Criar à distância

Faço muitas vezes letras de fados e canções para artistas que não conheço pessoalmente, mas que já ouvi cantar, nem que seja no YouTube. Há já uns meses que estou a trabalhar num projecto com um compositor cujos nome e trabalho conheço há séculos, embora nunca tenhamos sido apresentados; e, apesar de termos planeado encontrar-nos para acertarmos detalhes e nos olharmos olho no olho, veio o estupor do Coronavírus e já não foi possível (entretanto, o trabalho avança). É estranho criar com alguém que não vemos (e não me venham, por favor, falar do Zoom e do Skype, que não é nada a mesma coisa). Há cerca de duas semanas fui convidada para inspirar uma obra plástica à distância num projecto da Bienal de Cerveira. Estou entre 15 escritores que farão um texto com apenas 15 palavras para 15 artistas partirem deles para... criar uma obra em confinamento. E mais uma vez não conheço pessoalmente o artista que me calhou: Isaque Pinheiro. Vamos lá ver o que isto vai dar. Deixo-vos um link com os pormenores.


https://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/artistas-e-escritores-criam-a-distancia-em-projeto-da-bienal-de-cerveira?fbclid=IwAR0AErtmoVMDuWIJJd27JB5DnoOICUW6vr9vALgFe6NA127y9-3jDvC_VlY#_swa_cname=sapomag_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapomag_share


Hoje vou sugerir poesia, já que foi com poesia que colaborei para a Bienal de Cerveira. Leiam então, por favor, Epílogo, de José Agostinho Baptista. A sua obra mais completa possível. E tudo tão bom.

Comentários

  1. Pode-se criar, de mil e uma formas. Sabemos que nem todas são as melhores, nem irão dar as melhores obras, mas são as possíveis.

    Depende também muito de sermos ou não uns "puristas" (criar só para "santuários"...), ou fazer o que nos apetece e também o que nos bate à porta.

    Gostei muito da escolha literária. Pela qualidade, pela poesia, pela língua portuguesa.

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  2. António Luiz Pacheco29 de abril de 2020 às 05:08

    De casa para o Mundo!
    Interessante conceito, que me faz reflectir... vale o que vale e talvez nem interesse a ninguém, mas aqui fica, não me importo de falar sózinho, o que faço constantemente (mas "para dentro" , descansem!).
    Bom, a minha casa sempre foi o meu Mundo... ainda hoje é, mesmo a casa "emprestada" aqui na Rua Domingos do O, nº 70, em Benguela! A casa que fui compondo ao meu jeito, fazendo dela o meu Mundo, daqui.
    É curioso fazer notar que, ao longo destes anos de expatriado, aprendi a perceber quando é que as pessoas que chegam, se adaptarão ou estão de passagem... é normal nos quadros técnicos mais novos não haver mostras de "assentamento"... vivem nos seus computadores, alguns nem à praia vão... esses nunca aguentam mais do que um par de meses e vão embora, alegando variadíssimas razões, mas eu sei porquê... um ou outro, começam a andar por aí à caça das (muitas e belas) moças, sempre disponíveis, e é bom sinal! Mostram curiosidade, querem ir a sítios, ver coisas, perguntam ... fazem-se!
    Os mais velhos, normalmente instalam-se... tenho um colega aliás ribatejano, o Pompílio, da minha idade, o nosso mecânico-residente na Baía Farta, que arranjou logo uma horta no quintal da casa... eu trouxe-lhe até estrume de uma fazenda e arranjei um saco de adubo, plantas... o Pompílio, divorciado, tem uma companheira angolana, a Rute a que eu chamo "Pompília" e pegou, pois muita gente a trata assim. O Pompílio é o protótipo do português, da nossa gente, que monta a sua casa, o seu Mundo, onde quer que vá! E vive bem...

    Por isso tenho dificuldade em perceber a aflição, o stress em que se vive por "estar em casa", como se só fosse possível viver nos cafés e restaurantes, nos centros comerciais, nos cinemas... por aí fora. Eu, adoro estar em casa, e notem que sou homem de ar livre... anseio por sair para a caça e a pesca, tenho de ir à praia, vou às fazendas e pescarias... mas não me custa ficar em casa, sobretudo se tiver as minhas coisas!
    Não deixo de criar! Trabalho em casa e a partir de casa, raramente vou à "Casa do Frio", a nossa loja/armazém/escritório, e com os meus grupos de facebook vou mantendo actividade, sabendo o que se passa ou faz, ajudando a fazer coisas, trocando e divulgando idéias, conversando e até discutindo.
    É como participar aqui, no Horas Extraordinárias... não nos habituámos já a isso?

    O nosso Mundo é onde estejamos, a nossa casa... não deixo de ter saudades da Quinta de Santo António do Graínho, dos meus cães, dos meus livros, discos, das minhas espingardas... da família, já agora... quem me dera poder estar lá, confinado!

    Enfim, cá de Benguela para o Mundo.
    Haja saúde a apetite, a Mariana está no quintal a grelhar umas postas de peixe-azeite que tenho na arca, raramente almoço, mas ontem não jantei e hoje vai, depois de uma manhã proveitosa no Luhongo e na Catumbela, a ver terrenos para um projecto. A tarde vai ser em casa, a fazer relatórios, reunir as fotos, emitir pareceres... Depois de uma curta sesta, é claro. É assim agora, o meu Mundo, e desde casa que o faço girar e giro com ele!

    Fiquem bem, como se diz por cá!

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco29 de abril de 2020 às 05:11

      Lembro ainda a propósito do arrazoado que desfiei, aquela dúvida expressa por alguém que julgo que também devia falar muito, sózinho: Seria mais feliz casando com a filha da minha lavadeira?

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  3. Criar, nestas condições, é com certeza mais difícil. Mas muitos criadores estarão a fazê-lo neste momento. Boa sorte.

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