O que ando a ler

Por acaso, não ando a ler um livro em português, mas o pequeno romance de um autor nascido no País Basco, de ascendência galega, que escreve em castelhano e mora na Catalunha (que mistura explosiva). O livro, Ama, de José Ignacio Carnero (assim se chama o «senhor Espanha»), foi-me recomendado pela minha autora Marta Orriols e, embora não tão «purgante» como Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Villas, tem bastantes ressonâncias desse romance. «Ama» é a palavra mãe em euskera, mas é também a terceira pessoa do verbo «amar» em castelhano e em português, e este é um livro escrito com muito amor para fazer o luto de uma mãe. Olha para trás, para tudo o que não se fez e se podia ter feito, contando a vida de uma mulher que não teve muita sorte, mas até ao fim teve sempre uma grande dignidade: foi criada, migrante, pobre, doente, e sacrificou-se para dar tudo ao seu único filho, que hoje acha que não retribuiu como devia, mesmo que tenha passado com ela os últimos dias, os mais difíceis de todos, e lhe tenha dedicado esta peça literária. É, no fundo, um bonito testemunho sobre a orfandade e, ao mesmo tempo, um bom retrato da Espanha contemporânea.


 


Hoje, porque Ama será difícil de encontrar em Portugal, recomendo O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, com tradução de Nuno Camarneiro.

Comentários

  1. Estou a acabar a antologia de Camilo Castelo Branco organizada por Hugo Pinto Santos. Depois vou começar Chuva Miúda de Luis Landeiro. Aguardam: Crime e Castigo, Viagem ao Fim da Noite e A Sangue Frio.

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  2. António Luiz Pacheco1 de abril de 2020 às 01:58

    Bom, o dos tártaros deserto!

    Quanto ao que ando a ler , andei a guardar o segredo:

    - Grande sertão: Veredas , de João Guimarães Rosa.

    Só me pergunto, como foi possível nunca ter descoberto e muito menos lido este livro, antes? Caramba, mas mais vale tarde do que nunca, e, na verdade ainda bem que nunca o li antes, pois assim ainda me deleito com a sua leitura, é bom saber que ainda há livros destes por ler, e que surpresas Extraordinárias nos aguardam!

    Foi aqui no H.E. que a Nossa Extraordinária Anfitriã falou da sua reedição, e em Extraordinária Hora o fez, me assobiou aos ouvidos e eu fui comprar e beber desta água!

    Que livro Extraordinário! É só o que posso dizer, para mim que sou leitor deste género, destes temas e destes escritores. Fabuloso!
    Peço pois desculpa ao Itamar por há dias ter dito que estava a ler coisa ainda melhor que o seu Belíssimo Torto Arado, mas creio que fico justificado e ele me entende... aliás um na linha do outro, se estou a analisar bem...

    Este livro, escrito com maestria, tem uma alma profundamente entranhada que o torna, não fácil de ler - atenção - e pela linguagem usada que porém só o valoriza (acho eu e parece que muito boa gente que sabe o que diz!) dá-lhe esse cunho de autenticidade indiscutível.
    É qualquer coisa de Extraordinário ouvir da boca do jagunço, aquilo que foi a sua vida, e é ainda mais Extraordinário pensar que há,, que houve vidas assim, que aquelas coisas se passaram e sobretudo isso nos fará pensar na actualidade, e nos dará entendimento para o que acontece hoje e para os acontecimentos recentes!
    Não sou especialista, mas não posso impedir-me de fazer análises e comparações à minha moda... que não partilho aqui pois não me atrevo, mas acredito que a quem leia ocorram idênticas idéias, sócio-políticas... vindas da história do Brazil, pois na história está explicado o presente e se pode prever o futuro, dizem, e eu acredito que sim.

    Que Grande Sertão, cujas veredas percorremos!

    Aconselho, definitivamente.

    Saudações cá do Sertão Angolano e da Cidade Morena, em quarentena.

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  3. Também li tardiamente o Grande Sertão na edição brasileira , embora conhecesse o romance. Custou-me um pouco, a princípio. entrar na torrente linguística do Guimarães Rosa, mas para o final foi em cheio. Que grande romance! Que vida! Que personagens!

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  4. Estou a ler poesia, a "Terra Prohibida" de Teixeira de Pascoaes.

    Sempre tive curiosidade em ler este poeta contemporâneo de Pessoa, pela comparação (e até rivalidade) que faziam entre os dois. Só este ano é que encontrei esta obra na biblioteca da Incrível Almadense (de 1923, uma edição brasileira, que curiosamente nunca tinha sido lida... pois tive de ir "desflorando" as suas folhas...).

    Mesmo sem ser um "especialista", atrevo-me a dizer que não há comparação possível entre os dois. Pascoaes é um clássico, Pessoa um modernista (felizmente).

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  5. Estou a escrever ao som dos dias.

    Um outro Lugar para a Esperança.

    18/3

    O olhar constrói o rumor do mundo,
    pouco importa se subimos ou descemos
    os caminhos, vem de longe o olhar,
    tem origem na esperança do futuro.
    As mãos seguram arcos de aliança,
    iluminam rostos e imagens insólitas,
    olhamos o céu e pensamos em voar.

    19/3

    Um poema sem título, na infância
    uma criança perdida na claridade.
    Vem de longe o rumor do mar, havia
    uma praia e vento a virar páginas,
    havia calma no viver, havia calor
    talvez de março, havia liberdade.
    Um dia a criança desenhará um barco.

    21/3

    A cada respirar cresce a escuridão,
    traduzes o silêncio das estrelas
    incrustadas na noite, a sombra
    das mãos que prendeste aos dias.
    O sol nasce com destino marcado,
    e palavras vizinhas da distância
    sobrevêm à música do tédio.


    23/3

    O poema, coração roubado ao peito,
    uma árvore que das raízes arvora
    a resistência que há dentro de nós.
    O poema, mais forte do que as armas,
    na sua imperdível confiança .
    O poema, a vontade de não ceder
    à densa solidão de cada palavra.

    26/3

    Talvez ainda demore para chegar
    esse clarão longínquo, espero por
    essa poalha luminosa junto a ti.
    A tempestade flutua no espaço,
    deixa um vasto rasto de heróis
    que poucos sabíamos que existiam,
    que despertam as margens do mundo.

    27/3

    Em cada casa cai uma partícula
    de sol por filtrar, uma vastidão
    com muitos destinos, um jogo dentro
    da vida, em que cada um agarra
    o desconhecido com as suas mãos.
    No amanhecer deste recolhimento
    sorriem das varandas humildes flores.

    29/3

    Como se a noite não contasse na vida,
    vozes inesperadas são joias refulgentes.
    Confirma-se o movimento das raízes
    de uma romãzeira, que a retina
    regista, entre anotações imprecisas.
    Um tempo sem epitáfios, na entrega
    do silêncio ao seu claustro iluminado.

    31/3

    Vento que vem do princípio do tempo,
    abre na alma uma antiga angustia e
    imprime seu rumo às ocultas palavras.
    Pássaro na folha da serra, o som
    dos dias no branco papel da solidão.
    Pela luz perfeita a primavera progride,
    azul, limpa, a rasgar o horizonte.

    1/4

    Corre sereno o rio, a serra acolhe o pó
    do seu caminho. Por entre os gorjeios
    dos pássaros descobrimos a vida
    que se vive em nossa casa, sem destino
    marcado para abrir a porta.
    O coração adensa alma e garras,
    aguenta a fera de cada dia.

    Forte abraço e saúde para todos.
    Fernando Paulino, Setúbal.

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    1. António Luiz Pacheco1 de abril de 2020 às 05:29

      Muito bem!
      Extraordinário Paulino, não anda a ler, mas anda a escrever... continue!
      Um abraço cá da Cidade Morena!

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  6. Marcos Fábio de Faria1 de abril de 2020 às 05:28

    Que ótima indicação, tentarei buscá-lo em castelhano, em alguma livraria delivery daqui de Barcelona. Por agora, tenho lido “Un archivo de sentimientos: trauma, sexualidad y culturas públicas lesbianas”, de Ann Cvetkovich, além das leituras paralelas: relendo os livros “Teatro dialético”, de Brecht, e “Mutirão em Novo Sol”, de Nelson Xavier e Augusto Boal.

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  7. "TEMPO DE CATANAS" Jean Hatzfeld.
    Um livro alucinante!
    O genocídio (dos tutsis pelos hutus) ocorrido no Ruanda entre Abril e Julho de 1994 em que foram massacradas 800.000 pessoas.
    É um depoimento de alguns autores materiais deste massacre absolutamente selvagem em que foram chacinados vizinhos, familiares, amigos (homens, mulheres, crianças, recém nascidos, tudo o que fosse tutsi ou quem com eles colaborasse) e uma brutalidade absolutamente inumana, absurda e inimaginável.
    Um genocídio quase invisível aos olhos do mundo.
    À catanada os corpos eram retalhados, membro a membro, e deixados vivos, a agonizar.
    Atenção que este genocídio ensina-nos que não estamos protegidos porque a barbárie está inscrita à flor da pele à espera de um pretexto que a legitime.
    Já galguei 150 das 250 páginas deste livro de horror em directo!

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco1 de abril de 2020 às 08:35

      Ó Severino... desculpa lá a observação, mas quanto a ter sido quase invisível aos olhos do Mundo é que contesto, ou andavas distraído... foi uma coisa muitíssimo falada e que chocou o Mundo inteiro na altura, houve até filmes feitos sobre isso!

      Abraço, igualmente chocado!

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    2. É sempre uma grata e rara surpresa encontrar alguém lúcido acerca da natureza humana, porque de uma forma geral a maioria acredita, ou finge acreditar, no "bom selvagem".

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    3. Ó Paxeco provavelmente terás razão pois, embora à distância de tantos anos, admito que, na altura, andaria distraído com outras coisas (quiçá menos importantes).
      Abraço

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  8. Li "O Deserto dos Tártaros" e "A Derrocada da Baliverna". Gostei de ambos.

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  9. Muito obrigado pela sugestão.
    O livro de Manuel Vilas tocou-me muito.
    O que pretende a Rosário dizer quando o qualifica como «purgante»?

    Obrigado e boas leituras.

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