TPC

Quando eu era pequena e andava na escola primária, lembro-me de levar para casa aquilo a que os adultos chamavam então «deveres», tarefas que «devíamos» cumprir, relacionadas com a matéria que estávamos a aprender: umas contas, uma cópia, uma pequena composição, por vezes ilustrada com um desenho. Não me lembro de nada disto pesar excessivamente no meu horário não escolar, por isso tenho ideia de que era pouca coisa de cada vez. Hoje, pelo contrário, ouço dizer sistematicamente que os miúdos vêm para casa carregados de TPC desde a mais tenra idade, o que lhes tira todo o tempo que têm para brincar (quando não são os pais que os inscrevem em mil actividades extracurriculares para os ocupar de forma que cheguem a casa exaustos e a querer apenas jantar e dormir). Não sei se corresponde realmente à verdade, mas talvez os miúdos precisem de respirar fundo e brincar mais quando chegam a casa. Pelo menos, foi o que sentiram dois colegas de 9 anos, vizinhos um do outro e também do  respectivo professor, que, na vizinha Espanha, acharam exagerados os trabalhos que o mestre marcava, especialmente em fase de confinamento; e não estiveram com meias medidas: foram ao prédio dele e cortaram-lhe os fios que lhe permitiam ter wi-fi e dar aulas à distância! Diz quem partilhou esta notícia que se tratou de «empreendedorismo infantil». Eu cá falaria de mini-revolucionários, o que é um óptimo sinal. Tudo quanto é demais é erro.


Em tempo (tinha-me esquecido de recomendar o livro e lembrei-me por causa do comentário do Extraordinário Pacheco): Como falei de miúdos, falemos de um dos livros que, no meu tempo, todos os jovens liam. Trata-se de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos. Li nas férias em que fazia dez anos e chorei como uma Madalena, mas aprendi decididamente o que era a empatia. Alberto Manguel diz que lhe aconteceu o mesmo com Coração, de Edmondo de Amicis. Não são sempre os grandes livros que fazem de nós leitores e pessoas solidárias.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de maio de 2020 às 01:52

    Ora aí está como os cachopos mostram que sabem lidar com a situação, e, a modernidade!

    Já que estamos num blogue de leituras, aproveitando para falar de livros, aliás os livros são também formadores, e, a propósito da iniciativa juvenil e do empreendedorismo, temos muitos livros dedicados à juventude em geral, onde os heróis são júniores ou juvenis que fazem uso de conhecimentos e habilidades, com capacidade de improviso e de iniciativa que os leva a arrostar com as mais variadas aventuras, saindo-se bem delas, o que eu entendo até como sendo uma escola, portanto didáticos ou inspiradores:
    - Temos desde logo os famosos 5 (cinco), que são disso bom exemplo!
    Ainda, na minha perspectiva, aquela série de livros também da celebrada Enid Blyton, "A aventura...", onde pontificavam uma catatua e o seu jovem dono, passarinheiro, um rapaz com habilidade para animais, uma rapariga rebelde e outra dócil, mas todos dotados de excelentes qualidades que os levavam a ultrapassar a mais mirabolantes situações aventurosas que nos deliciavam!
    A Didi, João, Filipe, Dina e Luzinha... Lembram-se?
    Extraordinários!

    Outro exemplo exemplar que exemplifica na perfeição aquilo que pretendo exemplificar, é o Extraordinário romance de Júlio Verne, intitulado "Dois anos de férias", dividido em "A escuna perdida", e, "A colónia infantil".
    Quem nunca leu, ainda está a tempo pois entretém e ensina... um grupo de rapazes, alunos de um colégio algures numa antiga colónia inglesa (Nova Zelândia se não me falha a memória) que viaja de férias para se reunirem às famílias noutros pontos do Pacífico. O navio naufraga, e eles são arrojados a uma ilha, onde viverão sózinhos por dois anos, enfrentando todo o tipo de desafios mas dando provas de iniciativa e sobretudo de capacidades de engenho e humanas que fazem deles o tal exemplo da capacidade de sobreviver e se organizarem. Aconselho vivamente, mas sobretudo que animem os vossos jovens à sua leitura, pois edifica e cativa!

    Claro que há muitos outros, mas eu destaco estes dois, esperando que mais algum Extraordinário se lembre daqueles que leu ou conhece e os refira, justamente como exemplo de que ir cortar os fios do uái-fái ao professor é coisa que não lembra ao diabo, porque este é velho, mas lembra à rapaziada, e, ainda bem que persistem miúdos assim, sinal de que a humanidade não está perdida!
    Se é que me entendem, mas acho que sim!

    Saudações saudosas, cá da Cidade Morena!

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  2. Também chorei como uma Madalena, mas com o filme. Li o livro a seguir.

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  3. Um dos primeiros livros que li foi CORAÇÃO com 7 ou 8 anos, na escola primária, chorei a 1ª e única vez que li um livro. Reli-o há tempos mas não tive as mesmas emoções experimentadas há mais de 60 anos. Também li O meu Pé de Laranja Lima.

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  4. Quando muito jovem era um leitor voraz das histórias dos Cinco, partilhava com o Júlio, o David, a Ana, a Zé e o Tim as suas aventuras emocionantes e comia as famosas merendas de fazer crescer a água na boca. Depois vieram as aventuras dos Sete, mas já não tinham o mesmo encanto. A seguir tive a fase Júlio Verne, "A Ilha Misteriosa" sendo o meu favorito. E depois passei para... Júlio Dinis e a "Morgadinha dos Canaviais", que me foi oferecido no meu aniversário dos 11 anos. Nunca mais esqueci o início do livro, a viagem de burro e a chegada à casa das tias(?) do protagonista, jovem adoentado da capital, que depois como que renasce com os ares e a paparoca da província (o Minho?). Depois li os outros Júlio Dinis. E por aí fora...

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  5. Li O Meu Pé de Laranja Lima (e também o Rosinha Minha Canoa) já bem crescidinha; não me lembro se chorei, mas comovi-me imenso.
    Há poucos anos (5/6) comprei uma nova edição e voltei a lê-lo... e voltei a emocionar-me, e foi tão bom: são assim os pequenos grandes livros :)

    Li o Coração em criança e voltei a lê-lo em adulta: gostei mas não foi a mesma coisa, a magia desapareceu.

    🌻
    Maria

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  6. Não chorei mesmo nada. Fiquei felicíssima: estava convicta de que nunca poderia ler tal livro, como sempre desejei. Eu e o livro estamos de tal forma apaixonados que, neste verão tórrido, quiçá incendiemos o país.
    Beijinhos doces (e geniais)

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  7. Li também O Meu Pé de Laranja Lima, assim como os meus filhos. Espero que os meus netos também o leiam, aprende-se e desperta-se para sentimentos tão especiais...
    Gostei muito da sua entrevista no LEV.
    Bjs
    Olga

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  8. «O Meu Pé de Laranja Lima» e «Coração» não são «grandes livros»? A julgar pelo impacto emocional que caus(ar)am ao longo dos anos a vários leitores (incluindo à própria «anfitriã» deste espaço) e as memórias que estes ainda guardam daqueles, dir-se-ia que preenchem o principal «requisito» para o serem.

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