A escola ganha

Sou bastante antiga, como já devem saber, e tenho um irmão apenas ano e meio mais velho do que eu. Falo disto porque, no nosso tempo de estudantes, nos anos 1960, o meu irmão fez parte desse projecto-piloto que foi a Tele-Escola e, concluída a instrução primária, completou assim os dois anos do então Ciclo Preparatório. Estava num colégio em que viam as aulas pela televisão e a seguir um professor ajudava a tirar dúvidas e a corrigir exercícios. Nem sei se era sempre o mesmo, se havia vários, do que me lembro muito bem era de assistir às aulas de Francês em nossa casa pela televisão, e o professor, de fato completo e muito aprumadinho, ter um ponteiro e, apontando para a câmara, dizer amiúde: Répétez! E eu lá repetia, que era para aprender tudo ao mesmo tempo que o meu irmão... Para quem tenha dúvidas sobre o sucesso da coisa, o meu irmão foi depois para o Liceu Camões e nunca mais saiu do quadro de honra, teve 20 a História e Filosofia nos últimos anos e tornou-se professor universitário, o que ainda é. Por isso, sou daquelas pessoas que acho que às vezes o ensino à distância é muito positivo (mesmo não apreciando o teletrabalho) e tem melhores resultados do que uma turma barulhenta ou com um professor mal preparado. Talvez por isso, deu-me muito gozo uma notícia que li ontem: a Tele-Escola, na RTP Memória, bateu todos os recordes de audiência e destronou a Correio da Manhã TV! Que felicidade!


Hoje sugiro Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé, um enormíssimo romancista autodidacta (se não me engano era ourives), muito apreciado pelo nosso Lobo Antunes. Tem muitos outros livros bons, mas o que refiro é o meu preferido.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco22 de abril de 2020 às 03:46

    Tive colegas de curso, oriundos da telescola, do tempo em que Portugal era mesmo profundo!!!
    A mim fazia-me confusão a telescola, confesso... nem sei muito bem porquê, pois no fundo eles iam à escola, só que o professor "dava" na televisão em vez de estar em cima do estrado ou à secretária, sem interagir com os alunos. Havia um vigilante na sala.
    Mas suponho que seja mera questão de hábito...
    Também não vejo razão para que esse tipo de ensino prepare menos bem os alunos, pois se o aluno quer aprender, aprende!

    Juan Marsé... confesso que nunca li nada dele. Faz parte dos centos de milhares de autores que nunca li, ou mesmo lerei, pois não tenho tempo de vida para ler tudo o que gostaria, quanto mais para ler todos os autores que haja.
    É pena, sim, e, quando se fala de um autor, aliás bom, premiado, (se é que isso é algum tipo de garantia, no qual não me fio muito) sinto mais pena ainda de o desconhecer.
    Imagino o que vou perdendo. Por exemplo ando a ler João Guimarães Rosa e pergunto-me como foi possível só agora o ler.? Isso causa-me alguma angústia, há centos... milhares de obras e autores que nunca lerei, que desperdício!

    Saudações angustiadas cá da Cidade Morena.

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    1. Olá António Luiz, deixe sua angústia de lado, és privilegiado em fazer a literatura tua água em sabor.
      CST

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    2. António Luiz Pacheco22 de abril de 2020 às 09:17

      Não tinha visto por esse prisma, Cláudia! Mas é uma bonita e poética analogia.

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  2. Romancista autodidacta? não serão todos? Também há editores autodidactas? e críticos autodidactas? A senhora tem com cada uma...

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    1. Talvez a senhora faça a distinção entre "romancista-pessoa licenciada a exercer paralelamente profissão compatível ou não com o diploma" e o "romancista-autodidata", ou seja, alguém como Saramago, ou autor, não licenciado, ou mesmo jornalista, que aposta no mercado para poder viver dele, como a maioria dos escritores dos países ricos.

      Mário Domingos

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  3. O sistema de ensino a distância funciona bem se devidamente operacionalizado e como complemento de políticas de proximidade social.
    Tem muitas vantagens... até ao nível da organização dos espaços urbanos e mesmo rurais - ao diminuir em muito a necessidade da mobilidade nas cidades, bem como permitir chegar o ensino e a informação a todos os jovens que vivam em localizações distantes.
    Tempos e situações excepcionais podem também ter virtualidades no sentido de alteração de paradigmas, sejam eles quais forem. O ambiente e o social exigem-no. Aproveitar este tempo para uma alteração radical no modo de ensinar, responsabilizando mais toda a comunidade educativa apontava o caminho do futuro.
    Sobre Juan Marsé aquilo que se pode dizer é que é um excelente romancista.

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  4. Acabei de ouvir a professora de português dizer "o mais saudáveis possíveis".
    Eu diria "o mais saudáveis possível"
    Alguém me tira esta dúvida?
    🌻
    Maria

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    1. António Luiz Pacheco22 de abril de 2020 às 05:36

      Voto na sua... porém não sou professor de português!
      Pode ter sido um lapso, mas aguardemos que alguém credenciado esclareça.

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    2. "O mais saudáveis possível" ou "o mais possível saudáveis", também me parece a forma correcta e portanto tem o meu voto.

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    3. Obrigada por responder :))
      Foi logo no início da aula, soou-me tão mal, embora com esta treta do AO eu já nem saiba escrever certas palavras... dou comigo a pensar : será que se escreve assim?
      Enfim, o mal está feito e parece-me irreversível.

      Boas leituras.
      🌻
      Maria

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    4. Muito obrigada.
      A resposta que dei ao ALP assenta-lhe que nem uma luva

      Maria

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    5. O mais saudável (que for) possível. Não devia ser óbvio?

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    6. Claro que devia, especialmente para uma professora de português.
      Lamentável começarem assim...
      Mas são tantas as calinadas ouvidas e lidas diariamente que, por vezes, chego a pensar que sou eu que estou errada.
      É que o senhor alemão já anda por aqui a rondar...
      🌻
      Maria

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  5. Acho que tem muito mais a ver com o interesse do aluno. Claro que um professor que nos prenda a atenção é uma mais valia, mas vejo pela minha filha que não tem paciência para ler um livro (leio-lhe todas as noites antes de adormecer) ou uma BD e eu quando era pequeno adorava folhear enciclopédias, ler livros de História, BD e demais livros juvenis. Ninguém me dizia para ler. Sinto-me um ET quando digo isto à minha filha.

    Conheço o escritor ourives só de nome, mas irei cuscar sobre as obras dele. Gosto que me recomendem livros.
    Quanto aos livros todos que ainda me faltam ler, não fico angustiado, há ainda muito boa leitura no Mundo e sabendo que se calhar 80% do que se publica globalmente não tem boa qualidade, penso que não é caso para sentir frustração. Vamos vivendo e lendo um livro de cada vez.
    Fiquem bem.

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    1. António Luiz Pacheco22 de abril de 2020 às 07:07

      Extraordinário Henrique:
      - Claro que estou a exagerar, coisa compreensível numa traça dos livros, e não é isso que me tira o sono, mas compreenda-me, a angústia vem de que só aos 64 anos descobri "Grande sertão - veredas".
      Ora, quando penso que é só um dos melhores livros que li até hoje, assalta-me essa dita angústia que julgo compreensível: assim, quantos outros existirão?

      Grande abraço, não angustiado porque é virtual, mas verdadeiramente sentido!

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    2. Caro António,
      Percebi o exagero ;-) Existirão muitos de certeza. Também eu penso nisso.
      Eu que tenho 45 anos e ainda penso que só li uma gota. Será que a descoberta do "Grande Sertão" aos 25 ou 35 anos teria o mesmo impacto? Essa é a questão que me passa pela cabeça de vez em quando. Tenho os clássicos "Ilíada" e "Odisseia" pendentes. Qual a melhor idade para retirar o "sumo" destas Obras? Por enquanto me vou divertindo com os clássicos de Teatro do Aristófanes e a poesia do Ovídeo.
      Um grande abraço virtual.

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    3. António Luiz Pacheco22 de abril de 2020 às 09:22

      Tem muita razão, Extraordinário Henrique... afinal nada acontece por acaso!
      Se calhar é essa a razão de nunca antes ter descoberto este e outros livros que ainda conto descobrir!
      Há obras que se lêem e interpretam, nos tocam, de forma diferente consoante a idade e sobretudo a vivência, pois a idade só por si não trás necessáriamente vivência.

      Renovo o abraço!

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  6. Maria, o NAO é completamente alheio à forma como se constroem frases. Impõe algumas novas regras, sim, mas apenas sobre a forma como se escrevem algumas palavras, não aos modos como estas se podem combinar entre si. Só atua sobre a ortografia (Acabou de o fazer na 2a palavra da última frase)

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    1. Sim, acabei por misturar dois temas diferentes. As palavras são como as cerejas... estava a pensar que seria terrível para os alunos se agora anulassem o Aborto Ortográfico, seria uma grande confusão, daí ter dito que o mal está feito.

      Quanto à construção das frases, concordâncias, etc., um professor de português tem obrigação de falar correctamente, especialmente se estiver a falar para grandes audiências.
      🌻
      Maria

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  7. Erros de português? Basta estar atento aos rodapés dos programas de qualquer uma das estações de televisão -até dói-!

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  8. bela sugestão, gosto muito de Juan Marse e li tudo o que está traduzido em português (e tenho), quanto à rtp memória ter ultrapassado a cmtv em audiências ser uma boa notícia, é, como é uma boa notícia qualquer canal bater a cmtv.
    henrique cheira

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