Voar com livros
As viagens de avião estão praticamente proibidas; e não me parece que, terminado o período de confinamento, as pessoas tenham a mesma vontade de fazer planos de viajar de avião nas próximas férias. Afinal, a doença foi-se transmitindo de país para país por causa de haver tanta gente a viajar de um lado para o outro e, portanto, é bem possível que o turismo desacelere e as pessoas, enquanto se lembrarem da pandemia, fujam de ir para longe, até com medo de ficar retidas num lugar estranho. As companhias aéreas já estão de rastos, e os aviões estão estacionados nos aeroportos sem serventia. Quiçá mais tarde os transformem em algo menos poluente e mais bonito... Em Iztapalapa, no México, um avião abandonado foi transformado numa biblioteca digital infantil que as escolas visitam regularmente e cujo projecto se chama Voando para a Utopia. Os bancos foram removidos, dando lugar a espaços de leitura e pesquisa. Existem cerca de 25 computadores e estantes com obras impressas. As crianças podem ainda visitar a cabina do avião e experimentar um simulador de voo para ver como é andar de avião a sério. Uma ideia bonita da prefeitura da cidade. Vejam como tudo se pode transformar sempre noutra coisa. Mais bonita e interessante.


Para hoje a sugestão de um romance que tem que ver com viagens e é mesmo um livro bem-disposto. Chama-se Notícias do Paraíso e escreveu-o o britânico David Lodge.
Bom... em Lisboa, fez-se um bar de alterne num avião, notável! Ahahah!
ResponderEliminarPortanto não é de todo novidade a usança em terra de um desses aparelhos ex-voadores.
Notícias do Paraíso, é um livro que confesso ficou bastante aquém das minhas expectativas, talvez porque na altura eu andava inebriado com a leitura do hilariante Tom Sharpe e as suas fabulosas personagens em delirantes tramas!
Aliás, considero-o um mestre na criação de personagens... terei razão?
Para os apreciadores de Stefan Zweig, há um livro biográfico sobre o autor e a sua época, as suas deambulações, chamado justamente Morte no Paraíso: A tragédia de Stefan Zweig. Não me lembrava do nome do autor, que é brasileiro, mas fui ver, Alberto Dines.
Boas leituras e votos de Saúde, cá desde a Cidade Morena!
Já li muita coisa do Stefan Zweig, um dos meus favoritos, entre novelas, ensaios e biografias, a "Morte no Paraíso" do judeu brasileiro Alberto Dines revela o percurso de Stefan até desaguar no Brasil e morrer, suicidando-se, no paraíso de Petrópolis. Recomendo vivamente para quem gosta de boas biografias.
EliminarHoje não comento o post. Estou triste. Mais uma perda nas Letras, aquele que escreveu livros que me encantaram na sua leitura.
ResponderEliminarFaleceu Luís Sepúlveda. Vitimado por este insidioso, cobarde, invisível e traiçoeiro assassino.
Se é certo que em cada vida há uma perda - e já são muitas e demasiadas - este escritor foi um dos que não resistiram a este mal a quem atribuíram o nome de corona. Não morreu apenas o Homem, que já em si é uma Vida, mas ao mesmo tempo o Escritor, o Realizador, o Editor, o Actor, o Produtor, o Fotógrafio e o Comunicador.
Velhos e novos continuaremos a ler os romances de amor, coisa que o vírus não destruirá.
Ao Luís Sepúlveda o desejo do descanso em paz e os pêsames à sua família.
Vi a notícia logo de manhã. Ainda outro dia vi a entrevista, dele e da mulher, nas Correntes d'Escrita. Ver uma pessoa bem e a falar bem disposta e noutro dia, desaparece.
EliminarGostei muito do "Patagónia Express" que li há uns bons anos, depois de ter lido "O Velho que lia Romances de Amor". Uma vida em cheio e com tanto ainda por escrever e contar.
A ideia do avião é excelente. Há sempre o caso dos autocarros que são transformados em espaços de cultura e divulgação. Outro dia vi na televisão sobre um autocarro Expresso que circulava pelo Algarve a apresentar peças de teatro infantil. Achei a ideia muito gira. Se não podemos ir às salas, as salas chegam a nós. Especialmente ao Interior. Abraços!
Não esqueçam o grande Rubem Fonseca, ontem falecido no Rio.
EliminarAinda bem que alguém se lembrou do falecimento, ontem ocorrido, de Ruben Fonseca, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, e que aqui passava completamente sem referência. Um bem-haja ao Anónimo!
EliminarÉ evidente que alguém se esqueceu de apontar Ruben Fonseca: eu. Porém, tenho para mim que este não é um espaço de necrologia, nem me cabe o exclusivo dessa tarefa. Foi um mero apontamento, dadas as contingências relacionadas com os motivos deste desfecho.
EliminarDe qualquer forma, penitencio-me por omitir Ruben Fonseca e outras autoras e outros autores que entretanto nos deixaram, mas sem levarem consigo as obras que nos legaram.
Peço desculpa.
Não sabia!
ResponderEliminarQue triste notícia sem dúvida, faz deste um dia triste, para nós leitores e amantes dos livros!
Mas, terá ele morrido?
Na verdade acho que um escritor desta dimensão, não morre... ele fica na obra que nos deixa, vive para sempre connosco. Como não morreram Eça, Jorge Amado, Steinbeck... e voltamos à nossa eterna discussão: Morre o homem, físico. Permanece o escritor, o artista.
Um abraço a todos os autores e escritores ainda vivos, e aos leitores do Mundo inteiro!
Gosto muito de Lodge. Agora quase não o leio, mas houve uma altura na minha pobre vida de leitor em que li quase tudo o que estava editado do autor. Curiosamente, comecei por ler um livrinho dele, editado na colecção "pequenos prazeres" da ASA, onde até então eu tinha comprado e lido tudo o que nessa colecção estava editado do hoje falecido Luís Sepúlveda. Uma colecção de pequenos livrinhos de capa preta muito bonito, bem apelativos e principalmente suficientemente baratos, para o bolso de um estudante pouco endinheirado. Esse livro (do Lodge) chama-se, se não erro, "Histórias de Verão, contos de Inverno". A partir daí, fui comprando e lendo mais Lodge; O mundo é pequeno, A troca, Terapia, Um almoço nunca é de Graça, Notícias do Paraiso, O museu Britânico ainda vem abaixo, Até onde se pode ir, Duras verdades (também da pequenos prazeres) e julgo que o último que li dele foi o Longe do Abrigo. Daí para cá, nada mais li, nem comprei, de David Lodge. Mas sim, reconheço que o autor marcou uma fase na minha vida de jovem leitor. Talvez um dia volte, porque recentemente adquiri um livro dele, não de ficção, mas ensaio, A consciência e o romance, porque ele, se não me engano é professor de literatura, não em Rumidge, esse local universalizado pelo autor nos seus livros (este local deve constar do "dicionário de lugares imaginários" do Manguel, hei-de ver!), mas numa verdadeira universidade inglesa. Peço desculpa pela intromissão.
ResponderEliminarComente sempre, por favor.
EliminarNum dia morre Maria de Sousa, no outro Luis Sepúlveda, dois nomes grandes das duas maiores realizações humanas, a ciência e a arte.
ResponderEliminarNada li de Lodge, mas faz parte de uma curiosidade da minha estante. Coloquei lado a lado dois livros de lombada preta. Confundem-se, fazem um mancha negra. Um de David Lodge, o outro de Luísa Costa Gomes. Aquele tem o título "O Mundo é Pequeno", este "O Pequeno Mundo". As coincidências obrigam-me a entrar nesses mundos (pequenos), não lhes posso fugir. Chegou a hora.
A minha homenagem a Luís Sepúlveda, creio que dele apenas li dois ou três livros; "O Velho que lia Romances de Amor", é um belo livro que, na altura, muito me marcou!
ResponderEliminarNão sei porquê, mas nunca criei grandes expectativas relativamente a David Lodge nem nunca me "puxou", ainda o pensei ler e até folheei cinco ou seis páginas de "Notícias do Paraíso", mas não me "agarrou minimamente" e passei a frente, deixando-o talvez para segundas núpcias (até poderei estar a perder "coisa boa"—é o que sinto sempre que não leio este ou aquele livro ou escritor—). Possuo, pelo menos um livro dele, que ainda não li ("A consciência e o romance").
"Morte do Paraíso" - A tragédia de Stefan Zweig de Alberto Dines (a biografia de um biógrafo), foi talvez dos últimos livros que comprei ao Círculo de Leitores, um belo exemplar com a foto do autor de charuto na mão, na capa dura, azul, olhando para o além; é uma bela edição, quase seiscentas páginas, bom papel, e com algumas fotos ao longo do livro, sobre vários momentos da vida, e da morte, do autor. Ainda não o li mas está na lista dos próximos e as expectativas são muitas.
Desculpe, eu já li e gostei, é Morte no Paraíso e não do Paraíso.
EliminarVou se calhar dizer um disparate literário, mas tudo o que li de Luis Sepúlveda, tinha a ver com as longínquas paragens sobre as quais escrevia, com gentes e costumes longínquos, e muito pouco romance. Eu gosto muito de literatura de viagens ou similares, sobretudo em lugares remotos. A gaivota e o gato, foi um acaso, mas não me encheu as medidas, também foi por acaso que li velho leitor de romances que não é bem um romance, mas os outros esses não foi por acaso, foi com objectividade!
EliminarNunca fui grande leitor de Luís Sepúlveda. Reconhecendo nele, no entanto, pelo pouco que li, um bom escritor e contador de histórias. Estive a vê-lo e a ouvi-lo recentemente na Biblioteca de Oeiras. Gosto sempre de ouvir o Homem que está por detrás do Homem. De qualquer Homem. Com todos aprendo. Uns mais, outros menos, necessariamente, pois todos têm histórias por contar. Achei-o cansado nesse dia. Mas não foi por isso que frustrou os seus leitores ou o público. Desfiando generosamente para um público que sonhou em conjunto consigo através da sua obra, possivelmente pela enésima vez, a sua e outras histórias. A sua vida rica e preenchida. Voou agora para outro lugar. Um lugar onde cabem todos os Homens, todos os livros, todas as utopias. Deixando a todos o que mais importa. Uma vida vivida. Uma herança deixada. Uma história contada.
ResponderEliminarNão sei como me esqueci de Rubem Fonseca, talvez porque fugiu à onda das mortes por Covid-19. Morreu com 94 anos um grande escritor de língua portuguesa, Prémio Camões 2003. Para mim não morreu pois ficaram comigo "A Grande Arte" e "Bufo & Spalanzani". Não incluo a sua obra mais mencionada, "Agosto", porque não me atrai aquele género.
ResponderEliminarPois eu gostei de Agosto, porque trata do suicídio de Getúlio Vargas, presidente do Brasil e eu estava no Rio nessa altura; embora criança, lembro-me bem, ainda tenho revistas dessa época, inclusive do enterro dele na sua terra natal.
EliminarEmbora mais pobres pela perda dos escritores, continuemos a voar nas suas palavras.
ResponderEliminarEmbora mais pobres pela perda dos escritores, continuemos a voar nas suas palavras.
EliminarA quê tenho de vagar se a pequenez de meu país, desconhece autores de calibre (segundo o citam). Desconheço David Lodge e se de todo minimizado for, este Sul do meu país, por modelo se aplicar o desconhecem, onde muito se lhe conhece dos britânicos a Enciclopédia.
ResponderEliminarAgora sim, o vôo trata-se de horizonte a leitura nas asas da imaginação. Simples é ser perfeito em o saudar à distância quando o pensamento é pleno de liberdade.
Cláudia da Silva Tomazi
A ideia do avião é fantástica e inspiradora. Quem a teve deve ter também muita poesia a bater no peito.
ResponderEliminarEm 24 horas perdemos dois grandes escritores, Rubem Fonseca e Luís Sepúlveda. Deste último, devo confessar que os mais recentes que li dele me desiludiram e me afastaram da sua escrita.
Por fim, sabia que tinha um livro de David Lodge perdido nas estantes. Já o pesquei, chama-se "Longe do abrigo" e vai passar à frente na fila, o malandro.
Boa quarentena e boas leituras.
Rui Miguel Almeida
Adoro o David Lodge que, por coincidência, tem um filho com Trissomia 21 e uma mulher que é minha homónima: chama-se Mary Frances.
ResponderEliminarTerapia é um dos meus livros eleitos de sempre e adorei também A Vida em Surdina, com tradução exímia da Tânia Ganho.
Excelente ideia. Obrigado pela sugestão. Bom fim de semana.
ResponderEliminarSó uma pequena nota para os possíveis indecisos, mas interessados, relativamente à leitura de Lodge. Há no autor, uma preocupação de escrever os livros com uma carga literária não demasiado pesada, embora isso estivesse perfeitamente ao alcance de um autor, que é professor de literatura e que assim decidiu (julgo eu) por opção. Desta forma, não considerando eu os seus livros, obras literárias de referência, são no entanto muito bem escritos mas simultaneamente leves na leitura, sendo mesmo frequente darmos por nós a soltar gargalhadas nas suas múltiplas passagens hilariantes ao longo das histórias. Sendo romances, comtemplam também passagens de convívio amoroso, sem presença e detalhes em exagero e escritas com bom gosto. Há no entanto uma característica comum aos livros (romances) do autor, que são as suas dissertações, em jeito de pequeno ensaio, relacionadas com a vida profissional da personagem principal ou outra que lhe seja próxima. Estas divagações, ocupam um capítulo, e aparecem sempre bem no miolo do romance, para que o leitor não esmoreça aí a sua leitura (uma injecção de racional, no seio do emocional), mas são suficientemente profundas, interessantes e formadoras, mostrando que o autor, ou conhece o tema ou o estudou, ad hoc para o inserir na história. Talvez alguns leitores tropecem neles e encostem o livro, ou, para os mais interessados na conclusão da história, saltem estas partes. No O mundo é pequeno, a divagação é sobre literatura, na A troca, julgo que é sobre feminismo, no Terapia, é sobre filosofia/existencialismo (Kierkegaard), no Notícias do paraíso, é sobre religião (a personagem principal é um padre, julgo). Não conheço outro autor que assim o faça como Lodge, por sistema (também não conheço, de ler, assim tantos). No livro A troca, um dos primeiros, senão mesmo o primeiro romance de Lodge, dois professores universitários de literatura, um inglês e um americano, trocam de cátedras e de residências durante um período lectivo (já não me recordo se um semestre, ou um ano). O picante da história está no facto de ambos serem casados e de as respectivas esposas não os acompanharem. O romance O mundo é pequeno vem na sequência do A troca. Eu, sem saber do facto, li-os na sequência errada. Nada, no entanto, se perdeu.
ResponderEliminarMuito obrigado pelo trabalho a que se deu, e que me parece ter resultado plenamente, pela forma como conseguiu apresentar-me a escrita de D. Lodge, que como disse só conheço do "Paraíso", que não correspondeu no entanto à expectativa criada e se calhar avaliei mal!
EliminarAbraço cá da Cidade Morena, no paralelo 12 S !