Palavras mágicas

Já aqui disse váras vezes que existem algumas palavras que, num título, são meio caminho andado para o sucesso do livro. A palavra «F*», como regra geral aparece, é uma delas, mas em Portugal «Salazar» também é quase garantia de êxito de vendas (Freud explicaria). Nos últimos anos, tudo o que inclua «Auschwitz» no título também costuma fazer as vendas disparar, e até se multiplicaram os romances traduzidos sobre o período da Segunda Guerra Mundial que, há trinta anos, quando eu comecei na edição, eram um fiasco (até se dizia que era por não termos entrado na guerra). Bem, mas esta questão de Auschwitz não é só portuguesa, e houve até um escritor que se queixou da profusão de livros com a palavra no título, até porque escreveu sobre os campos sem ter de a usar. Trata-se do autor de O Rapaz do Pijama às Riscas, o irlandês John Boyne, que, talvez por achar a concorrência desleal, desabafou sobre o facto no Twitter para receber, consternado, uma resposta do Museu de Auschwitz dizendo que o seu romance estava cheio de imprecisões e que, por isso, o iriam tirar da loja do museu. Ui, estes polacos não são para brincadeiras. E agora, senhor Boyne, que palavra mágica para lhes responder?

Comentários

  1. Eu não sei se o livro está cheio de imprecisões (afinal não é um romance histórico), mas sei que li o livro e vi o filme e que ambos me comoveram até às lágrimas.
    E acho que o John Boyne escreve muito bem.
    E também acho que os polacos não são detentores da verdade, nem querem admitir certas coisas... e vou ficar por aqui.
    Li muito (tudo o que havia) sobre o Holocausto; agora recuso-me a comprar livros com o nome de campos de extermínio no título.

    Bom dia!

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    1. Se não é um romance histórico e vive da descrição de factos que nunca poderiam ocorrer num campo de extermínio, não lhe parece que ficaria melhor nas prateleiras de um supermercado do que na livraria de um museu? Ou tudo serve para ganhar mais uns trocos?

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    2. Confesso que não compreendo a sua indignação. Eu não disse onde o livro deveria ou não ser vendido, apenas disse que o li e que me comoveu bastante.

      Por acaso também li o seu e gostei; sei que esteve lá, vi a reportagem na tv e até guardei as páginas da entrevista no ípsilon dentro do livro.
      Nem sei quantos livros li na minha juventude (e posteriormente também) sobre o Holocausto, muitos deles escritos por sobreviventes e a minha opinião está formada: tenho a maior admiração pelo povo judeu, mas não quero ler mais nada acerca do tema.

      Boa tarde.

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  2. Só li o livro e é muito comovente. A amizade entre duas crianças, judia e ariana, separadas pela rede do campo de concentração: que ideia magnífica ! que final atroz !

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  3. Gostei desta alusão à "palavra mágica"... nunca tinha pensado nisso no que se refere a títulos "atrativos" nos livros.

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  4. Ainda ontem numa bancada de livros de um hipermercado (nunca me aproximo muito porque me desagradam as capas e os títulos) havia três que incluíam Auschwitz no título.

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    1. Pois, mas esses livros também estão nos escaparates das livrarias...

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  5. Será correcto dizer-se que um livro de ficção tem imprecisões?
    Mas tenha ou não imprecisões "O rapaz do pijama às riscas" é um belo e comovedor livro e uma grande lição de vida.

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  6. O melhor livro que li sobre o tema foi "TREBLINKA" de Jean François Steiner (e quase que poderei garantir sem imprecisões).

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  7. E o mais triste (se isso fôr possível) foi "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS" de Adolfo Garcia Ortega.
    Já fui um leitor compulsivo sobre o tema.

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  8. António Luiz Pacheco16 de janeiro de 2020 às 07:49

    AHAHAHAH!
    Boa dica! Vou escrever um romance de sucesso, já tenho o título:
    - " Não f*** ram o Salazar em Aushitz" …
    Agora vou ver se desenvolvo o tema… mas o título já está assegurado!
    Que me dizem?

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    1. Só vende sem os asteriscos e com o que eles representam. Com esses, fica nas prateleiras. É um conselho...

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    2. Volto aqui. estou a exagerar: ontem foram oito entradas, hoje já vão três... Desculpe lá, Rosário.
      Ainda a propósito do título do livro, ó Pacheco, o certo é que o palavrão na capa, vende que se farta. É claro que não pode ter asteriscos e sim a palavrinha corrida, tal qual se pronuncia na roda de amigos e inimigos e nas costas dos políticos. Eu não a reproduzo por extenso, por não ser necessário e estar subentendida no seu título, até porque assim me livro de uns repelões que o Seve teve aqui há tempos quando puxou do dicionário do calão. Livra!
      Devemos pensar uma coisa. O palavrão é superior hierárquico da palavra, assim se encontra beneficiado pelo superlativo, e só se evita pelo politicamente circunspecto.

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  9. Não venho aqui para criticar o museu, mas acho que se queriam desaconselhar a leitura do livro, não havia necessidade de o retirar das prateleiras, para mais com uma desculpa esfarrapada como é aquela da perplexidade de o garoto não saber por que razão o rapaz judeu estava li detido, quando tudo o que era alemão conhecia essa trapalhada hitleriana.
    Neste museu deve estar um supra-sumo de sabedoria, mormente da saloia, porque também achou imprecisões em ‘O Tatuador de Auschwitz’ e não me parece que o tenha posto com o dono.
    Tenho ainda de esclarecer uma coisa: um livro sobre história deve seguir, tanto quanto possível, os factos históricos, baseado em documentos ou bibliografia firme. Um romance histórico, se bem que moldado nesse esquema, não tem de seguir à risca os mesmos ditames, ou não será um romance. Erros de pormenor há-os aí aos pontapés pelas páginas da literatura.
    Li há tempos uma obra (que não cito, mas que pertence ao grupo da casa da nossa anfitriã) que colocou a descrição de um pelourinho do séc. XVI (de gaiola e colunelos, não é picota), numa descrição animada do séc. XIII! E que mais faz?! É um lapso que não quebra osso, mas que o autor, que não será historiador, deixou escapar, uma vez que esse pelourinho existe e encontra-se no sítio indicado, erecto como um fuso.
    Há romances que misturam propositadamente épocas e personalidades, pelo que não são propriamente recomendáveis para lições de História, mas devemos ter em atenção que a própria História, em parte, também está muito romanceada.
    Quanto à venda do livro no museu, nada a opor, porquanto também não seria de estranhar se estivesse a vender num tasco de Birkenau, aliás Brzezinka, ou até numa cabana de comes e bebes na Papuásia.
    Tenho livros meus à venda numa casa de produtos de turismo regional, e as vendas triplicam e quadruplicam as das livrarias. O resto, é conversa....

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  10. Na verdade não tenho a Polónia e menos ainda os polacos em boa conta. Portanto, é bem provável que isso se reflicta no comentário. Não acredito que alguém vá a Auschwitz e esqueça o que viu, a mim agoniou-me no sentido mais literal, adoeci positivamente. Mas, se o livro inspirou o filme - não o li - não será um mau livro. Gostei imenso do filme, mas também tenho a certeza que não quero vê-lo de novo.

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  11. Pela altura do Natal, procurando por livros para oferecer, reparei nisso mesmo - nas palavrinhas mágicas, ou antes nas asneiras que dizemos aos filhos serem tão feias! E agora vemos lado a lado títulos de livros com a magia do F*, M* e outras que tais! Leva-me a pensar que só se edita o que se vende, de facto! É isto que os leitores querem ler? Ou antes, há necessidade dos títulos, para serem apelativos, serem deste teor?
    Conheço quem tenha lido um desses livros, tipo orientação ou auto-ajuda com a asneira F* e confessou que o comprou por curiosidade (pelo título principalmente) e o seu conteúdo ficava muito aquém do que se pretende numa obra destas! Gostos...
    Bjs

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  12. Não podemos falar dos polacos generalizando. Conheço alguns polacos que gostariam que Auschwitz não tivesse sido um campo de morte e que abominam Hitler e tudo o que arrastou com ele.
    A Literatura é outra história.
    Dizer que é a primeira vez que escrevo aqui mas que gosto muito de os ler, a todos, sem exceção.🌻

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  13. O museu de Auschwitz tem feito "verificação de factos" de romances passados no campo, em especial os que são baseados em histórias reais. Não foram mansos com "O tatuador de Auschwitz", por exemplo: sete páginas de correcções. Por muito que compreenda as imprecisões - memórias já adulteradas, o ser um romance, etc... - se a informação está disponível, há a obrigação de não induzir os leitores em erro.
    Confesso que a proliferação de títulos " O (qualquer coisa) de Auschwitz me causa algum incómodo...

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