepassados. Os outros volumes são O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente, qualquer deles excepcional. Já os li há alguns anos e gostava de poder lê-los outra vez.
      Bom, a lista seria grande, mas a acrescentar a Palomar, Cidades Invisíveis, Seis Propostas para o Novo Milénio, Se numa Noite de Inverno um Viajante, acrescentaria Os Amores Difíceis e o ensaio Porquê Ler os Clássicos. Não, não os li todos, li quase todos.
      Italo Calvino não merecia só o Nobel mas todos os prémios do mundo.

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    2. Ainda não li Os Amores Difíceis, do qual se diz:
      "Em Os Amores Difíceis, o mestre da narrativa italiana tece histórias nas quais os enganos e as ilusões do amor incluindo do amor-próprio são dissipados em instantes mágicos de reconhecimento, e em que cada personagem descobre verdades ocultas sob a superfície da vida quotidiana. Um soldado tímido sente dificuldades de comunicação ao tentar seduzir, com manobras mudas, uma formosa viúva que se senta ao seu lado durante uma viagem de comboio; uma respeitável senhora vive o drama de perder a parte de baixo do biquíni ao nadar no mar quando a praia está repleta de gente; um leitor oscila entre a realidade densa da ficção e a fantasia erótica da realidade; um míope enfrenta as ambiguidades do uso de óculos; uma mulher casada descobre o adultério e o mundo no bar da esquina; um bandido e o sargento que anda no seu encalço passam a noite na cama da mesma mulher. Histórias que revelam o profundo sentido de composição de Calvino, atento aos mínimos detalhes, e onde ecoam influências de Maupassant e Tchékhov."
      Dá para aguçar o apetite?

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    3. De todos os que aqui menciona apenas não li a Trilogia. Todos diferentes, mas todos igualmente interessantes: voto nas calvinices :-)
      E este ano haverá Nobel? Ainda não ouvi dizer nada a respeito de...

      Bom fim-de-semana!

      Maria

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    4. Dá!
      É um livro muito divertido ou, pelo menos, eu diverti-me muito a lê-lo, o que não me acontece muitas vezes...
      🌾🍂
      Maria

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    5. Bom fim-de-semana, Maria. 😊

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    6. Não chega uma vida para grande Literatura !

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  2. Comecei um dia a ler As Cidades Invisíveis mas não acabei...Talvez retome a sua leitura, desta vez até ao fim, depois de acabar o que tenho em mãos: Pascal-Pensamentos, Dostoievski- O Idiota, Hillary Mantel- O Espelho e a Luz, Jorge Amado-Jubiabá e o sempre amado Aquilino-Uma Luz ao Longe, nova edição Bertrand.

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  3. Que belo e animador, Extraordinário, post temos hoje aqui!
    Isto porque, e é algo que sempre me alegra e anima, confesso nunca ter lido nada de Italo Calivno, o que é estimulante (ter autores por ler, por descobrir!), ora, depois do que dizem aqui os Extraordinários que o leram, fui googlar e fiquei mesmo entusiasmado.
    A ele, portanto...

    Saudações literáriamente entusiastas, cá da Cidade Morena e votos de um Extraordinário Fim de Semana!

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  4. Calvino, um dos meus autores preferidos. A não perder, de facto, para quem gosta de literatura.

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  5. Não queria ensombrar o post mas, não há duas sem três… diz o adágio popular.
    Partiu na semana passada o meu amigo João Gomes Pedro, a mergulhar nos Açores aos 70 anos. Partiu um outro nosso jovem camarada a fazer pesca submarina no Algarve, e ontem, feriado em Angola, morreu também em actividade, um jovem pescador submarino.
    Dário Arriegas, filho de um conhecido enfermeiro aqui de Benguela, ele mesmo grande entusiasta da pesca à linha, que conheço há muitos anos e cujo barco usei algumas vezes sainda ali do Santo António, ou nos deu boleia indo levar à Equimina. O jovem Dário ainda recentemente andou connosco, no barco do João Tatanka Mestre, às lagostas que depois grelhámos e comemos, com umas cucas (como de costume) e muitas mentiras (sempre) lá na casa do João, ponto de reunião de pescadores submarinos, onde os velhos lembram e contam tretas aos novos que ouvem e aprendem.
    O jovem Dário, ao que soube, pescava na Ponta das Ferreiras (o limite Sul da Baía dos Elefantes) que é um local mítico. Parece que a tentar sacar do fundo e de uma laje, um pungo (corvina) que arpoara. Foi encontrado sem vida já à superfície e sem o cinto… terá ainda tido tempo e lucidez para o largar. Tentaram os companheiros reanimá-lo, mas já nada a fazer!
    Descanse em paz, no paraíso dos pescadores submarinos, onde as mentiras se tornam verdade e nunca se morre.

    A propósito dele, e , para quem queira vou partilhar este texto de um romance inédito que fala dos lugares e das pessoas, e se encaixa numa espécie de memorial!

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    1. XV
      O coração do mar!

      Cuidam vocês, em calhando, que o mar não tem coração?
      Como assim? Por acaso não é ele uma coisa viva e com vontade própria? Se achais que não, é porque de facto não o conheceis!
      O seu coração pulsa, ouvimo-lo quando imergimos e nadamos no meio dele, sentimo-lo bater dentro de nós!
      O Mundo do Silêncio? Não sei onde raio foi o digníssimo Cousteau buscar essa classificação, se bem que nele imersos fiquemos sem voz! Há quem cante na banheira, mas quem diabo se vai pôr a cantar no meio do mar? Tirando as sereias, claro… os golfinhos riem, as baleias assobiam e dão estalidos que nem mucancalas (como são designados os san ou bosquímanos, em Angola), muitos peixes roncam e tamborilam com a bexiga natatória ou as caudas, outros rangem e dão estalos com os dentes, mas de facto ninguém nele tem voz! O que não quer dizer que o mar não seja pujante e sonoramente variegado.
      Silêncio é coisa que não existe no mar! O pulsar imenso dentro dele é o da vida que nele existe e se constitui portanto na sua pulsação, a qual sentimos assim que mergulhamos a cabeça debaixo de água.
      E ele defende essa vida, olá se defende! A pinha de percebes ou o cavaco adormecido na gruta, parecem postos em sossego e que é só deitar-lhes a mão! Pois mal o pensamos e antes de passarmos à execução, logo vemos que despertámos a fúria do mar na defesa do que é seu. Lança contra nós a rebentação e a maré, atirando e esmagando-nos contra a rocha!
      Somos-lhe em tudo estranhos: - Não respiramos nele! Arrefece-nos mortalmente! Limita-nos a visão e a maioria dos sentidos. Mas em compensação permite-nos deslocar como se voássemos e triplica-nos a força, são estas as formas silenciosas de as sereias nos encantarem e atraírem, ao mesmo tempo que as ondinas nos repõem as energias. O mar dá e tira, tem um coração e vontade própria mas é inconsciente, no entanto não nos facilita a vida e antes exige o nosso melhor, não é lugar para fracos nem indecisos!
      Em cada vez que saímos para o mar e regressamos, não o vencemos, desenganem-se! Só o enganamos… e se acontece morrermos um dia numa cama, podemos quando muito dizer que o enganámos até ao fim, mas nunca ninguém venceu o mar! Não vale a pena…
      E lá fomos nós nessa madrugada, apanhá-lo distraído e enganá-lo ainda, colhendo mais uns quantos dos seus habitantes, do povo do mar!

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    2. Tivémos uma boa manhã! A temperatura da água manteve-se estável e abundava a comedia, meros e garoupas-chumbo encostaram, subiram para se alimentar… aquilo parecia uma promoção de óleo num supermercado! Cardumes compactos de sardinha faíscavam abrindo e fechando, revoluteando o mais à superfície que conseguiam, no frenesi de escapar aos raides dos caçadores que atacavam por baixo.
      Aproveitando a barbuda, nós, super-caçadores, tiramos partido de os compactos cardumes do peixe miúdo nos ocultarem à vista e a sua palpitação disfarçar as vibrações do nosso movimento no radar dos peixes predadores que eram assim totalmente surpreendidos! Vinham caçar e eram caçados…
      Como mísseis fundo-superfície, as garoupas-chumbo, talhadas para a velocidade instantânea, peixes activos e reactivos, dispunham-se em cardumes de até 20 indivíduos, por camadas: granjolas por baixo, médias a meio e as pequenas em cima, estas, nervosas porém mais atrevidas, sendo as primeiras a chegar até nós, todavia fazendo assustar as outras! Há que as deixar entrar, ignorá-las, deixar ganhar confiança às calmeironas, é que o peixe cresce na proporção directa da sua desconfiança! Podem chegar aos 15 Kg, mas o normal é pesarem em média 4 a 6 Kg, aliás sendo estas as mais valiosas para venda em fresco, as grandes são para escalar e secar, e, as pequenas apesar de terem dimensão-para-grelha, não pagam o gasto, isto é, terão de ser apanhadas quatro de 1 Kg para igualar uma de 4 Kg, percebem? Significam quatro vezes mais mergulhos e tempo de espera em apneia, outros tantos tiros e subsequente recarregar da arma! Apanhar as maiores é o princípio da conservação da energia a funcionar em pleno!
      Começámos a faina às 6 horas e lá pelo meio-dia tínhamos o fundo da chata tapado de esguios corpos antracite ou negros, com arabescos brancos, entremeados com os competentes e roliços, castanho, amarelo e laranja dos meros. Se bem que a estes e na ocasião só os arpoássemos se fosse fora do buraco, poupando o esforço e o tempo de os trabalhar entocados. O que estava a dar eram as garoupa-chumbo e foi sobretudo ao que nos dedicámos. Subimos a bordo, bebemos água e avaliámos a coisa… comemos alguma coisa para recompor e decidimos regressar, havia muito peixe para eviscerar e pôr no gelo, o Lucas viria pela noite com as arcas vazias e a pesca feita encheria metade delas, ou seja, no dia seguinte poderíamos ter nova remessa!
      Explico que nós usávamos velhas arcas congeladoras, sem motor, só a carcaça, como meio de manter o gelo e metido nele o peixe, transportá-lo nas caixas das carrinhas.
      Desequipámo-nos pelo caminho, estava calmaria e calor, quando dobrámos a ponta das Baía dos Elefantes, seriam umas 13 horas e trinta, levantou-se uma mareta, com vento de NW. Tinha explicado à Sónia T. que indo para o meio da praia, mais a N, fora do abrigo da ponta Sul, podia ter vento que lhe permitisse sair directamente da areia… e parece que ela me ouviu, mal dobrámos a ponta da Cambiona, vimo-la correr na prancha, lá por fora, velozmente. Tinha um coração do mar aquela!
      Viu-nos e virou de bordo elegantemente, veio para cima de nós. Com absoluto contrôle e perícia baixou a vela e encostou à chata, saltando a bordo. “Eia bem! Vocês não brincam em serviço… não vale a pena!”.
      Ria esplendorosamente, com a cara toda e transmitiu-nos uma sensação imediata de alegria por estarmos ali a fazer o que fazíamos, pulsando em todos nós corações do mar! Bateu a cada um na palma da mão, num cumprimento de camarada. Puxámos a vela e amarrou-se a bossa da prancha na chata, trazendo-a a reboque.

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  6. Nunca li Italo Calvino, apesar de ter começado a ler "As cidades Invisíveis" mas as primeiras páginas não me agarraram. Contudo, é dos autores que tenciono ler, já que até possuo alguns livros dele.

    Oh caríssima Maria do Rosário, permita-me p.f. uma sugestão: já que estamos em Setembro, porque não um post sobre -o 11/9 e os livros-?
    Obrigado

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    1. Vou pensar nisso, meu caro. De qualquer modo, aconselho já o livro Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer.

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    2. Não li nada do Jonathan Safran Foer, mas registei; e obrigado.

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    3. Que deu um filme Extraordinário, por sinal! Emocionante... com Tom Hanks e Sandra Bullock. Não li o livro, só vi o filme que a minha mulher me obrigou a ir ver com ela, e, não me arrependi.

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    4. Uma rectificação:
      Ó caríssima e não Oh caríssima

      Nota: -
      -Ó caríssima (chamamento)

      -Oh que susto (espanto)

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  7. Muito interessante este post, meus parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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