Redescobrir
Não sou muito de reler livros, sobretudo aqueles de que gostei muito, pois já apanhei uns baldes de água fria em releituras (num caso, a tradução era tão má que fiquei chocada por só o ter percebido tantos anos mais tarde). Por outro lado, tenho sempre tanta coisa para ler profissionalmente e tantos livros que vão saindo e me interessam que sobra pouco tempo para reler (mesmo que alguns clássicos lidos na adolescência ou nos primeiros anos de faculdade estejam sempre a chamar por mim das estantes). No entanto, para orientar as sessões do Próximo Capítulo, a comunidade de leitores da LeYa, reli O Nervo Óptico, de María Gainza, e descobri muitas pérolas que, das outras vezes, não tinha registado com a mesma atenção. Uma delas diz respeito a bibliotecas pessoais. Conta a história da visita da narradora a casa de uma amiga e a observação que faz das suas estantes «como um carteirista, lançando olhares furtivos». E continua: «sabia que o que estava a fazer era no fundo uma indiscrição, como remexer no armário dos remédios de uma casa de banho alheia. Não consigo evitá-lo, são ambos lugares que fornecem informação-chave sobre os seus donos.» Diz-me o que lês (e as drogas que consomes) e dir-te-ei quem és? Hum... Uma proposta muito interessante.
Como na semana passada se falou aqui de Stefan Zweig, hoje recomendo deste autor Novela de Xadrez, uma pequena pérola incrível.
A Rosário focou aquilo que considero o melhor da releitura: a atenção para pormenores que nos tinham escapado. Claro que isto só acontece se a releitura não for muito tardia.
ResponderEliminarComo também vamos crescendo como leitores, alguns dos livros de que gostamos na juventude, não irão ter o mesmo efeito agora... e sim, são de evitar. :)
Registei a sugestão de leitura. Como ainda não li nada de Stefan Zweig (tantos livros que nunca iremos ler...), "Novela de Xadrez" é uma boa oportunidade.
Quando ainda se comemoram os 500 anos da viagem de circumnavegação de Magalhães vale muito a pena ler o relato que Zweig escreve desta viagem.
EliminarTeresa Biu
Stefan Zweig é um autor muito recomendável e é um escritor que tenho lido ao longo da vida, sempre com agrado.
ResponderEliminarNovela de Xadrez é talvez a sua melhor novela curta, embora ele tenha escrito várias e todas excelentes.
Gostei imenso d' "O Nervo Ótico" e das duas sessões do Clube de Leytura orientadas pela Rosário.
ResponderEliminarRemeto a pequena "review" que deixei escrita na plataforma Goodreads -- onde, curiosamente, cito a passagem a que se refere neste post, tal como o fez numa das mencionadas sessões:
"Um livro que revela uma interessante e original combinação literária entre a arte e a vida. Os capítulos encontram-se subdivididos em duas dimensões: uma artística, onde a narradora discorre acerca de um ou mais quadros, bem como sobre a biografia do respectivo pintor; outra pessoal, dedicada à escrita íntima, diarística e memorial da própria narradora, com um descortinável pendor autobiográfico. Entre estas duas dimensões evidencia-se, em cada capítulo, uma clara conexão: pintores decadentistas entrecruzados com personagens nostálgicos e decadentes; quadros sobre o mar com episódios balneares; et cetera.
No início de um dos capítulos (“Nas Boxes”), o seguinte: «Uma noite, em casa da minha amiga Amalia, andei a bisbilhotar-lhe a biblioteca. Enquanto a minha anfitriã acabava de fazer o jantar, espiei com avidez as estantes. Fingia naturalidade mas observava rapidamente como um carteirista, lançando olhares furtivos; sabia que o que estava a fazer era no fundo uma indiscrição, como remexer no armário dos remédios de uma casa de banho alheia. Não consigo evitá-lo, são ambos lugares que fornecem informação-chave sobre os seus donos». No fundo, é este o olhar que perpassa todo este livro: bibliotecas, quadros, pintores e museus que, analisados, nos falam sobre a narradora, as personagens e as vidas presentes nestas páginas: da arte para a vida.
Trata-se, pois, de um livro em que a escritora María Gainza aplica, com um assinalável grau de mestria, os seus conhecimentos de crítica de arte.
Deve, contudo, sublinhar-se que não se trata propriamente de um romance: falta-lhe, para isso, estrutura, enredo, contorno ficcional e robustez discursiva (as mais das vezes o “eu”; outras o “tu”; outras o “ele/a”; e tudo isto mudando num ou noutro capítulo, sem uma justificação estética ou narrativa verificável para se poder considerar a marca voluntária de um estilo polifónico). Não é um livro de contos; nem um ensaio; nem uma autobiografia; nem um diário. Diria que é um pouco de tudo isso, sem ser nada disso.
Um bom livro de estreia, que, sem ser uma obra-prima, revela uma escritora promissora".
Um abraço e obrigado pelas sessões,
Guilherme Henriques
Obrigada, Guilherme.
EliminarA escrita fascinante e S. Zweig felizmente eu a li, e recomendo.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Também tenho tido desilusões com novas leituras, como por exemplo "O Livro de San Michele"(Munthe), "O Monge de Cister"(Herculano), mas houve outras que excederam largamente as iniciais, como por exemplo "O Vermelho e o Preto"(Sthendal), "Os Lusíadas". Mas não há dúvida, o tempo não dá para tudo.
ResponderEliminarBom, reler um livro, por inteiro... não é fácil pois como se diz há muita coisa nova para ler, e, outras mais ainda, por ler! Porém acontece, sim, acontece, não sendo assim tão raro.
ResponderEliminarO mais frequente é reler passagens, que me marcaram, cujos detalhes desejo revisitar, como quem vai ver um amigo. No fundo reler, é isso mesmo, visitar os amigos que são os livros, que nos acompanharam ou marcaram o suficiente para ficarem em nós, como amigos.
Os amigos, como nós mesmos, envelhecem, engordam, perdem a graça... portanto é natural que aquilo que provocam seja diferente, em tempos diferentes. Não nos admiremos com isso, e nem me parece razão para deixar de gostar de... se deixei de gostar, não me provoca saudades, logo não vou visitá-lo. Isto é, resumindo, só releio os livros que ainda me dizem algo. Não sou é capaz de dizer quais tenham deixado de o fazer, afinal o livro é um amigo para a vida!
Zweig... era o autor preferido da minha mãe, o que me levou a ler alguns dos seus romances, dos quais gostei mais de uns do que de outros. Também passou... já não leio há muitos anos e nem por isso reli nenhum de que me recorde especialmente.
Tenho a maior inveja por quem é capaz de destacar um livro em dado momento, ou até autor, eu confesso que não sou!
Porque não gostei?
Nada disso, antes pelo contrário, pelos muitíssimos de que gostei!!!! Ou não fôra uma traça dos livros, papo-os a todos!
Saudações famintas cá da Cidade Morena, sem livrarias...
De Stefan Zweig já li quase tudo, novelas, ensaios (O Combate com o Demónio-Holderlin, Kleist e Nietzche) e Três Poetas da Própria Existência-Casanova, Stendhal, Tolstoi ) de leitura apaixonante, e biografias. Já li Maria Antonieta, e Maria Stuart. Acabei de ler Balzac e José Fouché, deixei tudo o que estava a ler para acabar estas duas. A escrita dele é electrizante, lê-se como um romance policial, parece que estamos num guião para um biopic.
ResponderEliminarDescobri Zweig num clube de leitura e posteriormente li Maria Stuart o ano passado e agora mesmo Maria Antonieta. Um autor precioso e muito competente. As suas biografias são resultado de um trabalho profundo e rigoroso.
EliminarToda a gente tem máximas, pensamentos e eu não fujo à regra, por isso aqui vai o meu pensamento:
ResponderEliminarSou tão orgulhoso, tão orgulhoso que, chego a orgulhar-me da minha própria humildade. fl
Muita saúde
Muita saúde.
Cumprts de: ler é o melhor remédio - nos tempos livres
https://lereomelhorremedio.blogs.sapo.pt/
Nunca li Zweig, com tanto elogio fiquei curioso: vai já para a minha lista.
ResponderEliminarObrigado pela sugestão
Digo-lhe que não se vai arrepender, Zweig é um dos meus favoritos desde os tempos do liceu até hoje; os primeiros que li foram "Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma mulher" e "Carta de Uma Desconhecida", ambos levados ao écran. Se quiser souber mais sobre a vida trágica deste autor austríaco há a biografia dele "Morte no Paraíso" do brasileiro Alberto Dines.
EliminarBole posts meus parabéns. ;)
ResponderEliminarBelo artigo
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