Afinadíssimo
Fico muito triste se se me apaga da lembrança um livro que li, sobretudo quando, mesmo esquecendo em traços largos o enredo, recordo muito bem o quanto gostei dele. Isso aconteceu-me recentemente com Concerto Barroco, do cubano Alejo Carpentier, que decidi reler em férias para poder descobrir porque tanto o amara da primeira vez. E é realmente um pequenino livro-maravilha, um concerto literário fascinante. Fala do encontro em Veneza, durante a época do Carnaval, de um comerciante de prata mexicano que viaja na companhia do seu escravo, rapaz extremamente vivaço e talentoso, com Haendel, Scarlati e o frade ruivo que dá pelo nome de Vivaldi. Pelo meio, ao lado dessas quatro figuras, ouviremos a pequena orquestra de órfãs que foram deixadas na roda do convento em que os outros se resguardam da confusão e depois assistiremos ao pequeno-almoço que as freiras preparam no cemitério de San Michele (onde está sepultado Stravinsky que, apesar de ser um músico do século XX e portanto não contemporâneo dos seus confrades, arranca deles comentários bem divertidos avant la lettre). Barroca e irresistível, esta novela belíssima pode fazer companhia a Os Passos Perdidos, outra maravilha de Carpentier.
E com Carpentier iniciou-se o "Realismo Mágico", afirmam os historiadores de Literatura. Como nunca li o "Concerto Barroco", apesar de o ter na minha biblioteca (era há uns anos livro recorrente em alfarrabistas e feiras de livros usados ou fora de circulação), fico feliz por saber que tenho um festim à minha espera para quando terminar a leitura do espantoso "Espelhos, uma História quase Universal" do Eduardo Galeano.
ResponderEliminarE pode fazer companhia também a "O Reino deste Mundo", na minha modesta opinião.
ResponderEliminarEsse apagão de que fala, no meu caso é quase total, recordo por vezes só um ambiente, uma determinada passagem, praticamente nada da intriga... outras vezes não me lembro sequer se já li o livro!
Posto isto, o que fazer? Desistir? Bom, eu optei por continuar a ler, porque gosto, sabendo que mais tarde não me lembrarei senão dos nomes dos livros e dos respectivos autores - e já não é nada mau!
Caras Coruja Extraordinária e Extraordinária Anfitriã:
EliminarNão sei qual o vosso ponto de situação, porém, apesar de cada refeição, cada perdiz, cada robalão, cada bom livro, constituírem momentos altos e até serem uma razão da minha existência, não consigo ao fim de quase 65 anos lembrar-me de cada um deles!
Qual o problema disso? Pergunto... o que interessa é o prazer que fruimos e fomos acrescentando, em cada um e um por um.
Não me recordo particularmente de todos ou todas? Ora, tenho a alma cheia, sei que estão cá, em mim, e, isso me basta.
Quero lá saber... só se lembrarão bem e serão capazes de os isolar, aqueles que poucos livros tenham lido, os que possuam uma Extraordinária memória... ou mintam! Eheheh!
Saúdo a vossa memória que de tão cheia, de livros bons, até já os esquece!
Já registei estas sugestões (mais que prometedoras), deste escritor cubano que desconhecia, até há minutos.
ResponderEliminarInteressante proposta a que nos é hoje posta!
ResponderEliminarConfesso nunca ter lido nada deste autor cubano, todavia vou sempre a tempo... sou um apreciador do realismo mágico, como do fantástico, do épico ... seja ele europeu ou Sul-americano!
Não tenho argumentos para o afirmar, mas tinha idéia e até fui confirmar, de que Arturo Pietri , é considerado por muitos o pai do realismo mágico (Sul-americano).
Se não estou em erro, creio que há relativamente pouco tempo se falou aqui do seu romance La Isla de Robinson (estarei enganado? A minha memória atraiçoa-se também, sim). Ocorrem-me nomes como Isabel Allende, Júlio Cortázar, Jorge Luiz Borges, Manuel Scorza e o incontornável Gabriel Garcia Márquez, nesta linha literária. Estes surgem-me de imediato, sendo aqueles que li, há outros de quem nunca li nada ou nem por isso me recordo se li ou não... o meu despertar para este género deu-se nos anos 70 e fui lendo, fui lendo e já nem me recordo de boa parte dos livros, caso de La Isla Robinson que terei dificuldade em resumir de memória, aliás deve ter sido um dos primeiros que li. O Garcia Márquez e Borges depois, talvez porque mais notórios. A Isabel A. descobri-a propósito do Extraordinário filme "A casa dos Espíritos". E por aí fora.
Isto a literatura é mesmo como as cerejas... e ainda bem, pois nos deixa Extraordinárias memórias de tantas Horas Extraordinárias que depois podemos aqui reviver!
Saudações memoráveis, cá da Cidade Morena.
Como a compreendo, Maria do Rosário, também fico triste quando isso me acontece, e cada vez acontece com mais frequência... por enquanto ainda consigo lembrar-me se gostei ou detestei, mas seria incapaz de contar o enredo, exceptuando alguns livros muito, muito especiais, que me marcaram mesmo.
ResponderEliminarDeste autor que fala, não só nunca li nada dele como nem sequer me lembro de alguma vez ter lido algo acerca dele: vou tentar colmatar essa falha, pois só muito raramente as suas sugestões me desiludem.
Um bom dia!
🌿🌼
Maria
O António Mega Ferreira na sua "Viagens à Ficção Latino-Americana" dá umas boas pistas. Foi lá que o conheci, ao Alejo e a muitos outros.
EliminarLi e tenho vários livros do Mega, escritor que muito aprecio, mas esse não conheço.
EliminarQue extraordinário nome arranjou... possivelmente já aqui andou com outros... nunca conheci um Ladislau, mas gosto muito de corujas.
Grata pela sugestão.
🦉
Maria
Ladislau Teles Botas!
EliminarDistinto scalabitano, comerciante conhecido e muito popular naquela cidade ribatejana a cuja câmara presidiu por muitos anos, tendo sido considerado o "dinossauro" dos autarcas do PS.
Mas não é nome comum não senhor!
Já o "coruja" imagino que esteja para o nosso caro Extraordinário, como eu sou uma "traça" dos livros.
Ainda bem que gosta muito de corujas, Maria, ainda bem que gosta muito de corujas. Assim fico muito mais quentinho. 😊
EliminarDo autarca, do PS, e do dinossauro, só partilho o nome próprio, salvo melhor opinião.
EliminarSaudações literárias e amistosas cá da cidade - penico - do - céu.
Mas hoje não está aí a chover, pois não?
EliminarSe está a falar daquela que se vê por um canudo, é uma bela cidade.
🦉
Maria
😊
EliminarNão falando do clássico e delicioso texto sobre os ditadoresi"El recurso del metodo" que o Mário Soares seguia e agora o Costa tenta timidamente adaptar.
ResponderEliminarO anónimo Jose Luis Alçada
ResponderEliminarEm 2014 comprei na Bertrand um caderno tipo Moleskine PLANO DE LEITURA (anual), onde anoto os livros que vou lendo, e sobre cada um, quando o comecei a ler e quando o acabei, Edição/Ano, palavras difíceis para verificar e depois os meus comentários sobre o livro. E desde 2014 até hoje que mantenho anotados e em dia estes Planos anuais.
ResponderEliminarÉ interessante porque de vez em quando regresso a um livro que já li e descubro palavras, frases do autor, máximas e outras situações que me surpreendem.
Do mesmo modo sempre que acabo de ler um livro, anoto na última página data de início e data do fim e a minha opinião sobre o livro.
A grande maioria dos livros que lemos passados uns tempos esquecem-se completamente, por exemplo estou a ler (com muito interesse) pela 3°.vez (2009, 2014 e agora) A LOUCA DA CASA da Rosa Montero e já não me lembrava praticamente de nada e o livro continua a agradar-me inteiramente.
Ora aí está uma leitura interessante... um caderno de anotações de leitura!
EliminarNunca me tinha lembrado de tal coisa... mas é Extraordinário!
Sim, também faço esse exercício desde o ano de 1996. Tinha eu 26 anos e já me queixava (e muito) dos esquecimentos. E que dizer agora? E sim, são extraordinários momentos: o da leitura, o das anotações, o das releituras e por fim o das lembranças. Fique bem, com Excelentes Leituras.
EliminarCeleste Silveira
Obrigado Celeste Silveira; sempre "que toca" a livros nunca estamos sozinhos.
EliminarE é bom saber isso, mesmo que saibamos, para tristeza nossa, que somos muito poucos.