O que ando a ler
Não vale a pena esconder o meu gosto especial por Barnes, pois volta e meia cá venho eu falar de um dos seus livros, e sempre com o maior entusiasmo. Desta feita, aliás, já o referi de forma evasiva em dois posts da semana passada, um deles em que contei que andava a ler um livro sobre a morte que contava histórias dos últimos momentos de uns quantos autores, entre eles o malogrado Somerset Maugham, que acabou mal; o outro em que referi a ausência de epitáfio na campa dos irmãos Goncourt. Pois tudo isso foi lido na maravilha que é Nada a Temer, do querido Barnes, um autor que gosta muito de escrever sobre a morte (Os Níveis da Vida, O Papagaio de Flaubert são outros títulos que olham para ela, embora de maneiras diferentes). Porém, Nada a Temer é exclusivamente uma reflexão sobre a morte, a mortalidade, Deus, o que vem (ou não) depois de morrermos, o aborrecimento do acabar, os tempos sinistros que precedem o culminar da vida, quem tem medo da morte e quem, por sua vez, parece que não tem «nada a temer». Mas, para falar de tudo isso, Barnes tem um humor impagável que põe a nu episódios hilariantes que envolvem avós e pais, os amigos, os confrades e sobretudo o seu irmão filósofo, que espera ser enterrado no jardim de casa e fertilizá-lo. E está cheio de pequenas histórias deliciosas sobre escritores e artistas, como a de Rabelais (o autor de Pantagruel) que, no seu leito de morte, se despede dizendo: «Vou em busca do Grande Talvez.» Não percam. Fartei-me de marcar passagens memoráveis, eu, que raramente sublinho livros. É a minha recomendação para hoje. Nada a Temer, traduzido por Helena Cardoso para a Quetzal numa reedição muito recente.
Partilho esse seu gosto pelo Barnes
ResponderEliminarE só não o vou ler porque já o li há uns bons anos, mas vou reler algumas passagens que também sublinhei.
Um bom dia!
Fica o apontamento, pois este "Nada a temer" é livro que vou ler, de certeza absoluta!
ResponderEliminarBoa e excelente indicação, mais uma para ser honesto.
Já eu... o que ando a ler... nem queiram saber! Estou a trabalhar em vários grande projectos ao mesmo tempo: um grande matadouro, produção de abacates, macadâmias, piscicultura de mar, aproveitamento de forragem natural expontânea... o que me tem obrigado a ler muito, muitíssimo, mas ao mesmo tempo prejudica a leitura de lazer.
Citar o que ando a ler... não merece a pena!
Depois já esgotei o que trouxe... e contava ir a Portugal agora em Julho, mas duvido que aconteça. Vou ter procurar soluções... por aqui é difícil encontrar livros à venda, mas depois vos conto!
Saudações a seco, cá da Cidade Morena, sem livros!
Gostei muitíssimo d'O Papagaio de Flaubert, mas a fasquia ficou muito alta e o que li de Barnes, depois, desiludiu-me francamente. Não tencionava voltar a Barnes mas como o tema proposto é tentador...
ResponderEliminarAcabei de ler "Equador" de Miguel Sousa Tavares.
ResponderEliminarGostei de ler. Além de estar bem escrito, é muito "cinematográfico" (tem boas discrições...), é fácil colocar-me em S. Tomé e Príncipe. Foi uma boa surpresa e aborda um tema tão em voga (a escravatura...).
Sei a razão de este livro ter estado 17 anos à minha espera na estante. Como o seu segundo romance, "Rio das Flores", foi muito criticado (e com razão, é chato e banal...), acabei por não ler o "Equador"...
(não ficou muito claro... mas foi a leitura de "Rio das Flores" que fez que perdesse a vontade de viajar pelo "Equador"...)
EliminarLi Equador assim que saíu e gostei muito, tal como gostei da série que a tvi fez, tendo como protagonista o malogrado Filipe Duarte (que eu achava o melhor actor da sua geração). Mas todos os actores principais eram excelentes e as paisagens de uma beleza inexcedível.
EliminarNunca li o Rio das Flores, nunca calhou comprá-lo...
Boas leituras, Luís!
É curioso... já eu gostei mais de "Rio das Flores"!
EliminarTalvez porque "Rio das Flores" me diga mais, o meu ruralismo superando o africanismo!
Gostei bastante dos dois, aliás!
Falando nisso, o melhor livro que jamais li sobre o Alentejo, e, os primórdios daquilo que foi depois, considero-o mesmo mesmo melhor que Brito Camacho, é da autoria de Mário Ventura, e chama-se "Vida e morte dos Santiagos".
É daqueles livros que acredito deviam ser de leitura obrigatória, tal como "Entre Cós e Alpedriz", dentre aqueles que nos possam esclarecer sobre quem somos e de onde vimos.
Obrigatórios para as novas gerações, ou... Adeus presente e futuro!
Há tantos livros injustamente ignorados, que acho meu dever chamar a atenção, sobretudo quando estamos em meio de gente que gosta de ler!
Devo esclarecer algo, que parece ser uma contradição...
EliminarGostei de "Rio das Flores", sim, pela ligação ao Mundo Rural.
Porém, não me coíbo de achar que é um ruralismo da treta, com sabor e aroma a falso, escrito na verdade por um urbano que quer ser rural, faz um notável esforço para isso, mas não consegue libertar-se dos tiques urbanos!
Havia e conheci, tenho conhecido muitas pessoas assim, rurais-urbanos e urbanos-rurais.
Tudo bem, têm a sua vez e fazem falta se ajudarem a causa!
Por isso gostei de "Rio das Flores", falta-lhe autenticidade no sentimento, mas está muito bem escrito e concebida a trama, o romance. Portanto gostei!
Bom dia,
ResponderEliminarCostumo ler este blog mas é a primeira vez que comento. E para dizer que de facto este livro é maravilhoso.
E nem gosto especialmente dos outros livros de Barnes. Este já o li há alguns anos e não me canso de o recomendar.
Um livro sobre a morte mas tão bom que não é nada deprimente.
Aconselho vivamente.
Maria Alves
Também adoro o Julian Barnes e estou ansiosa para ler este novo livro dele.
ResponderEliminarRegina, este não é o novo livro dele. É uma reedição do livro que ele escreveu em 2008 e que a Quetzal editou em 2011, altura em que eu o comprei.
EliminarEu estava à espera do novo livro dele esta Primavera mas, tanto quanto sei, ainda não saíu.
Mas um livro que ainda não lemos é sempre novo para nós... e este vale mesmo a pena ler :)
Boas leituras!
Francamente nunca li nada de Julian Barnes que me encantasse particularmente.Talvez este seja mais do meu gosto,veremos.
ResponderEliminarQuanto as minhas leituras,terminei recentemente "A mulher que correu atras do vento"de João Tordo,que recomendo vivamente.
Bibi
Ando a ler Tenda dos Milagres de Jorge Amado,com calma, sugerido pela Isabel Lucas que anda lá pelos Brasis. Espero começar a ler o Santo António da Agustina e acabei de ler a biografia de José Fouché do Stefan Zweig. Li o Equador e gostei, detestei Rio das Flores e nunca mais li nada do autor.
ResponderEliminarFoi "O Papagaio de Flaubert" o livro de Barnes que primeiro me seduziu. No entanto, acho-o um autor um tanto irregular. Para mim a obra prima dele é "Um Sentido do Fim": tem reflexões brilhantes que nos deixam parados a pensar nelas, antes de retomarmos a leitura, e a história agarra-nos do princípio ao fim com uma pergunta (porque se suicida um jovem brilhante e de sucesso?) que é resolvida com a revelação de um enigma só compreendido no fim do livro. A solução é convincente, mas confesso não ter pensado nela durante a leitura do livro, apesar do escritor ir oferecendo ao leitor umas deixas aqui e acolá, mas só a posteriori é que o percebi. É uma obra brilhante a vários níveis, na qualidade da reflexão e do estilo literário e na construção do enredo; ganhou o Booker e mereceu-o; tirei igual prazer da releitura do romance na língua original. Pelo contrário, não consegui chegar ao fim de "O Ruído do Tempo" uma biografia de Shostakovitch, versando sobretudo da sua vida interior durante estalinismo. A meio caminho entre um e outro livro, no prazer que tirei da sua leitura, está "A Única História", o último romance do Julian Barnes. Li-o com prazer mas a história não é empolgante, embora tenha sido impressionado pela crueldade emocional do final da relação extra-matrimonial longa entre o jovem protagonista e uma mulher com mais duas décadas de vida do que ele. O Barnes, tal como o Vila-Matas, é um excelente escritor "misto" em que as suas obras nos oferecem enredos entremeados por reflexões ensaísticas. "Nada a Temer" pertencerá portanto ao género de livro de ensaio ainda que fazendo apelo às experiências de vida do autor. Irei ler umas páginas do "Nada a Temer" numa livraria a ver se me decido a desembolsar os 15 euritos.
ResponderEliminarComo de costume, gostei muito de o ler, Extraordinário Artur!
EliminarConcordo inteiramente consigo, no que diz respeito a "Um sentido do fim".
Não li outros que refere, mas no fundo talvez aquilo que Barnes tenha, seja capacidade de escrever de forma alargada, e por isso tanto agrada como desgrada, ora a uns, ora a outros... será?
Grande abraço!
Pois, neste momento leio coisas menos curiais - mas não menos interessantes - como "A alegoria do património" de Francoise Choay e a "História da Arte" de Xavier Altet.
ResponderEliminarE - perdoem-me a publicidade - a começar a ler, publicado pela Gradiva, o "Fui Soldado e morri...".
Primeiro romance de alguém que escreve formalmente muitíssimo bem; e que aos treze anos e de modo fraternal me despertou para a escrita poética - já com dez anos, um pouco mais velho do que eu, fechava-se na dispensa deglutindo açúcar à colherada, ao mesmo tempo que ingurgitava, pela "goela" dos olhos, "resmas" de livros de poesia e prosa... não consta, entretanto, que sofra de diabetes
Isso não se faz!!!!
EliminarEsse livro - Fui soldado e morri - há-de ser não só bom, mas muito interessante e se calhar sabemos porquê, mas não adianta estar aqui a revelar, no entanto o detalhe do "entre messes"...
Bom, adiante.
Está na calha... veremos como chego até ele, ou como ele chega até mim.
Abraço para si e outro ao "papa-açúcar" !
Por acaso quase ao lado da messe de Lourenço Marques, António. Entre ela e nós morava o Chiquinho Costa Gomes, que consta se perdeu no Brasil e um grande mangueira que dava frutos para os dois lados. Um abraço.
EliminarQue venha o "Entre messes", entretanto, António.
EliminarEstá na hora de despareceres por uns tempos, oh canalha Sande! Ou queres que a história seja contada aqui mesmo?
EliminarSandra Neves
Ando a ler "George Steiner em The New Yorker" da Relógio d'Água. É, para mim, um prazer imenso ler esta conjugação de erudição, pensamento crítico, composição literária e sensibilidade de ficcionista. Os temas - por exemplo, o da espionagem - fisgam-me, também, pelo lado da curiosidade.
ResponderEliminarSão artigos, uma colectânea de artigos, certo?
EliminarMy unwritten books, não existe traduzido em português?
EliminarTenho pena... estive mais do que uma vez com ele na mão, mas odeio ler em inglês, não tenho paciência quando é por prazer.
Sim. É um conjunto de artigos.
EliminarSim, está traduzido na Gradiva. "Os Livros que não escrevi."
EliminarMuito obrigado, tenho de ir procurar, porque quero mesmo ler!
EliminarSaudações cá da Cidade Morena!
Também gosto de Julian Barnes. O meu preferido é "Arthur e George". :)
ResponderEliminarTambém gosto de Julian Barnes. O meu preferido é "Arthur e George". :)
Eliminar"História do Cerco de Lisboa", será talvez o livro do grande José Saramago que até agora (vou a meio) ainda não me "agarrou", não digo desiludiu porque a escrita do Saramago é clara, límpida, abrangente e única.
ResponderEliminarJulian Barnes - tudo o que dele li (cinco ou seis livros). Estrelas-de um a dez sete!
EliminarVoto no Fernando Namora - esse brilhante oftalmologista da esquerda moderna, porque face ao observado hoje me foi permitido votar.
ResponderEliminarEu ando a ler as cartas do Cesariny à Vieira da Silva e ao Cruzeiro Seixas - depois de ler a biografia do António Cândido Franco, esgoto de uma vez o assunto. Também ando a espreitar os ensaios do Luís Miguel Nava; os Bilhetes de Colares e Todas as Crónicas da Clarice Lispector. Qualquer dia já consegui aprimorar esta arte de ler cinco livros ao mesmo tempo. O seu, Poesia Reunida, li num dia: Love at first sight (por falar em amor também tenho ali por abrir, encertar - como se diz em trás-os-montes -, o Modern Love que são as histórias de amor, perda e redenção dos leitores do NY Times).
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