Pessoa sempre
Já aqui referi umas quantas vezes que existem vários estudiosos estrangeiros da obra de Pessoa responsáveis por colecções portuguesas dedicadas ao grande poeta. Um dia destes, assisti a uma sessão de apresentação no Facebook do livro O Caso Mental Português, da Assírio e Alvim, em que esteve presente Richard Zenith e onde ouvi uma maravilha de frase sobre a diferença entre erudição e cultura (entre saber e sentir), segundo Pessoa; e agora estou a preparar-me para acompanhar um clube de leitura da revista colombiana El Malpensante, já que quem o orienta é Jeronimo Pizarro, que dirige a colecção pessoana na editora Tinta-da-China. O ciclo abrirá no próximo dia 15 com uma conversa que introduzirá o tema, na qual participam Andrés Hoyos, Alejandro Gaviria e o próprio Jeronimo Pizarro, e será aberta ao público. Serão quatro as sessões e cada uma terá um convidado internacional especialista na obra de Pessoa. Far-se-ão leituras em português e espanhol. Se estiver interessado em inscrever-se, aqui vai o link:
Hoje recomendo um «amigo» de Pessoa: Antonio Tabucchi e O Fio do Horizonte.
Excelente post, cara Maria do Rosário. No entender de Pessoa, membros de uma elite são aqueles que analisam criticamente os factos com ideias próprias e não os endinheirados. Nós, portanto. É título completo da obra que refere: " O caso mental português seguido de a loucura universal ". O que pensar de um país que se julga portador de toda a razoabilidade por contraposição ao restante mundo, com excepção dos seus indefectíveis vizinhos? É um pais consumido pelo pior dos males - a corrupção que alguns consideraram intolerável quando consubstanciada em acordos fiscais familiares e, portanto, justificativa de deposicoes. Seria caso até para rir , mas vai revestinfo já aspectos de grande maldade, pelo que diremos apenas que qualquer decisão fica postergada até à próxima publicação em língua inglesa, mas que estamos muito inclinadas a ajudar quem mais foi prejudicado, em sua casa, pela estupidez então vigente. Claro que isso implicará uma definitiva mudança de posicionamento.
ResponderEliminarUm beijinho e obrigada
Sandra Neves.
Revestindo.
EliminarNão sei bem se os portugueses, entendem ou alcançam na sua largura e profundidade, a obra e o pensamento de Fernando Pessoa! Não só... pois incluo Camões e Gedeão num conjunto de poetas-sábios, cuja obra carece de muito estudo e interpretação mas dos quais não se trata agora! Isto, julgo eu, que não sou no entanto mais do que uma traça dos livros e me reconheço completamente incapaz de o fazer, se bem que me parece ter essa sensibilidade e impressão!
ResponderEliminarIncluio no conjunto, óbviamente as tais designadas "elites", os que se arvoram cultos, modernos, sofisticados, mas que são na verdade de uma ignorância aflitiva pois não conseguem ver além dos seus umbigos e das modas onde vagueiam nessa busca de afirmação de cultura e modernidade, sem perceber nem aceitar a cultura própria do seu país, história e pessoas, feita e composta ao longo de séculos pela deambulação e pela absorção de tudo que no Mundo havia. Pessoa é alguém que justamente o sabia!
Não é fácil entrar em Pessoa, mas é fascinante quando se começa a descobrir e a entender alguma coisa daquilo que ele diz, do que pensa e transmite.
Pessoa era uma pessoa complexa, fascinante sem dúvida e com um entendimento muito largo das coisas e das pessoas, mas creio que algo trabalhoso.
Peço desculpa de estar aqui a falar nisto, como se eu fosse um entendido ou sei lá, um intelectual. Mas espero ouvir a outros, esses sim, dizer algo nem que seja que estou enganado.
Voltarei mais tarde... agora tenho de sair!
Saudações Pessoanas cá da Cidade Morena!
Bolas... sou eu, claro!!!!
EliminarPorque é que a cidade é morena?
EliminarPor morenos serem os seus habitantes... a Praia Morena é um ex-líbris da Cidade de Benguela-a-Nova.
EliminarBenguela foi históricamente considerada uma cidade de "pardos" (mestiços) , quando este termo designava aquilo que mais tarde passou a ser dito como mulatos.
A mestiçagem aqui é tão corrente e presente que se criou uma outra designação, "cabrito" que é o filho da união de mulato com branco.
Benguela é uma cidade onde abundam os mulatos, talvez como em mais nenhuma outra.
Aqui quando alguém tem tez escura não se diz ser negro ou preto, diz-se que é "fula". E o termo "morena" é muito utilizado entre as moças menos "fulas", ou mais claras.
Daí usar esta expressão, cidade morena!
Interessante!
EliminarObrigada pelo esclarecimento!
Não percebi o comentário de Sandra Neves e agradecia que me explicasse.
ResponderEliminar"...os que analisam criticamente os factos com ideias próprias e não os endinheirados.Nos,portanto"Deprendo que os portugueses.
"...pais que se julga portador de toda a razoabilidade,por contraposição ao restante mundo,com exceção dos seus indefetíveis vizinhos".Quem?A quem se refere?
"...E´um pais consumido pelo pior dos males-a corrupção...diremos apenas que qualquer decisão fica postergada ate a próxima publicação em língua inglesa "Deduzo que se refere a Portugal e a publicação em língua inglesa sera o seu próximo livro.
Por favor elucide-me.
Bibi
Olá bibi! Esclareço, com todo o prazer.
EliminarEm primeiro lugar, não existe maior sinal de inteligência do que entender que o facto de uma pessoa ter um pensamento muito diverso do nosso não significa que seja louca, mas sim distinta de nós e que isso até será natural caso pertença a uma geração muito diferente, uma geração em que os ex-maridos não mandam internar as ex-mulheres porque são seus amigos, dado que permaneceram entre ambos muitos interesses em comum.
Dito isto: o meu próximo livro publicado será em língua inglesa porque estou a ser alvo de discriminação de género no meu país. Sobre isto falarei publicamente a seu tempo. Com prováveis consequências.
Sobre o resto - a corrupção- não me cumpre falar sem provas, independentemente de ter conhecimento dos problemas.
Direi apenas que, se é natural e até desejável a cordialidade e colaboração entre adversários políticos, quando estas se transformam em excessiva intimidade é porque algo de pernicioso se passa. Como disse um jovem político a semana passada, fulano de tal até pode ser muito boa pessoa, mas eu não tenho a mesma ideologia, pelo que não votarei nele. É esta a visão saudável e desinteressada.
Um beijinho e obrigada pelo interesse.
Sandra Neves.
E qual é essa frase sobre a diferença entre erudição e cultura (entre saber e sentir), segundo Pessoa?
ResponderEliminarEspreite o livro!
EliminarÓ Caríssima MRP, obrigado pelo favor da sua esclarecedora resposta.
EliminarAhahahah!
EliminarVão perdoar a gargalhada que me provocam com os vossos posts - o da resposta e o da frustração!
Enfim... Pessoa não é assim tão directo e óbvio, ou muito raramente.
Esta questão que hoje aqui se levanta, tem sido uma das reflexões a que mais me tenho dedicado, passe a prosápia de querer passar pelo que não sou... mas sendo eu uma traça tenho estas preocupações, até porque e suponho que seja compreensível, a minha função de "consultor" me obriga a ser qlguém que reúne conhecimentos generalistas bastantes para poder procurar os conhecimentos objectivos na especialidade. O que me leva a esta questão Pessoana. Não sei se me fiz entender?
Severino vai a este link, onde encontras uma explicação, algo complicada e a pedir reflexão, mas creio que te serve: https://novaziodaonda.wordpress.com/2014/12/05/o-erudito-le-e-fica-sabendo-o-homem-culto-quanto-mais-le-de-menos-fica-certo/
Aliás aconselho-o aos Extraordinários interessados neste tema de hoje, que estranho ver tão pouco participado... onde estão os Pessoanos? Ou será que este espaço é só frequentado por Ecianos, Saramaguianos e Loboantunianos?
Bolas! Qual anónimo... sou eu! Outra vez e sempre!
EliminarObrigado ó Paxeco pela tua costumada (e tão simples) simpatia e disponibilidade (está-te no ADN).
EliminarÉ como salientas: quanto mais aprendo mais alargo o campo da minha ignorância (e eu que sou um grande ignorante e um simples "cultura de almanaque", vê bem como o campo se alarga...e, entretanto, continuo, não só aqui neste blogue, a ser surpreendido por doutos sábios e sábias).
Abraço
Vão-me desculpar, porém na continuação do nosso tema, Fernando Pessoa e os Pessoanos, de que não gostaria de me desviar e nem que nos desviássemos, veio-me à memória esta frase do nosso Homem de hoje, que acho curiosíssima e muito esclarecedora, penso aliás, que permanece actual:
ResponderEliminar- Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando menos, os seus companheiros de espírito?
Esta reflexão, para mim faz muito sentido! Reitero a minha opinião quanto ao interesse que ele nos desperta, à medida que o vamos lendo e conhecendo melhor, em toda a sua profundidade e largura. Mas só aos que gostam de pensar, julgo eu, para os do consumo imediato não tanto.
Talvez esteja fora de moda em Portugal, mas ainda bem que continua a haver quem por ele se interesse, ainda que no estrangeiro, pois por cá haverá outras modas. Só que Pessoa não se encaixa em modas, é universal e transversal, julgo eu.
Saudações cá de um Universo reconstruído sem ideal nem esperança (?) !
Sou ainda eu! Raio de anonimatos...
EliminarCara Sandra Neves
ResponderEliminarAgradeço a sua explicação e parece que afinal era o que eu pensava.
Quanto ao seu livro a ser publicado oportunamente,desejo as maiores felicidades.
Bibi
Bibi: por norma, o que parece, é. Gostaria, por vários motivos, que a publicação ocorresse antes do final do ano. Mas não depende de só de mim.
EliminarObrigada e até breve.
Sandra
O meu heterónimo favorito: Álvaro de Campos. Também por ele fui para engenheiro e descobri que os engenheiros podem gostar de literatura. Este foi o primeiro poema que li de Álvaro de Campos e que me fez apaixonar por Pessoa:
ResponderEliminarNo tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Fernando Pessoa nasceu no dia de Santo António (daí chamar-se Fernando António).
ResponderEliminarTalvez por isso tenha também algo de casamenteiro, digo eu :)
Foi Fernando Pessoa que juntou Pilar e Saramago; foi também ele que juntou António Tabucchi e Maria José de Lancastre: dois casamentos felizes e duradouros, até que a morte os separou.
Curiosamente, Saramago e Tabucchi não se davam muito bem: esse milagre Pessoa não conseguiu fazer :(
Mas eu gosto imenso destes três escritores e recomendaria, sem hesitar, qualquer livro do Tabucchi: o mais português de todos os escritores italianos.
🌻
Maria
Uma romântica portanto: não conheço a obra do Tabucchi mas, ainda que correndo o risco de ser injusto, penso que Pessoa e Saramago são de outro campeonato,
EliminarPor acaso até não.
EliminarMas Tabucchi veio para Portugal para aprender a língua e ler Pessoa no original. Encontrou a Maria José, autora da fantástica Fotobiografia de Pessoa. Ficou por cá: final feliz!
No meu pódio nacional estão Eça, Pessoa e Saramago (ordem cronológica) e com isto penso ter respondido àquilo dos campeonatos.
O Tabucchi foi um escritor de muita qualidade, conhecido e premiado em muitos países e não apenas em Itália.
Li (e tenho) muitos livros dele.
O primeiro foi "Afirma Pereira", um livro extraordinário passado em Lisboa no tempo da ditadura. Dele foi feito um filme protagonizado pelo Mastroianni e também uma novela gráfica bastante premiada.
Se estiver interessado pode pesquisar na net. Mas isto é só a minha opinião e vale o que vale...
🌻
Maria
Extraordinária Maria,
EliminarApesar de não a conhecer, gosto de a ler e prezo muito a sua opinião. Espero que não tenha levado a mal a história dos campeonatos. Posto isto, eis o meu pódio nacional:
Fernando Pessoa, Manuel da Fonseca e Herberto Hélder ( não sei se são os melhores, mas foram os que me mais me marcaram). Fiquei curioso com o Tabucchi - qual o livro que me
aconselha?
*que livro me aconselha? "lapsus linguae"
EliminarPrecisamente o "Afirma Pereira", o primeiro que li e logo me cativou. Parece um título estranho mas se o ler vai ver que tudo faz sentido.
EliminarAntónio, os melhores são os que nós mais gostamos de ler em determinadas alturas da nossa vida; depois tudo pode mudar, porque nós também mudamos. Eu gosto de aceitar sugestões mas não me sinto na obrigação de gostar de um livro só porque todos dizem que é bom. :)
Também gostei de ler o homem de Santiago do Cacém, mas acima dele ponho o Torga, o Vergílio Ferreira e o Ferreira de Castro.
Boas leituras.
🌻
Maria
Muito obrigado pela sugestão.
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