Estrangeira em qualquer lugar
Estará à venda a partir de amanhã um livro que me chamou a atenção por partir de uma premissa altamente atraente: como aprende a falar uma filha de pais surdos? E em que língua sonha essa rapariga/mulher que vive em todo o lado sem pertencer a lugar nenhum? E como, estando longe, comunica com os pais que a não ouvem? E porque, afinal, se apaixona pelas línguas e se torna tradutora? Fiquei logo curiosa, li-o de um golpe e soube que queria publicá-lo. É um misto de memórias, ficção, romance de formação, autobiografia, enfim, um livro pouco convencional e por isso mesmo inovador. Chama-se Sempre Estrangeira e escreveu-o a italiana Claudia Durastanti que, nascida em Brooklyn, em Nova Iorque, é recambiada para uma minúscula aldeia em Itália quando os pais, que acham ter salvado a vida um do outro e nunca se vitimizam pela sua deficiência (pelo contrário!), decidem separar-se, deixando a Claudia uma experiência de vaivém que a levará a replicar o comportamento migratório até hoje, seja atrás dos estudos, seja inclusivamente atrás do amor. Este é um livro maravilhosamente escrito, uma viagem em busca de auto-afirmação, em que a geografia, a arte e a linguagem são ao mesmo tempo armas de revolta e de redenção. Obrigatório ler. A tradução é do poeta Vasco Gato.
Ups! Parece que o livro afinal só sai na terça-feira da semana que vem. Mil perdões.

As mulheres têm especial obrigação de mútuo auxilio num tempo em que se verificam graves ameaças aos seus direitos que poderão implicar retrocessos aos direitos há muito conquistados, como disse ontem a Senadora Clinton. Salvaremos a Cláudia (e todas as outras) ao salvarmo-nos. Quem tem visibilidade tem esse dever. É possível que seja já no fim do verão para prevenir mandatos desnecessários. Adeus férias!
ResponderEliminarSerá também um "exemplo " do que acontece a quem se atreve contra o lado feminino da humanidade.
EliminarSandra Neves.
1º - Não me parece que o problema referido no livro, seja exclusivo das muheres!
ResponderEliminar2º - Não percebi: a protagonista é que é surda? Ou eram os pais?
Se é filha de pais surdos (que não consigam portanto falar), mas não o sendo ela, a escola resolve óbviamente, e as outras pessoas com quem conviva..
Se a surda é ela, de nascença, a coisa complica-se, mas suponho que modernamente haja formas de o mitigar, através do ensino especial...
No entanto não deixa de ser dramático, é claro.
Fiquei tocado com o título, que de facto expressa na perfeição o que deve ser e como se sentirá alguém assim. O tema é sensível, eu sofro de surdez (parcial) pelo que me identifico com o problema, conseguindo atingir a dimensão do que seja não ouvir absolutamente nada.
Saudações sonoras cá de uma Cidade Morena, cheia de sons!
Estava aqui a pensar, que não há muitas obras sobre experiências pessoais deste tipo.
ResponderEliminarSão impressionantes e constituem exemplos de vida.
Estou a lembrar-me de "O meu pé esquerdo", que relata a vida real de Christy Brown, nascido com paralisia cerebral, e que movendo apenas o pé esquerdo, escreveu e pintou... li há muitos anos este Extraordinário testemunho que depois valeu a Daniel Day-Lewis uma das suas melhores interpretações.
"O meu irmão", de Afonso Reis Cabral, ficcionado, conta-nos a história de dois irmãos, sendo uma homenagem mais do que a quem sofre de deficiência, a quem se dedica ao apoio do deficiente, tantas vezes esquecido...
Não posso deixar de referir, algo que soube só há poucos dias... e que foi o consagrado Pablo Neruda, de aparente sensibilidade Extraordinária, ter desprezado e abandonado à miséria, a ex-mulher e uma filha que nasceu com Hidrocefalia, morrendo aos oito anos.
São dramas da vida real, consubstanciados em livros que nos tocam - é para isso que servem os livros - e que nos lembram que há uma pessoa por trás do escritor, pessoa essa que sendo embora grande escritor pode não ser grande pessoa. Eu faço a distinção, leio o livro e nem por isso o autor, se bem que também há autores cuja grandeza humana nos fascine... lembro assim de repente e por ser recente Selma Lagerlöf, também nascida com um defeito que a impediu de andar por um período em criança.
Enfim, fica o pensamento... partilhado com quem queira , pois me parece tema literário interessante.
Para ser grande é preciso ter coragem o que é difícil, caríssimo, implica prejudicarmo-nos durante certo período de tempo para defendermos o que entendemos correcto. Não batamos demasiado nos insectos, já lhes basta serem assim...atravancadinhos. Também é muito mais fácil sermos imbecis e tentarmos constantemente impormo-nos pela força do que sabermos seduzir. Mas a inteligência não é apanágio de todos.
EliminarBoa semana!
Sandra Neves
A capa está impressionante. Dedicada inclusive à "bandeira desvairada" de certo modo qualquer elogio, não nos é privilégio. Peço desculpas se lhe o tenha por onde ofender, mas nem tenho intenção se não há breve clausura ou a impotência o lema.
ResponderEliminarEstá arte magnífica que é a escrita, corre o risco de traçar incongruências quando dita a experiência do silêncio feminino. Cala-se por diversos motivos entre os mais estranhos e absurdos.
A máxima diz: quem cala consente.
O silêncio é opressivo ou libertador?
Cláudia da Silva Tomazi
É impossível não ficar seduzido com esta "apresentação".
ResponderEliminarSubscrevo o que diz- Se me é permitida a ousadia: muito bem vendido este livro.
EliminarAntónio Dinis . "ipse dixit", apareceu anónimo não sei porquê.
EliminarÉ assustadora a mentalidade misógina e moralista que vai prevalecendo neste país, construída sobre a humilhação das mulheres e o seu apoucamento.
ResponderEliminarSem dúvida reflexo da ascensão de certas antas putrefactas ao mais alto cargo do Estado.
Será preciso um Mee Too em Portugal? Eu inicio-o!
Sandra Neves.
"humilhação das mulheres e o seu apoucamento". Pergunto eu: Na actualidade?
EliminarEntão e as nossas Mães e as nossas Avós (do povo)? Fale-se dessa escravidão coisa que é surreal relativamente às mulheres da actualidade.
Faça-se a história delas das que toda a vida foram escravas!
Mee Too - não conheço o suficiente mas assim à distância parece-me mais conversa de gente priveligiada.
Quer voltar no tempo? Eu não.
EliminarEu não quero voltar no tempo quero é que se faça justiça a quem efectivamente o merece, ou seja às "escravas" que o foram!
EliminarA todas, caríssimo. Ainda existem muitas formas de misoginia. Por exemplo, comparsr mulheres com capas de livros e tentar diminuir-lhes o valor e o esforço (e, muitas vezes, há horas de trabalho árduo por detrás de cada peça e quem tece os comentários são desocupados cujo valor reside na lauta barriga).
Eliminarcomparar.
EliminarSubscrevo!
EliminarÉ discussão para a qual não contribuo, mas tens razão, heroínas na sua luta, silenciosa, as mulheres de que falas, que o foram quando não o podiam ser e por isso era preciso sê-lo. Hoje? Nas sociedades desenvolvidas - que é onde surgem estes movimentos - qual o heroísmo nisso?
Não está literatura plena dessas histórias? Romanceadas ou verdadeiras? Mas hoje só se glorificam as que andam de lata de gasolina e fósforos...
Madame Curie, deveria ser lida mais vezes, suponho...
Abraço!
Bole posts meus parabéns. ;)
ResponderEliminarAdorei ler seu artigo.
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