O velho escritor
Quando se trata de um autor de quem já li muitos livros, às tantas, ao olhar para um título ou uma capa, já não consigo recordar bem a história e até me acontece confundi-la com outra. Um dia destes, no jardim da Gulbenkian, encontrámos um amigo que trazia o Escritor Fantasma, de Roth, debaixo do braço. Fiquei a pensar se já o tinha lido quando o Manel me assegurou que o tínhamos lido ambos e que se tratava da história de um jovem escritor que vai visitar o grande escritor que admira para... (não, não conto mais, sosseguem). Bastou isto para eu ver logo a cena inicial e me lembrar de comboios e mantas e discussões e lágrimas. Lembrei-me então também de uma história parecida com a escrita por Roth, mas real, de um autor mais novo que conheceu finalmente o seu grande ídolo, visitando-o uns meses antes de ele morrer e a quem, no Natal que se seguiu a essa visita, escreveu uma carta muito bonita a agradecer ao mestre a simpatia ao tê-lo recebido e a desejar-lhe festas felizes e um bom ano novo. Estranhou que este nunca lhe respondesse, porque tinham trocado correspondência antes da visita e o velho escritor era educadíssimo; mas pouco depois foi surpreendido com a notícia da sua morte e percebeu que o seu estado de saúde o deveria ter impedido de o fazer. Pois bem, o escritor mais velho não tinha herdeiros e legou todo o seu espólio a uma entidade pública (biblioteca, arquivo, não recordo bem) que terá contratado alguém para o classificar. Foi uns meses depois que o escritor mais novo, vejam lá, recebeu uma proposta anónima para comprar a própria carta que escrevera ao ídolo! O bandido não teve sorte nenhuma (o jovem escritor fez-lhe um manguito e não comprou a carta; e, dois anos mais tarde, a entidade pública acabou por devolver-lha, pois ainda se encontrava fechada). Mas, enfim, é uma história que ensina que gente sem escrúpulos há-a em todo o lado, mesmo no meio bonito da literatura.
Leiam, claro, O Escritor Fantasma, de Philip Roth. É o que vos recomendo para hoje.
Pois: é como os tolos meliantes que, não se apercebendo da gravidade dos seus actos pretéritos, insistem em remexer neles, tendo hoje acordado com um problema gravíssimo.
ResponderEliminarUm dia bom,
Sandra Neves.
O dinheiro é quem mais ordena. Ou, como disse Conrad num romance seu: se um bem material entra em nós, deixamos de exixtir, passamos a ser o veículo desse bem. Não escreveu bem assim mas a ideia creio que foi essa.
ResponderEliminarAh, Maria do Rosário, isso não de faz agora ficamos todos a pensar quem seria o tal escritor...
ResponderEliminarPelo menos eu, que sou cusca q. b., fico!
E pensei que poderia ser o Vergílio Ferreira, há muita coisa que bate certo...
E a entidade pública seria a Biblioteca de Gouveia, onde estive há uns bons anos e me comovi ao ver a biblioteca dele tão bem cuidada, incluíndo o sofá e a mantinha que ele usava. Peguei num livro da Virginia Woolf e vi nas margens, escrito a lápis, a tradução de algumas palavras.
Nesse dia também estivemos (éramos um grupo) no Seminário do Fundão e na campa dele em Melo.
Compreendo que não confirme ou desminta, mas fica o palpite...
🌻
Maria
Adorei o seu comentário, Maria,.
EliminarSandra Neves
Maria, embora não vá revelar quem me contou o episódio (foi o escritor novo), não se tratava de um autor português. E o velho escritor era Julien Gracq.
EliminarObrigada, Sandra!
EliminarEu tinha uma suspeita em relação ao escritor jovem e fui pesquisar.
Certezas não tenho, obviamente, mas confirmei (numa crónica) que o José Luís Peixoto adorou ler os Diários do Vergílio, tal como os do Torga aí pelos 17/19 anos; e penso que era menino para ter escrito a tal carta...
Uma vez peguei num livro que tinha um quadro da Paula Rego na capa. Li a sinopse, vi quem era a editora e pensei : porque não? Se não gostar emolduro a capa :)
Tenho-o ali autografado (passou por aqui há imensos anos e teve a paciência de me fazer seis dedicatórias diferentes).
E
Tenho comprado e lido tudo o que ele publicou e continua a ser o meu preferido entre os ditos "escritores jovens" .
Gostaria que tivesse sido ele a escrever a tal carta...
🌻
Maria
Está esclarecido, então. Esperemos que depois desta manhã o autor jovem ( que, definitivamente, não é português) não venha a tornar-se nosso compatriota pela força.
EliminarSandra
Obrigada por responder, Rosário, vou ter que investigar esse Gracq :)
EliminarEntretanto, pode ser que alguém se entusiasme e vá até Gouveia e Melo: o Vergílio merece, penso eu, e os ares da Estrela são do melhor que há para respirar.
E aquilo do Nenhum Olhar é verdade.
🌻
Maria
Não me parece.
EliminarMas é verdade: nenhum olhar e nenhum toque.
Sandra.
Já vi que o Julien Gracq era um escritor muito discreto e que até ganhou (e recusou) o Goncourt em 1951.
EliminarTambém encontrei uma jovem escritora que escreveu um livro sobre ele.
E por hoje acabaram-se os meus palpites
Só posso dizer (recomendar jamé!) :
Leiam Vergílio, leiam Peixoto, leiam Gracq, leiam Roth, vão à Estrela, vão à praia, sejam Extraordinariamente Felizes!
🌻
Maria
Obrigado à Maria do Rosário por lembrar "O Escritor Fantasma" um dos livros da minha vida. Já o li e reli no original e traduzido. Que grande história ! Que maravilhoso estilo ! Que plêiade de temas essenciais sobre a condição humana são tratados com tanta mestria num romance breve ! Tal como a Maria do Rosário, não vou contar nada do enredo. Apenas que Zuckerman, alter ego do Roth, é um jovem aspirante a escritor que está num retiro literário em área rural da East Coast e decide fazer uma visita de um dia (acaba por lá ficar dormir para o dia seguinte) a casa de um velho escritor, o seu ídolo, e que encontra em crise conjugal de meia idade. O velho escritor é inspirado em Bernard Malamud, outro enormíssimo escritor, sobretudo contista. Lá encontra uma jovem aspirante a escritora, refugiada da segunda guerra (o título em português talvez devesse ser escritora em vez de escritor; writer em inglês não tem género). Mais não digo, como prometi. Apenas que essa escritora fantasma irá reaparecer em Nova Iorque, já envelhecida e frágil, num livro mais tardio de Zuckerman... E não há ninguém que seja mais central à identidade judaica do século XX do que ela.
ResponderEliminarAh, tenho mesmo que ler esse... é que, ainda por cima, gosto imenso do Malamud.
EliminarE o Artur não disse mais, mas disse o suficiente para despertar a minha curiosidade :)
🌻
Maria
Pois: que remédio Senhor Judeu (ou será Fariseu?)¡! Passe a ironia, pois a pomada, neste caso, não será remédio. Quanto ao ter ganho e recusado é historia mesmo muito mal contada.
EliminarSandra
Cara Maria, espero que o livro a fascine tanto como o fez a mim ! Abraço
Eliminar?
EliminarPois: lá teve de ser, não é senhor fariseu?
EliminarSandra Neves.
Espero que sim, Artur, até porque muitas vezes temos gostos coincidentes. :)
EliminarAbraço
🌻
Maria
?
EliminarRealmente, por vezes, acontece-me também ficar a pensar se já li este ou aquele livro, por isso mesmo passei a escrever no início do livro a data em que o começo a ler e no fim a data em que o terminei, pois já me aconteceu reler um livro e só a meio do mesmo comecei a ver que já o tinha lido.
ResponderEliminarPhilip Roth é um dos meus escritores preferidos, creio já ter lido todos os que foram traduzidos e publicados em Portugal.
"A Pastoral Americana" foi o de que mais gostei.
Grande escritor é Philip Roth!
Hello
ResponderEliminarHello to U2!
Eliminar