Fazer-se difícil

Gosto muito da expressão «fazer-se difícil», e ela hoje vem muito a propósito, uma vez que condiz bem com a história que vou contar. Roubei-a no mural do meu querido autor Itamar Vieira Junior (o vencedor do Prémio LeYa com Torto Arado) e é notável, sobretudo vinda de quem vem: Faulkner, que (não por acaso) é um dos autores preferidos de Lobo Antunes e que, muito ao avesso dos seus confrades norte-americanos (habitualmente secos na prosa e mais dedicados ao enredo e à estrutura), tem uma escrita muito pouco linear, frequentemente visceral e algo exigente. Ora, parece que uma jornalista lho fez notar ao longo de uma entrevista, perguntando-lhe o que diria ele às pessoas que liam duas e três vezes passagens dos seus livros e, ainda assim, continuavam sem perceber nada. William Faulkner respondeu com graça, aconselhando-os a tentar lê-las uma quarta vez... Sobre autores difíceis (e não é que se façam de difíceis, é mesmo o seu natural), e para homenagear a pátria de Itamar Vieira Junior, recomendo Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Preparem-se: demora a entrar,  e é para lá ficar dentro bastante tempo.

Comentários

  1. Foi o que aconteceu comigo, não estava habituado a ler aquele tipo de linguagem (coloquial?) e eu leio muito, desde Céline e Dostoievski, a Camilo e Aquilino. Depois, a caminhar para o fim não queria outra coisa, um dos melhores romances que eu já li e espero um dia reler. Aquela prosa entranhou-se e marcou-me durante muito tempo. Foi um choque para o qual não estava preparado. apanhou-me de surpresa mas recuperei.

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  2. António Luiz Pacheco29 de junho de 2020 às 02:04

    Eia caramba... isto hoje dava pano para mangas, e mais a mim que estou no IGCA a tentar obter um croquis de localização de uma pescaria, que vou certamente passar cá a manhã e ainda terei de ir ao local com o técnico. Seria para escrever um ensaio, se eu fosse capaz disso... eheheh!
    Mas não se assustem, é muita areia para a carrinha desta traça dos livros!

    Há de facto autores difíceis de ler. Não lhes vou avaliar a qualidade, pois também é demais para a minha condição de traça, e, quem sou eu para o fazer? Portanto, muito à moda das traças, simplórias e incultas, limito-me a dividir os difíceis entre aqueles que leio e os que não leio, e isso, mais do que a dificuldade ou estilo tem a ver com aquilo sobre que escrevem.
    Faulkner? É dos que leio, sim senhor, e com muito gosto! Ando às voltas ou passo adiante conforme seja o caso, e, até volto atrás se aquilo porque passei adiante, lá mais à frente assim me o obriga! Mas vale a pena.
    Lobo Antunes, ainda bem que se fala dele: não leio, pura e simplesmente! Não consigo e não gosto! Prontos! Sei que a ele nada interessará a minha opinião, aliás e nem opinião de ninguém, ele parece escrever para si mesmo (ele lá se entende) e para os seus leitores fiéis, que não é o meu caso. Portanto estamos quites, nem ele me liga nenhuma nem eu a ele!
    Há outros casos. Mestre Aquilino não é de leitura fácil, mas é outro que leio com prazer e até me deleito! E o Grande Mário Cláudio?
    Na verdade são dificuldades diferentes, uns porque andam às voltas, perdidos em divagações que nem sempre me levam atrás, outros porque usam uma linguagem própria, erudita ou popular, e se tornam mais herméticos.
    Já me aconteceu igual dificuldade com outros autores de língua portuguesa, moçambicanos e angolanos, sobretudo... Mia Couto, Ascêncio de Freitas... mas segui-os sempre, empolgado.

    João Guimarães Rosa? Grande sertão, veredas!
    Fala-se aqui de um livro que descobri, só, apenasmente, tardio mas valendo a pena, neste ano preciso e corrente!
    Que Grande Romance! Se é que podemos assim chamar à epopeia de Riobaldo, contada por ele mesmo, na sua linguagem crúa, genuínamente de cabra da peste que se assume?
    A linguagem usada é um risco, não tanto o estilo que me parece ser não tão difícil assim, mas a forma como a acção (as memórias de um capanga) nos é relatada usando a gíria de um jagunço iletrado mas não burro, conhecedor profundo do seu meio e mister, das gentes e das muitas veredas que cruzam o sertão e a vida.
    Mas é um risco calculado... como pegar um toiro. Porque resulta, e, dá credibilidade ao que estamos a ler. Quem lesse a narrativa ao correr das linhas com a facilidade do vocabulário e da gramática, do estilo, ia sentir um vazio, qualquer coisa que não estava bem... por falta da tal autenticidade que senti em cada linha.
    Eu estava a ver e a ouvir aquilo tudo! Conseguindo embrenhar-me nas veredas que se me abriam na frente, como se lançado com o Arruéque na pista de um "inhárre" (búfalo-cafre) pelo capim molhado das chanas do Rárima, numa manhã qualquer em Cabo Delgado.
    Eu não falo macúa e ele quase não fala português, além nem convinha falar ou fazer sons, mas entendíamo-nos por gestos, e pelo que me ia apontando no chão com a sua "panga" (catana).
    Essa a grande diferença para o romance de Guimarães Rosa, aliás o único... caramba, mas é livro para se escrever e parar por ali! Fôlego para outro igual? Não estou a ver, nem no profundista Pelizzari!
    Atrevo-me a dizer que este romance tenha sido o pai dos jagunços de todos os autores brasileiros, que com maestria os usaram também, depois. Estarei errado?

    Que Grande Livro, é só o que posso dizer para terminar, esvoaçando em volta dele e aqui por este blog!

    Saudações geográfico-cadastrais cá da Cidade Morena!

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  3. Quanto a Guimarães Rosa, ando há anos a ganhar coragem para lhe meter o dente. Já pensei em começar por "Manuelzão e Miguilim", que também cá por casa canta, de modo a ganhar fôlego para o Grande Sertão... Uma coisa é certa: dos fracos não reza a história!
    E por falar em autores difíceis: que tal James Joyce, de Ulysses e Finnegan's Wake?

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    1. António Luiz Pacheco29 de junho de 2020 às 02:52

      Extraordinário e Melancólico Canídeo:

      - Ferre-lhe o dente, que eu o açulo: qss-qss-qss , agarra cão!
      Passe a brincadeira, ganhe coragem e vai ver que não se arrepende, nem fica a uivar à Lua!
      Gosta de Jorge Amado - "Gabriela? Gosta de José Mauro de Vasconcelos - "Arara vermelha - Barro blanco - Banana brava"? Gostou de "A selva" - Ferreira de Castro? Gostou de Torto Arado - José Itamar Júnior? Gostou de "Um certo capitão Rodrigo", Erico Veríssimo? Enfim, gostou ou gosta de autores brasileiros que escrevam neste género , digamos de "western" caboclo, ou como lhe hei-de chamar, mas creio que entende?
      Então leia este! Não se vai arrepender, é o pai deles todos!!!

      Saudações cá da Cidade Morena!

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    2. - Ferre-lhe o dente, que eu o açulo: qss-qss-qss , agarra cão!

      Ó Paxeco só tu me pões a fazer figuras tristes - aqui sentado na esplanada e a rir sózinho com as pessoas a julgarem-me tontinho...

      Obrigado por esta bela prosa ó meu caro amigo Paxeco.

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    3. Extraordinário António Luiz Pacheco:

      Grato pelo conselho e incitamento. Já estou a espumar, não de raiva, mas de apetite!

      Aceite as minhas saudações caninas.

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  4. Estou a ler Grande Sertão: Veredas. É difícil no início, mas a partir da página 80/90 a leitura começa a fluir melhor e a valer muito a pena.

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  5. De facto o modo de olharmos para a escrita é tão distinto como cão e gato. Autores secos na prosa, mais voltados para o enredo e estrutura, raramente chamam-me a atenção. Sou dos que gostam de Faulkner, bem como de Lobo Antunes. Da imprevisibilidade, do desconcertar, do não facilitar, do promover leituras sempre diferenciadas e renovadas, na pendência do olhar distinto de quem lê.

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  6. Sinto que nestes tempos estranhos, estamos quase todos menos pacientes (compreensivelmente...) . Deve ser por isso que evito "autores difíceis"... E o Faulkner exige muito ao leitor (ainda mais que Lobo Antunes, por escrever noutro tempo, noutro país...).

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    1. António Luiz Pacheco29 de junho de 2020 às 02:57

      Extraordinário Luis Eme:
      - Tem razão no que diz... mas... olhe que eu só não entendo como é que este Grande Sertão, me escapou, até há bem pouco tempo!
      A dificuldade reside apenas e sómente no vocabulário, digo eu, que posso nem ser de fiar...mas arrisco a dizer-lho.
      É um Grande livro.

      Abraço cá da Cidade Morena.

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  7. António Luiz Pacheco29 de junho de 2020 às 02:59

    Nota: tive de vir a casa escrever um pedido à Administração Muncipal, em cumprimento da Regra nº1 Para a Sobrevivência em Angola - Nunca nada é à primeira.
    Não resisti a vir bisbilhotar... enquanto imprimo a carta e copio uns documentos a anexar.

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  8. A presença literária do jovem baiano, e a excelência de sua escrita, muito nos estimula. Nosso país, atualmente sem guarida afinada, aguarda voz de autores com sensibilidade e carisma; despertar leitores faz-se necessário. Talvez a incursão e talento o saiba porque, nem exagero seria, por ser jovem e bem quisto o escritor Itamar, lembra-me o pai da Academia Machado de Assis.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  9. Tal como salienta o Luís Eme estes são tempos estranhos, dos quais retirei uma conclusão (porventura apressada e contraditória): quem invoca que não lê porque não tem tempo é uma desculpa esfarrapada já que nestes tempos há tempo não há é disposição, logo para se ler não precisamos de tempo precisamos é de disposição (seja para livros fáceis ou difíceis). E estou em crer que, quem habitualmente lê, nestes tempos de pandemia não leu mais, se calhar até pelo contrário...

    Escritores considerados difíceis:
    W. FAULKNER-Só li "O SOM E A FÚRIA" - Não achei difícil - grande livro grande escritor!

    F.SCOTT FITZGERALD-Já por duas vezes tentei ler "O Grande Gatsby", nem sei, se nalguma das vezes, cheguei a meio.

    KAFKA-Ainda só não li "O Castelo";
    "O PROCESSO" é um monumento à literatura!
    KAFKA-Um gigante absoluto da literatura. Enorme!!!

    JAMES JOYCE-Um escritor que aqui há vinte anos era endeusado pela intelectualóide e agora parece ser ostracizado (ao que parece pelos mesmos que dizem que o não percebem (agora)), a mesma situação se verifica com o M.Proust. Eu nunca li, nem um nem outro, porque sempre tive "medo da estucha" -talvez influenciado pelas tais opiniões (de quem julgaria que sabia).

    MÁRIO CLÁUDIO-Adorei o "CAMILO BROCA" grande romance, mas a "estucha" do "RETRATO DE RAPAZ" fez-me recuar perante o livro que a seguir tencionava ler (Tiago Veiga).

    ANTÓNIO LOBO ANTUNES-Para além dos seus excelentes livros de crónicas, gostei muito dos seus três primeiros livros "Conhecimento do Inferno", "Memória de Elefante" e "Cus de Judas", a partir daí foi partir pedra, absolutamente intragável, não consigo sequer chegar à página treze, mas, quiçá, poderá ser um escritor famoso daqui a cem anos

    VERGÍLO FERREIRA-Um extraordinário diarista, "CONTA CORRENTE" um marco da cultura portuguesa que marca uma época de um grande escritor. Dos seus romances já não sou tão entusiasta.

    JOSÉ SARAMAGO-Claro que não é um escritor fácil, mas o ridículo que é aqueles que dizem que não lêem Saramago porque escreve sem pontuação-absolutamente caricato. SARAMAGO-O maior escritor português depois de Camões!!!

    AQUILINO RIBEIRO-Há uns anos tentei ler "A casa grande de Romarigães" mas era demasiada areia molhada...

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    1. Não consegui terminar O Som e a Fúria, Ulisses li a tradução brasileira, não consegui chegar ao fim da tradução portuguesa; li o Grande Gatsby, reli a Casa Grande de Romarigães, gostei do Camilo Broca, não consegui ler Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, do Antunes, experimentem e depois digam alguma coisa...

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    2. Adenda: Do Kafka li em tempos a Metamorfose, o Castelo e o Processo. Numa 2ª tentativa de reler o Processo não consegui passar das primeiras páginas...

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  10. "Grande Sertão: Veredas" tem estado ali na estante a chamar-me para o ler. Depois das opiniões avassaladoras dos Extraordinários não posso adiar por mais tempo. É só acabar outro monumento que tenho entre mãos, "Os Irmãos Karamázov"

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  11. A propósito do Faulkner, descobri em casa do meu pai e na sua maravilhosa biblioteca aquelas que julgo serem as primeiras edições em português do O Som e a Fúria - traduzido em inglês por Mário Henrique Leiria (!) - e Palmeiras Bravas com tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena (!) . Fiquei assim a saber que como em outras ocasiões, deixando cair manteiga de torradas em cima dos livros, os li nas suas primeiras edições. Aproveito para agradecer ter aceite o meu convite no facebook. É quase o mesmo do que conhecer a Yourcenar (se bem que só tenha chegado ao seu livro na quarta (vergonha) edição.
    Obrigado,
    FTA

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