Descuidos
Hoje em dia, permanentemente vigiados, temos de ter especial cuidado com o que dizemos e escrevemos. E até com o que outros escrevem por nós... Eu explico: há uns quinze dias pediram-me para escrever um texto sobre Amália Rodrigues para um número dedicado ao seu centenário, uma vez que escrevi uma pequena biografia da diva para crianças. Nesse texto explicava que a sua infância tinha sido tremenda (miséria e trabalho infantil) e que, além do talento, que não era responsabilidade sua (ela até dizia «Foi Deus»), Amália tinha «qualidades extraordinariamente raras numa mulher que não pôde frequentar a escola» (a sua descoberta da poesia erudita, por exemplo, e as letras que escreveu). Ora, a frase escolhida para o destaque foi mesmo essa, só que, como não cabia toda, quem paginou resolveu parar antes do fim, escrevendo «... qualidades extremamente raras numa mulher». Mas estas pessoas que paginam jornais não pensam nem por um minuto no que estão a fazer? É que há muita gente que só lê títulos e destaques e o mais certo é eu levar na cabeça das mais radicais feministas por uma coisa que não disse. Nos EUA seria banida de muitas revistas e jornais só por este descuido... O que me vale é que já disseram que me iam pedir desculpa.
O feminismo, como todas as ideologías que visam a igualdade, nunca é radical, porque a discriminação traz efectivos e graves prejuízos à vida dos visados e das sociedades em que se inserem. Já imaginou o que é uma mulher que, ao contrário de Amália, pôde frequentar a escola, e que é a primeira licenciada da sua família, ser impedida de alcançar o seu total potencial pela misoginia de alguns? Isso pode significar a regressão evolutiva desta família numa geração. Se acontecer algumas vezes é determinante para o atraso da comunidade. Estas coisas têm efeitos contundentes nas sociedades e famílias e devem ser encaradas com grande rigor. Os EUA tornaram-se num país rico porque aprenderam a não tolera-las, acusando e expondo com grande veemência os culpados.
ResponderEliminarO problema, no que respeita ao caso que apontou, é que há pessoas que pensam mesmo assim: que são qualidades raras numa mulher e, por isso, as mulheres podem ser destratadas, pois, provavelmente, não existirão consequências. O pior é quando se enganam e o retorno chega. Jorge Sampaio disse, num artigo muito recente, que não podemos ter uma geração de licenciados perdida para a Covid. Mas tivemos várias perdidas para a misoginia e não podemos ter mais. O país não é rico e não o suporta. A não ser que pretendamos um pais que seja couto de corruptos. Como já é. Aí entender-se-ia.
Um dia bom,
Sandra Neves.
Agora imagine uma frase dessas num telefonema de pressão para mais do que um agente literario anglofono. O que acha que aconteceria a seguir? E se fosse um ministro a dizê-la? Que vergonha, não é? Pelo menos matéria probatória não falta. Ou de exposição nos media. E não: isto não tem nada a ver com os números dos misóginos.
EliminarSN.
Ó Sandra -só estou a pergintar- será que conhece a história da mulher portuguesa dos últimos cem anos? (Não estou a falar das tias de Cascais nem das da mesma estirpe, estou a falar da verdadeira e genuína, escrava, sofredora mulher portuguesa de lenço na cabeça).
EliminarPorque isto da gente Mee Too de falar do alto do trono dourado, com as unhas a brilhar, é fácil!
Sev: os seus comentários são inacreditáveis.
EliminarSN
Ó Sandra -só perguntei; e como diz o Povo perguntar não ofende!
EliminarSão realidades tão incomparáveis como a dos homens trabalhadores de então e de agora e os gordos inúteis e assediadores fazem dos seus dias a perseguição dos outros, movidos pela inveja e a sua pouca valia. Acha de somenos o sofrimento da discriminação, do não reconhecimento do nosso valor, da difamação na escola dos nossos filhos, do cerceamento do seu futuro, e mesmo dos gravames impostos à natalidade?
EliminarOh caríssimo: não brinque com coisas serissimas!
Mais acrescento que não me referirei a situações de terceiras sem seu consentimento. Sabendo de pelo menos um caso grave que agora eclode, o que sugiro é que essas pessoas aproveitem a minha intervenção pública e a fragilização dos poderes envolvidos daí decorrente, para se salvarem pelos meios que entenderem adequados. Serei sempre a favor dos direitos de todas as mulheres: de esquerda ou de direita. Por isso mesmo não gosto das mulherzinhas que fazem da competição inter- feminina um modo de vida. Os tempos ainda são de luta e de luta feroz.
EliminarDesculpe, Rosário, tanto espaço roubado à sua página.
SN
Os jornais alimentam-se de títulos (ainda se vende pela capa...). E cada vez é mais difícil "chamar a atenção". :)
ResponderEliminarAs coisas são o que são. Nos meus tempos de jornalismo, deram títulos a trabalhos meus, que no meu entender não eram os melhores, mas a "chefia" é que sabia da "poda"...
Eh Eh Eh! Parece aquelas situações dos títulos nos telejornais que vão passando com erros e frases cortadas. Ficamos sem saber a lógica. Por isso leio as notícias.
ResponderEliminarSão descuidos, mas a Comunicação Social deve estar mais atenta, porque quando a maior parte das pessoas se fica pelos cabeçalhos, as opiniões nos cafés ficam logo desvirtuadas. E com pessoal a partir logo para o ódio nos comentários dos diversos jornais on line.
Ficou uma declaração estranha, mas o pessoal pega logo em tudo. Podia ter saído "qualidades extraordinariamente raras numa escola" e aí seriam outros os protestos.
Numa chamada a outro assunto - os blogues. Muitos deixaram de os actualizar. Fui espreitar alguns da lista da lateral e encontrei 3 que já não existem ( livreira anarquista, a revolta das frases, arroios e baleia branca). Não vi todos, mas muitos ficaram em 2013/2015. Por isso o mérito deste blog que continua na senda da divultação da Arte, especialmente da Literatura.
Peço, que com um pouco de tempo, a Extraordinária Maria do Rosário pudesse alterar o formato da lista lateral com a apresentação cronológica dos textos mais recentes dos blogues apresentados. Gosto de ler alguns, mas assim é mais trabalhoso. Saudações. Fiquem bem!
Realmente há vários casos psiquiátricos graves no país. U deles é o dos pseudo políticos que já não existem e acham que só eles podem escrever em blogues e, apesar de irrelevantes que até dói, pensam mandar no mundo inteiro. Megalomania, Paulo Sande? Porque é que não assina?
EliminarSaudações!
A Cláudia tem 36 anos...menos trinta que o cão presidencial. Porque é que não começam a procurar no Jardim de Infância?! Freaks.
EliminarNão tenho medo nenhum de desaparecer. Sou demasiado boa para isso. De intelecto.
Hoje não há sugestão literária?
ResponderEliminarQuanto aos blogs desaparecidos,assim se prova que este é o maior!
Bibi
Não Bibi... não há!
EliminarPorque parece que alguém tomou conta do Blog, que não a sua dona... e este deixou de ser um local onde se fala de livros e literatura! Sobretudo.
Saudações e desabafo cá da Cidade Morena!