Crónica e desgosto

Hoje é dia de crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/18-jan-2020/-voce-nao-esta-aqui-11716995.html


 


Como sabem, morreu um dos maiores professores, leitores e críticos literários da actualidade: George Steiner. No momento em que soube a notícia, aconteceu-me uma coisa muito estranha: chorei como se o conhecesse, como se se tratasse de alguém querido, amigo, próximo. Suponho que Steiner provocava essa empatia, esse amor que sentimos por um pai ou um avô, também por ser um intelectual que é gente, por dizer coisas que todos entendemos e nos tocam. Ainda agora, a escrever estas linhas, tenho lágrimas nos olhos e pena de não poder, por exemplo, voltar a lê-lo ou ouvi-lo em entrevistas, pois dizia coisas sempre tão certas. E sinto que este desgosto é também porque sei que homens assim já não se fazem, que partiu um dos últimos exemplares, que já quase não resta ninguém.

Comentários

  1. Dele li "Tolstoi ou Dostoievski", "Martin Heidegger" e um outro sobre a Linguagem. O Ocidente perdeu um dos seus mais brilhantes intelectuais. Vamos relê-lo para o manter vivo neste mundo trumpiano que se aproxima para mal dos nossos pecados.

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  2. Se calhar até existem outros George Steiner… porém, este por ser já velho fez o seu caminho, elevou-se e ganhou ao longo do tempo o destaque e a posição onde chegou, reconhecidamente porque vinha de trás, do tempo em que se reconheciam os méritos.
    Hoje em dia, o que se reconhece é a capacidade de dizer não-importa-o-quê, desde que seja fracturante, é a agressividade e a convicção e nem por isso a sensatez e a qualidade! Há que dar nas vistas, chocar, ser afirmativo… tem de se evidenciar pela postura, aspecto, que se é outra-coisa, que se é do contra em termos sociais, sexuais, intelectuais!
    É isso que impera, a que se dá relevância e aplaude, é o que marca.
    Portanto, qualquer George Steiner ou outro grande intelectual, pensador, filósofo, sábio ou o que queiram chamar-lhe, será não somente anulado pelo mediatismo mas até impedido de se manifestar, ninguém lhe prestará atenção!
    Daí, eu pensar, na minha boa-fé e credulidade enquanto traça dos livros e barrão inculto, tosco expatriado em terras de África longínqua, que a Humanidade não cessa de nos maravilhar pelas boas razões nem de espantar pelas piores, mas que na Natureza e por força do equilíbrio universal, a cada acção corresponde uma reacção, logo ainda há essas pessoas, estão por aí ocultas, a fazer o que fazem, mas estão!
    Penso eu de que, e acho que não me enganarei… sei que os tempos mudam, as modas passam, mas sei que há coisas que se mantêm e sempre vêem ao de cima, ciclicamente.
    Estamos num ciclo mau… apenas isso, esperemos pelo seu clímax e que se reverta!

    Saudações esperançosas cá da Cidade Morena, onde ontem fui assaltado à mão armada, por um bandido até educado, que talvez por isso nem me faz mudar muito, de opinião.

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  3. Sobre a crónica, já me ri… é a mais pura das verdades!
    Hoje há uma geração de "desnorteados", literalmente! Gente desatenta, que não reconhece e nem nota os sinais, que não olha em volta sequer, fixas no seu destino ou nos aparatos que os orientam.
    Não sou famoso pelo meu sentido de orientação, nunca fui… sou até um bocado distraído ao ponto de apertar a mão à mulher de um amigo e dar dois beijos a ele! Entre muitas outras… aliás fonte de troça familiar e para regabofe da minha sobrinhada em geral.
    No entanto, aprendi a defender-me… a "tirar marcas" para ser capaz de voltar anos a fio àquela pedra quente de robalos (temos muitos de nós um livro de marcas), ou de ir fixando pormenores como árvores e acidentes do terreno, quando ando pelo campo em lugar que não conheço! Decoro o caminho do carro até à porta do Colombo, até escrevo -2 J23 no talão do estacionamento se for caso disso… quando vou a algum lado vou sempre a observar, a tirar marcas, sobretudo se na cidade onde me perco mais facilmente como qualquer comum mortal. Podemos ser distraídos, mas não alheados e nem desatentos.
    Ontem fui desatento, por uns momentos, fui onde não devia a hora imprópria porque pressionado para resolver um assunto, paguei por isso… como posso pagar sempre que entre na água ou no mato, que vá para o campo. Cheguei aos 64... vamos ver se com a idade não me torno desatento e ainda acabo mal, porque também já não tenho assim tanto futuro, eheheh!

    Votos de Extraordinário Fim-Semana, atentos e vigilantes!

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    1. Abraço, António. Folgo em ver que não lhe roubaram a verve, a assertividade, o sentido de humor, a vontade de enfrentar a vida com a coragem que por vezes tanta falta faz ao colectivo Português.

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  4. "Uma cultura, no sentido exacto da palavra, é aquela em que o reduzido número de reais transmissores e receptores da arte e do intelecto é colocado numa posição de destaque e em que lhes são facultados os meios para que estendam o mais possível da sua obsessão com a transcendência à generalidade da comunidade. Divorciar as fontes da civilização de um conceito de minoria ou é auto-ilusão ou é mentira estéril."

    George Steiner, in "Paixão Intacta"

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  5. Que falta de fé nos coevos, Maria do Rosário.
    Haver, há! É preciso é encontrá-los no meio do ruído e saber valorizar mais as rugas.
    Entretanto vão ao YouTube procurar o vídeo do encontro entre Steiner e Lobo Antunes. Uma dialéctica feita de olhares e diálogos cúmplices de quem sabe que a Vida só se esgota na indiferença do conhecimento.
    Grande Steiner, grande Lobo Antunes. Mesmo que alguns dos meus alunos mais "seniores" digam que já não o conseguem ler, atrasados que ficaram pela velocidade e sapiência do Mestre. Para saber ler é preciso saber estudar e actualizar.

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    1. Pode, pura e simplesmente, não se gostar de ler o ALA, tout court.

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    2. não tenho presente a entrevista, mas quando a vi e ouvi, pareceu-me que Steiner estava muito à frente de Lobo Antunes.

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    3. Para os que gostam de Steiner há ainda no YouTube uma entrevista com ele num programa que se chamava Do Belo e da Consolação; programa que tem excelentes entrevistas também com outros intelectuais, alguns, entretanto, já desaparecidos.
      Bfs

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    4. Obrigada Teresa pela partilha do programa «Do Belo e Consolação» no YouTube, que desconhecia. Já vi o do George Steiner (que maravilha de pensador) e vou ver outros que me interessaram.

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  6. Tive o privilégio de assistir, em 2002 na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, à conferência que George Steiner deu sobre a literatura portuguesa...

    https://www.publico.pt/2002/06/06/jornal/eu-teria-dado-o-nobel-tambem-a-lobo-antunes-171339

    ... E em que estiveram também presentes grandes nomes da nossa cultura, alguns entretanto, e infelizmente, já desaparecidos. E consegui que ele assinasse (não foi propriamente um autógrafo) o meu exemplar de «No Castelo do Barba Azul».

    No ano anterior cruzei-me com outro grande intelectual, também recentemente falecido (em Outubro de 2019): Harold Bloom...

    https://www.publico.pt/2019/10/15/culturaipsilon/entrevista/so-falta-comecarem-partirme-vidros-janelas-1890032

    ... E então ele autografou os meus exemplares de «O Cânone Ocidental» e de «Como Ler e Porquê».

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  7. Muito triste perder um amigo assim. Recordo de imediato o seu texto luminoso sobre a Europa e os seus cafés, tão essenciais na coesão social e na difusão da cultura europeia através das fronteiras nacionais. Sem cafés nunca teria sido criada a Comunidade Europeia. Os livros dele continuam aí, os cafés nem tanto.

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    1. Aplaudo!
      Devo muito a "cafés" … sobretudo ao Picadilly em Paço d'Arcos…
      Abraço, Artur.

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  8. Penso que não perdemos Steiner, afinal, a maioria de nós tem dele o que sempre teve, os livros, as entrevistas, os artigos, a sabedoria da análise. É pena é não o termos a pensar o presente e o futuro, mas com a idade que tinha, será que continuaria a elucidar-nos, a brevidade da vida não perdoa e destrói mesmo. E, quem sabe, há outros génios cultos que surgem e se dedicam a pensar os homens e a sua circunstância. Porque, como diz a canção, "todo o mundo é composto de mudança", acredito que continua a existir essa dita minoria culta. Há-de haver. Tem de haver.

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  9. Ficam-nos os excelentes livros que escreveu para nós.

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