Adeus, futuro

Falei aqui há uma semana, pouco mais ou menos, da multiplicação de pontos de vista que passam pela cabeça do Senhor Palomar no livro de Calvino. Mas há pontos de vista inenarráveis que eu não sei como passam pela cabeça seja de quem for... É precisa mesmo uma grande ignorância para dizer que a culpa do Holocausto é dos judeus. Como?! Mas será que quem diz isto pensa que Hitler fez a guerra para lhes palmar o dinheiro e os bens ou que eles pecaram e portanto merecem? Pasmem, mas num lugar onde, por acaso, vivem imensos judeus (os Estados Unidos da América), muitos dos quais oriundos de famílias que saíram da Europa nos anos 1940, fugindo da barbárie e do extermínio, quase dois terços dos jovens adultos desconhecem a existência do Holocausto e, entre os adultos de 18 a 39 anos, há 23% que pensam que o Holocausto é um mito e que tudo o que o cinema e a literatura retratam desse período na Europa é manifestamente excessivo e próximo da lenda. Isto já para não falar das alminhas que culpam os judeus pelo Holocausto, que são, calculem, 11% dos interrogados. Enfim, a culpa é sempre da educação, claro, e a América, a olhar para o seu umbigo, está a esquecer cada vez mais depressa donde vieram a maior parte das famílias que hoje são americanas. Agora, que já não tenho a minha crónica, volto a dizer, chocada: Adeus, futuro.

Comentários

  1. Deveria ser uma Preocupação Global, não permitir que as gerações actuais - por manifesta ignorância, aliás alimentada e propositada - desconheçam a história e façam análises erradas do passado, com base no pensamento actual, sem que lhes seja enquadrada a época, o pensamento, e, a situação em que ocorreram os factos do passado.
    Não é preciso ir aos EUA, no nosso país Portugal, há agora a tendência de ter "vergonha do nosso passado colonial", ignorando-se as realizações e o que de positivo daí adveio, não apenas ao país, mas ao Mundo em geral. É verdade sim!
    O esclarecimento tem de ser um objectivo, na educação, na política e na nossa vida!
    Porém, o esclarecimento do povo é perigoso para os governantes. Pois torna as pessoas capazes de formularem idéias e logo, de terem opiniões próprias, não coincidentes com aquilo para onde eles as querem levar.
    Lá está: - a história está cheia desses casos e exemplos, sendo o do nazismo o mais evidente, estudado e conhecido. O mesmo nazismo que praticou o holocausto de que se fala, e, pasme-se, é hoje tomado por um mito de Holywood! E o mais insólito, ignorado por aquela que se diz ser a geração mais informada... o que é deveras surpreendente e contraria essa teoria.
    É que informação não é conhecimento! Para haver conhecimento é preciso saber usar a informação, transformá-la em saber e não apenas decorá-la, como se faz normalmente.
    Eu recebo a informação de que vai chover bem em Fevereiro e Março! O meu saber de como se processa o crescimento dos pastos, diz-me que então vou ter sementeiras feitas e prontas em Janeiro... beneficiarão dessa chuva e quando chegar a época seca, em Maio, terei feno para guardar e alimentar os animais em tempo de carência.
    É assim que a informação é útil! Foi assim que a Humanidade fez e pelo que se desenvolveu ao longo de milhares de anos.
    Os livros e a leitura não são apenas mera informação, são também depósito de saber, que se completam e divulgam ambos: informação e saber.
    É por isso que temos de defender, de preservar e de divulgar a literatura, a leitura, e, os livros!
    Sob pena de que a Humanidade regrida, volte a um estado de ignorância (ainda que informada), da falta de saber que a prive da sua principal qualidade: a inteligência! O que lhe permitiu chegar até hoje, como estamos: A inteligência, que não pode ser artificial. Tem de ser natural e humana, ou deixaremos de o ser.
    Um bom tema este, para finalizar a semana e nos dar que pensar, durante o período que começa.

    Bom fim de semana, com informação e conhecimento, em tranquilidade e saúde, são os meus votos esclarecidos cá desde a Cidade Morena.

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  2. E o mais que se verá...
    Depois de tão triste panorama, faltou vontade de sugerir um livro. Eu compreendo, e tenho a ousadia de sugerir um: "No Castelo do Barba Azul" de George Steiner. Pode ser?

    Desculpando agora não obedecer ao tema de hoje, gostava imenso de conhecer a opinião da Maria do Rosário, simpática e ilustre anfitriã deste espaço, acerca das publicações de uma nova editora, de seu nome Bazarov. Acontece que para mim são totalmente desconhecidos... O que lhe apraz opinar sobre isso? Ou não lhe apraz nada? Recomenda? É que eu comprei um, à sorte e à morte, na última feira do livro, "Ensaísmo" de Brian Dillon, mas ainda não lhe "peguei". Conheço a atitude da Maria do Rosário neste espaço que é seu, a de somente intervir em casos excepcionais, afinal os afazeres são muitos, o tempo escasso, e a paciência pouca para aturar imbecis. Mas peço- lhe que abra uma excepção e esclareça com o seu saber e gosto a cabeça ignorante desta t... (perdão, ia escrever "traça", mas já existe aqui uma, extraordinária escrevinhadora) coruja dos livros.
    Nem que seja em modo telegráfico. O que me diz do catálogo dessa editora?
    Desde já agradecido.

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    1. Meu caro, apenas li uma entrevista com o proprietário da editora, quase dizendo que a editora é um capricho dele para perder dinheiro... Conheci-o em tempos, na área da comunicação de uma editora onde esteve pouco tempo, mas tenho boa impressão do seu colaborador mais estreito, que é um editor com bastante bom gosto. Porém,ainda não li nem vi ao vivo os livros, até porque este ano só estive na Feira do Livro o indispensável, por causa da distãncia social recomendada e de ter uma mãe de 96 anos. Quando vir os livros, logo me debruçarei sobre eles.

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  3. Ignorância que contrasta com o "boom" de ficção sobre Auschwitz. O rapaz, o carteiro, as gémeas, a rapariga, o tatuador, o carteiro, a bailarina, os bébes, a bibliotecária… José Rodrigues dos Santos tinha que aproveitar a oportunidade que o mercado best-seller lhe oferecia e lá inventou um mágico.

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    1. E ainda por cima disse numa entrevista que a literatura que hoje existe sobre o tema tem uma grande dose de fantasia e que é ele quem escreveu o livro sobre o que realmente se passou! Deus meu...

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    2. Costuma-se dizer que "presunção e água benta, cada um toma a que quer" e o JRS tomou as dele! Deve dar-se o devido desconto. Dele só li A Filha do Capitão devido á temática que aborda, execrei a Fórmula de Deus e bastou-me!

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    3. Artur: sobre temáticas da segunda guerra mundial deve ler-se, sim, grandes autores como Sven Hassel, Hans Hellmut Kirst, Konstantin Simonov e outros. Deste último pode dizer-se que uma das suas vantagens - para além de ser romancista - é o de ter sido, também, poeta. Romances que usam e abusam das "tendências" do mercado, para além de "requentados", são paupérrima literatura.

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    4. O José Rodrigo dos Santos tem de se preocupar é em editar telejornais com o mínimo de qualidade.

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    5. Caro Pedro, obrigado pelas sugestões !

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    6. AHAHAHAHAH!

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    7. Do Hans Hellmut Kirst, li, há muitos anos, um grande livro sobre os mutilados de guerra (sem braços, sem pernas) eram os "homens cesto" (viviam dentro de um cesto), não me lembro o nome do livro; dele só me lembro de "A Caserna".

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    8. Creio que "A filha do capitão" será o melhor livro do 575...

      (O JRS só recebe encomendas de 575 páginas)

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  4. Uma sugestão para quem tiver a coragem e o estômago para ler um relato vivido sobre o horror de Auschwitz: "Sonderkommando" de Shlomo Venezia. Inesquecível.

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    1. Fica a sugestão, Artur, embora agora esteja mais preocupado com a pandemia. Para fazer o que digo e não o que faço, acabei de rasurar o título «Vírus, angiografia de uma libertação». Passou a «Angiografia de uma libertação - em tempo de pandemia». Vamos ver se esta última (a pandemia) não me deixa ficar mal :)

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    2. Já agora "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" do espanhol Adolfo Garcia Ortega - grande livro!

      "TREBLINKA" - É, para mim, o livro que melhor descreve os campos de concentração.

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    3. Concordo plenamente, embora o tenha lido há muito tempo; também na mesma linha aconselho A Centelha da Vida de Erich Maria Remarque

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    4. Não esquecer também "As Benevolentes" de Jonathan Littell.

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  5. Muitos Holocaustos houve na História, mas à falta de quem escrevesse sobre eles, se perderam na memória. Muitos documentos desapareceram e nós não temos conhecimento do que aconteceu no Mundo Antigo.
    Havendo filmes, documentários, testemunhos escritos e falados, como é possível que haja quem duvide que tivesse acontecido? Imagino quando em 2045, se comemorarem os 100 anos do final da 2ª Guerra Mundial, quem acreditará no que aconteceu. Vão pensar que os documentários são ficção.
    Ainda vão pensar que Hitler era judeu e que a bomba atómica de Hiroshima era dos chineses. Pode parecer um absurdo, mas à velocidade que deturpam as informações, acho que nos encaixaremos bem na distopia "1984" com a História a ser reescrita ao sabor dos "grandes líderes". Saudações.

    P.S. Essa do mágico de Auschwitzs... Há cada ideia!

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    1. A bomba atómida, a ser dos chineses, teria sido a sorte dos japões! Porque das duas uma, ou não explodia pura e simplesmente, ou os efeitos seriam quase nenhuns! Ahahah!
      Esta é mázinha, reconheço...

      Mas no resto, absolutamente de acordo!
      E o que é tão mais estranho é justamente haver tanta, mas tanta conversa à volta disso em filmes e livros, e até veladas ameaças sobre o regresso do nazismo, iminente!
      Devem confundir a II Guerra Mundial com a Guerra de O Senhor dos Anéis...

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  6. De Rodrigues dos Santos nunca li nada, nem lerei. Preconceito, claro. Não devo ter perdido grande coisa ao contrário do que aconteceu com a eliminação das crónicas de Maria do Rosário. Hoje é 6a feira, sinto-lhes a falta.

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    1. Pois eu já li... o celebrado Anjo Branco... francamente, tirou-me a vontade de ler mais do autor, e olhe que eu leio de tudo!
      Não que escreva mal, mas... o livro deu-me a sensação de ter sido escrito por 3 pessoas, cada uma escrevendo uma das três partes em que se divide!
      A primeira parte, passada nos tempos difíceis da II Guerra, é muito bom, interessante relato do dia a dia e das dificuldades de então - acham difíceis os tempos actuais? Haviam de ter nascido naquela época...
      Fiquei convencido de que ia haver livro!
      Desilusão... fomos estudar para Coimbra, e a sensaboria instalou-se, tive de saltar aquilo pois não tinha interesse nenhum. Pensei para comigo: foi outro quem escreveu isto, só pode!
      Passei a Moçambique... bom, uma pepineira, uma chachada autêntica.
      Me perdoem a sinceridade, mas passou logo para o rol dos "a não repetir".

      Mas, porém , todavia, contudo, Deus escreve também só que por linhas tortas ao que se diz, e, assim, expatriado e confinado, no exílio em que estou, sem mais leituras, descobri aí num colega meu , "A amante do governador", ora como a necessidade obriga...
      Depois direi o que acho, em devida altura e na habitual rubrica do início do mês que vem!!!!

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    2. Ó Paxeco olha que no nosso Alentejo (e Ribatejo) essa de uma sardinha para três não é ficção (ninguém queria ficar com a cabeça).

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  7. Henrique Votado,
    não é preciso recuar à Antiguidade para conhecer a eliminação de pessoas em massa. Os naturais da América do Norte foram todos eliminados - creio que sobraram umas centenas de pessoas - e não há grande preocupação por esse genocídio.

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    1. Por essa (o genocídio dos peles vemelhas) ser uma questão de honra para o grande, grande MARLON BRANDO é que o maior actor de todos os tempos foi um mal amado nos EU.

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  8. Boa tarde com alegria (apesar da pandemia)

    Quando tinha cinco anos, compravam para casa, salvo erro, o Diário Popular, que nas palavras cruzadas rezava qualquer coisa assim:

    "Cultura é tudo o que fica depois de esquecermos o que aprendemos"

    Donde, a importância da História para trazer para o presente lições do passado.

    Boas leituras e bom fds
    cp

    PS: Cara MRP, faça de conta que está em sua casa, perdão, no DN, e passe a editar as crónicas no blog. Por mim, agradeço!

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    1. Subscrevo, apoio, aplaudo!
      Saída em ombros para si, com volta à arena e música!
      Vamos fazer uma petição?

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  9. Sendo leitor muito ocasional nestas paragens, a propósito do mote, permitam-me a intromissão e uma sugestão para combater a falta de memória.
    "Masters of Death: The SS-Einsatzgruppen and the Invention of the Holocaust" do historiador norte americano Richard Rhodes (galardoado com um Pulitzer pelo seu trabalho sobre a bomba atómica).
    Que conheça, infelizmente, nada deste autor se encontra traduzido para português (deste ou do outro lado do Atlântico).
    Atenção à leitura muito difícil pelo tema, pelas situações, e por se ouvir a voz dos algozes...
    Ainda em torno da falta de memória, este texto permite-nos também perceber que uma parte importante das vítimas do Holocausto não foram apenas judeus.

    Boas leituras e bom fim-de-semana!

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  10. Infelizmente são verdades comprovadas, essas da ignorância vinda de quem menos se esperava.Mas não espanta:. diz-se que mais de 50% dos norte-americanos são incapazes de apontar a dedo, num globo terrestre, onde fica o seu país... E aí temos mais um Adeus, Futuro.

    Guilherme de Almeida

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