Com atraso

Ontem foi tudo uma correria, sobretudo por causa das formigas, e não falei do que deveria ter falado: de uma grande escritora portuguesa que, infelizmente, morreu no fim-de-semana. Falo, como já devem ter percebido, de Maria Velho da Costa, conhecida do público mais vasto como uma das três Marias das Novas Cartas Portuguesas, mas que vai muitíssimo além disso na sua carreira individual, sendo, aliás, pela sua genialidade, uma das vencedoras do Prémio Camões. A sua obra, notável acima de tudo pela inovação e experimentação linguística e o fascínio por cada palavra (inclusive pelo som), é considerada demasiado difícil para os leitores medianos, que têm um vocabulário cada vez mais curto e não parecem interessados em aumentá-lo (o que levou a que desaparecesse dos escaparates das livrarias e fosse arrumada lá para trás ou nem sequer encomendada); mas merecia ser mais divulgada nos anos terminais da Escola Secundária, em que os miúdos mais crescidos têm as suas capacidades no auge, porque é muito injusto que livros como Missa in Albis, Maina Mendes, Casas Pardas e outros fiquem na ignorância da maioria e acabem por se tornar meras referências em artigos especializados, mesmo que obviamente elogiosas. Disse um dia Robert Walser que nada é tão gratificante para um ser humano como conseguir superar-se. Então, hoje recomendo aos preguiçosos, desconfiados e de pé atrás que se superem e leiam esta autora; é difícil, pois é, mas vale o esforço.

Comentários

  1. Nunca li nada dela, é verdade, apenas a obra colectiva Novas Cartas Portuguesas; vou sugerir que escolhamos um livro dela para o nosso Clube de Leitura da universidade sénior.

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco26 de maio de 2020 às 01:58

    Nunca me despertaram a atenção lietrária, as "Três Marias" !
    Como não o fizeram tantos outros autores e obras. Acontece... não podemos chegar a toda a parte, felizmente, e, se digo felizmente é justamente porque assim há sempre coisas novas por descobrir.
    Não há nada mais estimulante do que ter coisas por fazer, e, diria que triste é aquele que já fez tudo ou já viu tudo. Porque chegou ao fim!

    É justamente esta a razão porque venho diáriamente aqui a este espaço, para mim de luz como já expliquei, porque é aqui que recebo informação e aprendo coisas, as tais coisas novas que sózinho não lograria alcançar.
    Não sei se irei ler alguma obra da agora finada (que não desaparecida) escritora, na verdade tenho tanta coisa que pretendo ler que pode não sobrar tempo, e, morrerei incompleto mas pelo menos motivado... eheheh! Porém, congratulo-me por ter aprendido sobre ela algo que não sabia, e que até me despertou a curiosidade de, assim que possa, pelo menos folhear umas páginas da sua autoria.

    Bem haja este espaço, de verdadeiro serviço público em prol da literatura!

    Saudações de alguém cheio de coisas por e para fazer, cá desde a Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Extraordinário Pacheco

      "Maina Mendes" é um livro que recomendo. A personagem homónima do título é percorrida, numa linguagem diferente do que era habitual na escrita, desde a infância até à velhice, englobando três gerações, dela, do filho e da neta. A Escritora distribui isto por três partes, quando a mim com sábia imaginação: "A Mudez", o "Varão" e "Vaga".
      Como diz a Extraordinária anfitriã, "é considerada demasiado difícil para os leitores medianos", a que eu acrescentaria "para os leitores machistas", mas, na minha perspectiva, não se pode reduzir a Literatura a um compartimento onde não entrem todas as formas de expressão da liberdade.
      Acredite que não vai morrer incompleto, porque já se encontra motivado para viver. E tem demonstrado que o seu pensamento é livre e sagaz, dialogante e tolerante, com desejo de conhecer e saber, atributos que não constam em muitos currículos de mortais.

      Abraço desde o Planalto ensolarado, onde corre um vento de pôr os cabelos em pé.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco26 de maio de 2020 às 03:42

      Caríssimo Fernando Costa, obrigado pela sua sugestão que aceito e me parece interesante!
      Quando não se conhece o autor, é importante ter uma orientação sobre qual livro ler, dele.
      O tema, como descreve, afigura-se atractivo, e, como disse, na primeira oportunidade tratarei de o procurar, pois é um tijolo que falta na parede a que chamo biblioteca e gostaria de deixar tão preenchida quanto possível!

      Abraço cá do tempo do cacimbo, que já se nota, tendo embora vindo atrasado este ano em que as chuvas se prolongaram, mas as noites já arrefecem a pedir lençol pela madrugada!

      Eliminar
  3. O feminismo continua a ser incompreendido, cara Rosário. Encontrar um homem feminista é quase uma impossibilidade. Havemos de lá chegar. Beijinhos doces.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Feminismo e Machismo- algum deles terá razão de existência?

      Eliminar
  4. Quem pergunta quer saber: O que é um "grande escritor" ?

    Cumprts de:
    nos tempos livres - ler é o melhor remédio
    https://lereomelhorremedio.blogs.sapo.pt/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vou costurar uma resposta, Francisco, à pergunta que não é tão simples de responder como parece.
      No meu conceito, a grandeza de um escritor passa pela grandeza da sua obra, não pelo tamanho ou estatuto social, nem pelo trabalho impresso do autor. Pode-se ser um grande escritor com uma obra e não se ser grande escritor com uma centena delas, como é este último o meu caso.
      Esta consideração depende da fasquia de cada leitor, do seu juízo de valia, nem tanto da propaganda que cerca o "grande" em causa.

      Eliminar
    2. Uma vez, interrogado mais ou menos sobre a mesma coisa, um escritor da nossa praça respondeu: isso não se explica, implica! Tendo a usar as suas palavras, porque realmente é algo impossível de trocar por miúdos... (Mas algo inovador, diferente, inventivo, belo...)

      Eliminar
    3. Amanhã começa o luto oficial em Espanha que durará dez dias. O luto do Elias Gro terá durado seis anos, um manifesto exagero para uma perda de cinco minutos de conversa numa sessão pública. Apesar de reconhecermos sermos inovadoras, diferentes, belas e etc. Continua a ser nossa vontade morar na Califórnia. Este país irrita e sufoca. Mas talvez mantenhamos esta casuística nacionalidade.

      Eliminar
    4. Agradeço a consideração dada à minha pergunta. Embora a resposta tenha sido insuficiente, por evasiva e vaga, agradeço do mesmo modo a atenção.
      Com os meus cumprts,
      fl

      Eliminar
    5. Agradeço-lhe Fernando a consideração e o trabalho dispensados à minha pergunta: "O que é um "grande escritor"? O conceito que eu tenho (um grande escritor: é aquele que escreve para mim..), complementado pelo que me disse, é a definição perfeita. Muito obrigado pela sua ajuda e até um dia destes.
      Melhores cumprts,
      fl

      Eliminar
  5. Tenho um carinho especial por esta Escritora. Tenho, pelo facto de ter sido uma lutadora pela dignidade da Mulher, pela grande parte da obra que escreveu e ainda pelo facto de a ter conhecido pessoalmente e ela ter sido júri, com Álvaro Salema e João Gomes Ferreira, de um prémio literário que eu recebi. Na cerimónia apenas não esteve João Gomes Ferreira, por motivos de doença.
    Na ocasião do prémio, falei com ela e com Álvaro Salema, da literatura portuguesa e da cultura em geral, tendo recebido dela um livro autografado com muito carinho - "Casas Pardas". Gostei também do "Maina Mendes".
    Obrigado, Maria do Rosário, por ter trazido esta memória.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tem razão em chamar a atenção para o lapso, através da interrogação, Extraordinária Rosário. Foi um duplo lapso, porque repetido no texto. Trata-se de José Gomes Ferreira, falecido 7 anos depois deste prémio literário (faleceu em 1985), o qual decorreu no ano em que se tornou vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
      Eu levava comigo um livro dele, para mo autografar ("O Mundo dos Outros"), e não tive essa sorte, uma vez que esteve ausente da cerimónia, pois estava doente.

      Eliminar
  6. Li as Novas Cartas Portuguesas (incontornável para as "jovens" da minha geração) e a Maina Mendes, e tenho ambos cá em casa.
    Sei que li mais, mas não eram meus, foi há imenso tempo e não ficaram na memória : Casas Pardas?
    Missa in Albis?
    Confesso que não me recordo... teria que pegar neles e ler algumas páginas.
    Mas, das Três Marias, a que mais li foi a Teresa Horta.
    🌻
    Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Maria
      Pelas "Novas Cartas Portuguesas", ficaram a ser conhecidas como "As Três Marias" - de comum, o nome entre as escritoras. Tal como o seu.
      "Casas Pardas" é um bom livro, mas confesso que devo reler o "Maina Mendes".

      Eliminar
  7. Bom dia com alegria

    Desafio aceite.

    Já passei os olhos pelas "Novas Cartas" e já estava na minha lista.

    Vou procurar os solos da autora, que desconhecia.

    Boa pandemia a todos, com a "cabeça entre as orelhas"

    Boas leituras
    cp

    ResponderEliminar

  8. E: quinta letra do abecedário;
    Lias: porque se escreveres, brilhas e não poderás reservar-te para o medíocre;
    Gro: contracção da palavra inglesa Grow. Cresce e aprende a trocar tudo por dinheiro.

    ResponderEliminar
  9. Ofereceram-me um livro de Maria Velho da Costa, mas deixei-o numa estante que não é a minha e o covid afastou-me dessa bendita estante. Mas continua a ser meu, está onde o deixei e convenço-me de que vou gostar. É que nunca li nada seu.

    ResponderEliminar
  10. Ah, então há na raspa do tacho, o graxo. Amei a discrição. Reserva-te de qualquer "erro" se o és maioral.
    Haveria de ser qualquer atraso o bem maior que não aflição. Distração comum com tantas obras salutares e por exemplo comigo anseio em ler as coisas de se informar. Ora, se também, desconheço a escritora Maria Velho da Costa em nada deveria o estranhar, mas uma obra que no meu ver se deva a ter em conta, mui honesta. É, mas ali esquecer e (diga-se) com um Camões pelas costas, circunda o medo.

    Bom, as mulheres trafegam inertes em parábolas do tempo e atemporais; surgem, insurgentes as tais e isso, cada qual em seu princípio o valoriza ou não a paz.
    Cláudia da Silva Tomazi

    ResponderEliminar

Enviar um comentário