Crónica e Cervantes
Hoje é dia de crónica e ela aqui vai:
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/08-fev-2020/picasso-e-outros-prodigios-11798453.html
Como ainda estou com o trabalho muito atrasado devido à ausência nas Correntes d'Escritas, junto para se entreterem uma frase maravilhosa de Cervantes que, aliás, deixo em castelhano, pois creio que todos compreendem. Bom fim-de-semana.
«El poeta puede contar o cantar las cosas, no como fueron,
Sino como debían ser;
Y el historiador las ha de escribir no como debían ser,
Sino como fueron;
Sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna».
Não está bem em castelhano... Talvez um pouco em portunhol (principalmente o fueram...)
ResponderEliminarFUERON
DEBÍAN
ESCRIBIR NO [sem vírgula] como DEBÍAN ser
E ainda havia mais um erro, que também corrigi. Não sei onde tinha a cabeça... Obrigada.
EliminarEnfim, tirando as minudências apontadas, o que importa é mesmo o conteúdo:
ResponderEliminarO poeta pode "poetar" e o pintor "pintar", no sentido de embelezar o que vê, e a ambos isso é tão legítimo, compreensível e aceitável como ao caçador mentir, desde que a mentira seja puramente cinegética...idem para a mentira do pescador que deve ser haliêutica! Ao historiador não pode ser admitido e nem sequer desculpado… infelizmente a maioria dos historiadores em exercício junto do público são politicamente comprometidos com o malfadado correcto ou o partidário, logo indignos daquilo que é a postura do historiador, isento, pragmático e objectivo!
Devo dizer que estou de mal com a maioria dos historiadores, por causa disso! Tenho alguns amigos que o são e pura e simplesmente lhes digo que não falo de história com eles, à esquerda e à direita, pois só vêem as coisas de acordo com o que pensam ou professam, o que não se admite. A culpa nem será toda deles e sim dos mestres que tiveram, todos eles enfermando do mesmo defeito, que julgo se eternizará nas nossas academias, onde aliás só se repete, não se cria ciência, pensamento, saber. Quem lá está cultiva a sua postura de suma sapiência e impede os novo de questionarem, de os pôr em causa e assim evoluir.
Posso estar enganado, mas é o que penso… aliás fui assim que fui preparado também, só que abri asas e voei.
Quanto ao Picasso, também acredito que assim seja e o Mestre sabia do que falava, olá se sabia…
Li em tempos uma historieta nas Selecções do Readers Digest, em que Charles Chaplin (ou Groucho Marx?) almoçava com Picasso e em meio do entusiasmo da conversa o pintor terá salpicado com molho a roupa do humorista. Chamou o criado para trazer algo que limpasse e o outro retrucou: Nada disso! Assine a minha camisa!
Entre génios é assim!
Votos de Extraordinário Fim de Semana, Marcista (de Março!) com tempo a levantar!
Ó Paxeco, também a propósito do Picasso, li aqui há tempos:
Eliminar-Um dia Picasso estava sentado no Aeroporto à espera de um voo e acercou-se dele uma senhora de meia idade que, depois de lhe perguntar: -O Sr. é mesmo o Picasso, não é? Ia-lhe pedir que me desenhasse o retrato enquanto esperavam. Picasso rabiscou meia dúzia de traços num bloco, cortou a folha e estendeu-a à Sra., dizendo "são 160 mil pesetas", a Sra. escandalizou-se -"160 mil pesetas? Mas o Sr. levou 5 minutos a fazer isto! Picasso imperturbável, retorquiu; "engana-se, para fazer isto levei 80 anos"
Como sou, na poesia, mais pateta do que poeta, a maior parte do género de escárnio e maldizer, para mim é:
ResponderEliminarEl poeta conta las cosas, no como debían ser
Sino como fueron
Alguns historiadores - como bem diz o Pacheco - apontam a sua História pela sua cor (logo, são cronistas ao serviço) e podem ser-lhes assacada a frase de Cervantes deturpada:
Y el historiador las escribe, no como fueron,
Sino como debían ser.
Pablo Picasso aprendeu que o desenho está na cabeça e não nas mãos; estando na cabeça, esta o avisou, a determinado passo, que não ganharia a vida a desenhar pombas, mas traços nada identificáveis que alguém dissesse que eram pombas.
Na escrita algo se tentou comparável ao que Picasso fez, com assinalável êxito, na pintura. Parece-me que a coisa ainda não esmoreceu, embora eu não ache que pegue, uma vez que o desenho precedeu a escrita (e está na origem desta) e permite mais leituras. Se fosse possível dar tela, cavalete e tintas a um homem das cavernas, a obra faria furor na Sotheby's, no MoMA ou na Banksy's.
Bom fim de semana para todos os poetas, pintores e historiadores independentes