Virtualmente juntos

Estamos na fase em que já existe alguma abertura ao contacto com o outro, mas continua a recomendar-se algum distanciamento. Tenho um amigo que já almoçou com a  sua mãe de certa idade, mas numa mesa comprida e num terraço (e antes de começarem a comer, tinha a máscara posta). Mesmo assim, é cedo para eventos ao vivo e, como tal, o melhor é prosseguir com os virtuais. É um jantar deste tipo que vai ocorrer hoje às 22h00, na página de Instagram do restaurante Palácio Chiado, em que o jornalista João Morales cumprirá mais um dos seus À mesa com. Desta feita, o convidado é Júlio Machado Vaz, «psicólogo, sexólogo e praticante da arte da conversa», que do Porto se junta a Morales. Não sei se vai haver realmente vinho e comida, mas o alimento das palavras promete e, enquanto não podemos estar realmente juntos, vale-nos a presença virtual de quem pergunta e quem responde. A actividade tem o apoio da Fado in a Box.


Julio_facebook (2).png


Hoje recomendo um clássico: O Adeus às Armas, de Hemingway. Lembrei-me que também andamos em tempos de hospitais (mas não é só isso, não se preocupem).

Comentários

  1. António Luiz Pacheco7 de maio de 2020 às 02:08

    Com efeito, para além de médico, Júlio Machado Vaz é um excelente conversador! Não o conheço pessoalmente, mas lembro-me de o ouvir na TV, aliás coisa que desapareceu por completo, a figura do conversador! Substituída pelo "comentador", que nos seus monólogos nos dizem sobretudo o que devemos pensar, além de se arvorarem sempre numa espécie de cruzados impolutos e exemplares, o que é o que mais me irrita e faz com que não os oiça. Hoje já não se pensa, não se conversa, ouvem-se as instrucções dos opinadores, comentadores ou como se diz "influencers", que nos poupam o trabalho de pensar, é como ir ao "take away" das idéias!
    Que saudades dos grandes conversadores que ao mesmo tempo nos instruíam... por oposição aos actuais papagaios e catatuas do regime e do políticamente correcto, a soldo de partidos ou dos interesses dos grupos que lhes pagam.

    Ainda bem que a Nossa Extraordinária Anfitriã nos traz (desta vez escrevi bem! Tive medo do Severino... ) este tema "conversa". Afinal é o que aqui fazemos todos os dias...
    Nós, portugueses e creio que latinos de um modo geral, somos conversadores, cultivamos a conversa e gostamos de uma conversa. Penso que é um traço cultural, identitário.

    E o que tem isto a ver com a nossa amada leitura? Bom, é que há conversas Extraordinárias, como todos bem sabemos, e, muitas vezes uma conversa com um escritor é o ponto alto de algum evento literário, no caso do escritor ser bom conversador, o que amiúde são, diria eu.
    Aliás suponho que o escritor-bom-conversador seja o escritor que eu gosto de ler, justamente porque é o que escreve para os outros, não escreve para si mesmo. Que há escritores ensimesmados, pouco comunicativos, logo como esperar que escrevam para nós, se estão virados para dentro de si mesmos? O escritor quer-se vivo, permeável julgo eu, a conversar e a absorver o que vai à sua volta, a reparar nas pessoas e nas coisas, participando dos acontecimentos.
    Não conheço muitos escritores, apenas uma mão-cheia que eventualmente conheci ou com quem me relaciono, mas os que conheço são todos de agradável conversa!
    Conheci em tempos um escritor, enfim, maldito e nem sei como seja classificado... mas à falta de outra classificação digo escritor, que era a antítese: - Calado, tímido e pouco comunicativo, não sei se porque muito perseguido até pela PIDE. Vivia em Oeiras e costumava comer na Tendinha ou na Rampa, onde íamos beber umas imperiais, chamava-se José Vilhena! Alguém conheceu ou ouviu falar? Sim, o da Gaiola Aberta... quem o lesse não imaginaria o contraste para com a sua personalidade!

    Aqui, conversa-se muito! O Africano é no geral conversador, e bom ouvinte, gosta de ouvir contar uma história, de ouvir falar de outras gentes e lugares, de outras coisas, como gosta de discorrer sobre temas corriqueiros. A sua conversa sendo muito entremeada de interjeições e exclamações, além de ter uma sonoridade agradável permite ao mesmo tempo estabelecer comunicação entre o emissor e o receptor, que vai assim mostrando a sua atenção, concordância ou espanto.

    Saudações e votos de boas conversas, cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tenho lido os post's e principalmente os seus comentários, ó Pacheco. Agradam-me e já lhe dei conta disso. Só por eles, imagino que, a ter um blog seu, teria em mim um seu leitor assíduo.
      Falou no José Vilhena, que eu li e coleccionei nos meus anos de juventude. Não guardei os exemplares. Para além disso, ele faz parte das terras do Planalto, desta Nave imensa, pois nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo e viveu em Freixedas (Pinhel).
      Talvez por isso, tenha afeição pela pessoa, pese embora as impressões que ele deixou como autor e em termos de comunicação pessoal. Dele só tenho a dizer que falámos no seu gabinete, por cima da discoteca/boite Night and Day, em Lisboa, mostrando-se uma pessoa agradável, talvez até um pouco tímida (na minha opinião). Tal como ele, pratico ambos os misteres (escrita e desenho, não tem nada a ver com treinadores da bola), talvez por isso tenha existido maior franqueza nos diálogos. É certo que não enveredei por aquele género, se bem que prossiga em muitos dos meus escritos com o humor que me caracteriza no dia-a-dia. Sou assim, talvez tenha sido feito com o barro hilariante da Criação.
      Ele desenhava muito bem, era um bom cartunista, escrevia com grande habilidade e humor. Não tinha medo, mesmo quando o seu principal cliente - a PIDE - lhe levava toda ou quase toda a edição, sem pagar, oferecendo-lhe alguma estadia nos calabouços.
      Quando diz, e bem, que "o escritor quer-se vivo, permeável julgo eu, a conversar e a absorver o que vai à sua volta", não imagino um escritor que escreva sem viver esse ambiente social, a não ser que "beba" em outras obras. E também fico admirado pela ausência de escritores, ditos de referência, nestes espaços de diálogo com os seus eventuais leitores. Temem - presumo eu, se calha injustamente - perder o prestígio tão "duramente" granjeado.
      A despropósito: hoje, nas arrumações da quarentena", encontrei três notas em estado novo (e do Estado Novo) de Angola: duas de mil - uma com a efígie de Tomás, chapa de 1970, a outra com a de Camões, chapa de 73 - e uma de 500 escudos, também com a chapa de Camões, de 1973. Vou entregá-las a um coleccionador amigo. Curiosidades...

      Receba um abraço virtual destas terras do Planalto da Nave, onde se recebe o Sol acima dos 800 metros de altitude.

      Eliminar
    2. Volto aqui para concluir o que me passou no comentário "longo".
      Li "O Adeus às Armas" na altura em que adquiria os escritos do Vilhena. Nada tem uma coisa a ver com a outra, mas o Hemingway fez-me verter duas lágrimas com esta obra. Obra que recomendo sobre um período conturbado, bem cerca de nós, na vizinha Espanha.
      Como verifica, acabei a quarentena de que lhe falei mas, mesmo assim, num regresso com máscara, como manda o figurino; se possível, só a falar de vivos e, por vezes até, a "falar francês como uma vaca espanhola", pelo aforismo do rifoneiro.

      Eliminar
    3. Ó Paxeco, porta-te bem se não já sabes que levas nas orelhas...ah ah ah ah

      Eliminar
    4. É verdade António, as boas conversas públicas foram substituídas por sujeitos que são capazes de dizer uma coisa hoje e amanhã o seu contrário (só as televisões é que os aproveitam, figuras como o Marques Mendes nem futuro tinha como "vendedor de feira"...).

      E agora esta "virose maligna" cortou-nos essa coisa boa que é a conversa de café, de almoço ou jantar (adoramos conversar a qualquer mesa...).

      Mas em geral o português comum (ou "latino comum"...) é mais conversador que o escritor, este é mais de olhar e ouvir. :)

      Eliminar
    5. O José Vilhena era natural da freguesia de Vermiosa, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, minha terra. Comecei a ler o Vilhena no tempo dos Ridículos, não sabia que era dali tão perto. Ainda tenho alguns livrecos que foram reeditados como A História Universal da Pulhice Humana. Era um magnífico caricaturista e não escrevia mal.

      Eliminar
    6. Sei que a mãe era professora primária e ele viveu grande parte da infância em Freixedas.
      Da Vermiosa, cerca da ribeira de Aguiar, tenho apontamentos no "Dicionários das Localidades do Distrito da Guarda", que editei, onde consta que foi incendiada em 14 de Outubro de 1642 e onde refiro as sepulturas cavadas na rocha, a ponte medieval e a Fonte Ferrada.
      Tenho bons amigos no concelho de Figueira.

      Eliminar
    7. Também tem uma Igreja digna de nota, além de ser uma boa região vitivinícola. Vou a Figueira todos os anos pelo Verão. Conhece com certeza Castelo Rodrigo, o Convento de Sta. Maria de Aguiar e a Torre de Almofala. Onde se podem consultar esses dicionários!?

      Eliminar
    8. Como escrevi antes, trata-se de um "Dicionário das Localidades do Distrito da Guarda", organizado por mim e também editado sob chancela própria, a "Sete Vidas". De A a Z tem todas as localidades (aldeias, vilas, cidades) e quintas, habitadas ou não, do distrito da Guarda. possui distâncias entre a sede do concelho, data das festividades anuais, orago, breve história, monumentos e curiosidades de cada localidade, para além dos mapas e monumentos desenhados por mim, em 200 páginas.
      Esdte trabalho demorou-me muito tempo, uma vez que procedi a um ionquérito escrito através de todas as Juntas de Freguesia.
      Como nota curiosa, digo-lhe que, quanto à Vermiosa, para além de indicar que foi mandada incendiar por Álvaro de Bivaro, refiro a festa do Santo Cristo no 2º Domingo de Agosto e a de Nossa Senhora da Conceição, a 8 de Dezembro.
      Fez-se uma edição especial, grande parte distribuída ao STI (Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos), através do encontro realizado com os aposentados neste distrito.
      Foi publicado em 2017 - Depósito legal 426191/17 - e está totalmente esgotado. Penso fazer uma nova edição, mas isso será quando acordar virado para esse lado.
      Também lhe digo que publiquei as lendas do distrito, numa edição de luxo, toda a cores, cartonada, patrocinada por vários municípios, de entre os quais o de Figueira, muito bem gerido pelo meu amigo Dr. Paulo Langrouva.
      Até lá, poderá consultar a obra numa biblioteca pública, das que recebem o depósito legal.

      Eliminar
  2. António Luiz Pacheco7 de maio de 2020 às 04:27

    Li, com igual prazer o seu comentário!
    Já uma vez tinha referido o José Vilhena numa outra intervenção sua, recordo-me disso... e, se o recordei aqui, hoje, foi exactamente porque entendo que José Vilhena era alguém extremamente permeável e observador, com um excelente capacidade para "caçar" os personagens que depois fixava nos quadros que montava, ilustrando a nossa sociedade nesse tempo, antes e depois da revolução, pois creio que ele foi mal-quisto antes e depois, se não estou enganado. Para os compôr tinha de ser um escritor-ilustrador como refere, o que talvez explique essa sua dupla capacidade que o Fernando tão bem conhece e pratica.
    E, se o recordo é justamente pela sua timidez aparente, de que me recordo, parecia até uma pessoa envergonhada, não sei se pelas perseguições, repito.

    Já agora e a talhe de foice, conversando e me perdoem os demais Extraordinários pelo alongar desta converseta, conheci o Vilhena, justamente em casa dos meus amigos "Lobos", dois rapazes da minha idade que andaram comigo no liceu de Oeiras e como eu eram de fora, a família era de Vila Nova de Paiva se não me engano... o pai deles era amigo do Vilhena, e eles dedicavam-se na época a "organizar" festas de garagem aos fins de semana, nas horas vagas do liceu.

    Enfim, memórias que vamos tendo!

    Abraço cá do planalto costeiro.

    ResponderEliminar
  3. As conversas virtuais são como a comida com pouco sal...

    "O Adeus às Armas" foi um dos livros que mais gostei de ler. Continua nos meus "dez mais".

    ResponderEliminar
  4. Excelente recomendação de E.Hamingway.
    CST

    ResponderEliminar
  5. "Adeus às armas": depois de ler um livro anoto sempre na última página a data em que o li e se gostei ou não, e neste lá está:

    "Não gostei. Nunca consegui entrar no ritmo deste livro-maçador, mole, lento".

    Mas quero dar-lhe uma segunda oportunidade pois isto já me aconteceu com mais alguns clássicos e já aconteceu mudar radicalmente a minha opinião.

    ResponderEliminar
  6. António Luiz Pacheco7 de maio de 2020 às 16:38

    Parece-me que, acabámos por celebrar José Vilhena!
    Merece, penso eu de que... um não-alinhado, um livre-pensador e escrevente, ilustrador!
    E esta hein?

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório