Cronista exemplar
Um dia destes, alguém aqui no blogue, a propósito da crónica de Pérez-Reverte em que se criticava o afastamento das línguas clássicas do curriculum da Escola Secundária no país vizinho, queixava-se, no fundo, de que aqui em Portugal os intelectuais já pouco se pronunciavam sobre questões deste tipo (que mereceriam deles protesto, crítica e reflexão), preferindo quiçá viver burguesmente na sua torre de marfim e pouco querendo saber do que não os afecta directamente. É verdade, pelo menos em parte, que não vemos muitos escritores ou artistas andarem por aí içando bandeiras ou pondo o dedo na ferida; mas, quando os jornais reduzem o seu espaço de opinião ou deixam de querer ouvir as opiniões de quem pode pôr em causa os seus donos e amigos, claro que também não estão as coisas facilitadas... Em todo o caso, há uma excepção que salta à vista, a de Lídia Jorge, que é talvez no nosso país a escritora que melhor tem reflectido sobre o mundo presente e mais eloquentemente tem dado o peito às balas em entrevistas e crónicas radiofónicas. Há, de resto, um livro que reúne essas crónicas lidas na Antena 2 que vale muito a pena intitulado Em Todos os Sentidos, livro que traduz o seu pensamento muito crítico (e às vezes quase furioso) sobre certos aspectos da actualidade. Se nunca ouviu, leia. É a minha recomendação para hoje.
O que seria hoje de grandes nomes e sonantes como Ramalho Ortigão? E a Rosário tem toda a razão, mesmo num tempo em que parece estar votada a morte dos intelectuais. Hoje, feliz ou infelizmente, tudo se passa no espaço das redes sociais, onde todos se ouvem mais a si próprios do que aos Outros. A diversidade nem sempre parece ser amiga da construção de um Futuro alicerçado no entendimento e reflexão. Sou dos que penso que ao autor exige-se mesmo o debruçar sobre a realidade e o mundo que vive.
ResponderEliminarDe acordo consigo caro Pedro!
EliminarOnde páram ou estão de facto os intelectuais? As mentes esclarecidas deste país, que as há!
É que dá trabalho ouvir e ler os pensadores, os intelectuais, os que devem ser lidos ou escutados, não apenas pela sua posição política, mas sobretudo pelo seu esclarecimento!
Ser esclarecido, é um dom cada vez mais raro. É sinal de que alguém pensou no assunto, o viu de diversos ângulos, mediu e pesou, porém não o analisa à luz de nada mais que o seu
pensamento e o seu saber, puros, ignorando a tal malfadada correcção actual e os sentimentos partidários, regionalistas, clubísticos, familares ou interesesse particulares.
É difícil, pois ser esclarecido pede coluna vertebral, carácter, firmeza e sobretudo saber!
Também há que ter espaço, como bem diz a nossa Extraordinária Anfitriã!
Actualmente, dá-se espaço e voz apenas ou sobretudo aos representantes dos ditos lóbis, a que se chamam "comentadores". Há uma legião deles, na sua maioria pouco esclarecidos e menos esclarecedores, comprometidos, facciosos e sobretudo desonestos na forma como analisam e naquilo que dizem, verdadeiros esbirros!
Porque o público, a sociedade inteira, parece ter-se demitido de pensar, e, sobretudo de pensar diferente, fora da corrente. Quem o faça, é vituperado, vilipendiado e ostracizado!
Talvez por isso, com receio da indigência e do ostracismo, os intelectuais e os artistas, e refiro-me aos que o são e não aos papagaios do regime ou às cara-lindas de serviço, a quem falta também carácter e alguma coragem, remetem-se a um prudente silêncio, deixando os outros ocuparem o espaço, cedendo-lhes o terreno, por receio de uma competição que temem perder!
Mas, pergunto, não a perderam já? Que mais têm a perder ainda? Talvez só o respeito próprio, que se calhar nem nunca tiveram quando aceitaram o prato das lentilhas...
Hoje, temos uma ministra da cultura incapaz e incompetente, desonesta, cuja principal qualidade parece ser a da sua homossexualidade e ser manifestamente anti-tauromaquia.
Tirando isso, em que é que se distingue ou o que é que fez? Distribuir dinheiro pelos jornais e grupos de media que entram no jogo, e depois o gastam em ordenados e transferências pornográficas, face às dificuldades do sector das artes e cultura?
Li hoje de manhã cedo, que já artistas a passar fome... serão mesmo artistas? Ou serão os tais pseudo-artistas que fizeram nome à custa de corpos perfeitos?
Talvez a crise que os atinge, aos artistas, pseudo-artistas e agentes culturais, sirva para os crivar, e, os que não sejam demandem outras actividades, deixando finalmente espaço para os que o são verdadeiramente.
Talvez porque já pouco têm a perder, os artistas de verdade e os intelectuais, finalmente saiam, a dizer o que deviam ter dito, o que não pode ser dito, mas tem que o ser!
Para que possamos dizer: aleluia!
Recordo que o que estimulou, fez nascer, muito pensamento e cultura, foram exactamente os anos da ditadura salazarista, do Estado Novo, quando havia censura, quando alguém mal-visto ou que pensasse fora dos cânones, era ostracizado, perseguido, preso!
Deu em compensação corpo a tanto intelectual, pensador, artista... brilhantes, cuja chama não se apagou, muito pelo contrário.
Não há machado que corte, a raiz ao pensamento... diz a canção.
Veremos se é verdade, e esperemos que destes tempos difíceis para a cultura e as artes, renasçam algumas fénix que andem por aí disfarçadas, ocultas. Ou que nasçam novas personagens, o que no contexto actual, duvido muito... a esperança reside mesmo nas Lídias que ainda existem.
Saudações esperançadas cá desta traça expatriada na Cidade Morena!
Gostaria de citar Lídia Jorge:
ResponderEliminar"A única resposta que o escritor tem contra a adversidade é escrever"
Reforça a minha esperança em que possa haver um rensacimento, das cinzas actuais!
Os intelectuais perderam o seu estatuto através do qual faziam intervenções que eram escutadas e atendidas. Penso que tal se deve a duas razões: os donos da comunicação social substituiram-nos por pessoal seu, daí termos comentadores, "tudólogos" e "famosos" no seu lugar; as redes sociais abriram caminho à intervenção de todos, todos falam de tudo a toda a hora, bem, mal e pessimamente, rápida e sucintamente, não há espaço para pensamentos ou reflexões.
ResponderEliminarGostaria de vos (recomendar) Dulce Maria Cardoso e a considero uma das mais brilhantes, entre as mentes portuguesas.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
e o livro de crónicas de Lídia Jorge é mesmo uma boa sugestão. Ouvi várias crónicas e gostei do tom.
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