Pérolas

Quando era miúda tive uma professora de Matemática que um dia, ao descobrir que uma colega minha e eu estávamos a conversar e não tínhamos prestado atenção, disse que não gostava nada de «deitar pérolas a porcos». Enfim... Se fosse agora, talvez o Conselho Directivo ou a Associação de Pais a punisse ou chamasse à pedra pelo insulto, mas nesse tempo as coisas eram diferentes. De qualquer modo, as pérolas interessam-me hoje por outro motivo mais literário. Numa sessão de homenagem à escritora Rosa Lobato de Faria que ocorreu na quinta-feira passada, dez anos passados da sua morte, o ensaísta Eugénio Lisboa falou do preconceito que a Academia alimentou ao longo de muitos anos em relação aos livros que contavam bem uma história, crendo-os menores do que aqueles que privilegiavam o trabalho de linguagem. E usou uma imagem que é muito perceptível para a suma importância do fio narrativo que, segundo ele, é o que mantém de pé toda a construção literária. Disse que o que interessava na literatura eram as pérolas, sim, como a Academia defendia, mas que, se não houvesse fio, o colar estaria todo espalhado pelo chão. Achei bem interessante. No que me diz respeito, não foram pérolas deitadas a porcos.

Comentários

  1. Ora aí está uma excelente imagem, essa das pérolas e do fio, de cujo conjunto se obtém aquilo que tem bonito efeito: o colar, sem o que, as bonitas contas de nácar são apenas isso, sem brilharem no seu conjunto.

    Eu, traça dos livros, sinto-me de acordo com a opinião expressa: um bom livro é uma história bem contada… não é apenas uma boa história, ela tem de ser bem contada com todos os ingredientes… é como um cozido à portuguesa, que feito separadamente será uma coisa mais ou menos desenxabida apenas cozida em água, mas cozido no seu conjunto e misturando com saber os ingredientes, dá uma coisa saborosa e rica!

    Claro que importa a qualidade dos ingrediente, sempre… e um Grande Livro, para mim, será sempre uma boa história, bem escrita e com a arte de usar as palavras certas, numa linguagem bem apresentada, seja ela mais ou menos sofisticada e elaborada, tem é de ser a certa para aquilo que se transmite aos outros.

    Lembro-me de o Mestre José Pardal me dizer isso mesmo, que lho havia dito o grande caçador-escritor James Mellon: escrever para os outros, não escrever para si mesmo!
    Ainda me atrevo a dizer que isso é capaz de ser a maior dificuldade do candidato a escritor, ter em mente que está a escrever para os outros!

    Votos de um Extraordinário dia e continuação da semana, para todos e bem hajam os que como nós, traças, iluminados e luminárias, mantêm vivo o brilho da nossa literatura!

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    1. P.S.
      Tenho a felicidade de estar a ler neste momento um Grande Livro, como aliás o referi noutro dia n' "O que ando a ler".
      "Torto arado", tem isso tudo: é uma boa história, muitíssimo bem contada, e com uma linguagem que me parece perfeita na adequação e na maestria da transmissão do que é uma realidade que o autor domina perfeitamente. Portanto um Extraordinário cozido!

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  2. Já usei essa expressão, não a acho ofensivo, tida como metáfora. Ela vem registada na Bíblia, mais propriamente no Evangelho de S. Mateus (Sermão da Montanha), onde Cristo disse: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis pérolas a porcos, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem."
    Os porcos ou varrões, talvez até javalis, vêm fazer nesta frase o papel que o lobo mau faz nas histórias infantis - são os vilões. Os porcos não gostam de pérolas, que serão até duras para as suas dentaduras, para além de serem caras e terem outra "utilidade".
    Já me aconteceu oferecer livros a uma pessoa e, por acaso, numa visita posterior, encontrar um deles a servir de apoio a uma mesa paralítica; também cito outro exemplo, que foi o ter encontrado um livro meu, autografado e oferecido, no canto da lenha de determinado amigo, possivelmente sem o ter lido.
    A partir dali, passei a não deitar "pérolas a porcos", mas sim a deitar "as barbas de molho", o que significa que, ao oferecer um livro, terei de saber se a pessoa aprecia a leitura, e que género de leitura.

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  3. Muito pertinente - e verdadeiro - o preconceito que Eugénio Lisboa transportou para a mesa.

    Os romances de Lobo Antunes, provavelmente, deveriam ter outra denominação...

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