Livros em mãos inesperadas
Aqui há tempos fez furor a fotografia de um futebolista português lendo, no intervalo dos treinos, um romance de José Saramago. Devia ser normal, claro, uma pessoa gostar de ler, independentemente da sua profissão; mas infelizmente é muito raro encontrar-se alguém ligado ao futebol que aproveite as horas livres para pegar num livro – e daí que a fotografia tenha dado origem a notícias e referências em jornais, blogues e, claro, nas redes sociais. História parecida passou-se agora com outra classe de profissionais que, pelos vistos, não serão muito dados à leitura: os modelos… Há, porém, excepções – e a filha de Cindy Crawford, Kaia de seu nome, apareceu fotografada em muitas revistas com um romance debaixo do braço de que, por estes dias, diz que não se tem conseguido separar. Trata-se de As Travessuras de Uma Menina Má, do nobelizado peruano Mario Vargas Llosa. Mas não é a única manequim que lê: duas outras colegas na arte de passar modelos, as manas Bella e Gigi Hadid (que devem ter uns ricos pais, ainda bem), também andam a ler, respectivamente, obras de Stephen King e Albert Camus. Nem tudo está perdido.
A questão é: andam mesmo a ler ou só posaram para a fotografia?
ResponderEliminarRecordo a célebre fotografia da Marilyn a ler o Ulisses... nunca me convenceu. Não que a considerasse uma loira burra (até porque era morena) mas, caramba, logo um livro tão difícil, que quase ninguém leu, embora todos digam que sim...
Boas leituras e boas fotos!
Eu por acaso li a versão brasileira, gostei do monólogo da Molly, salvo erro, mas quando peguei na tradução portuguesa desisti ás primeiras páginas. Achei intragável a deambulação do sr .Bloom por Dublin durante um dia. Eu não aguentei nem uma hora.
EliminarEu nunca o li, nem sequer a primeira página, embora tenha lido outros livros do Joyce. Deixei para mais tarde, pensava que iria ter uma reforma tranquila, o que não está a acontecer.
EliminarSei a história (quem não sabe?) mas não me apetece comprá-lo, tenho outras prioridades.
Talvez um dia o traga da biblioteca, quem sabe?
O prazer pela literatura foi e será sempre um gosto minoritário. Há que aceitá-lo tal como é. Cai onde cai este gosto e não é verdadeiramente previsível quem a ele vai ser sensível. Li há semanas que o Manuel António Pina tinha a fantasia de um dia reunir num jantar as duas ou três centenas de pessoas que em Portugal compram e leem poesia regularmente. "As Travessuras da Menina Má" é um grande livro do Vargas Llosa sobre uma Paris existencialista e promíscua e com uma personagem feminina inesquecível, a sua ascensão e queda como metáfora da sua vida erótica. Ando à espera que apareça a tradução de "Tiempos Recios", o último dos romance de Vargas-Llosa que foi lançado em Espanha no início do outono. Pensei que sairia antes do Natal, mas nada. Estou tentado a não esperar mais e a encomendar a versão original.
ResponderEliminarDo Vargas Lhosa só li Pantaleão e as Visitadoras original e cheio de humor, com algum maravilhoso latino-americano à mistura.
EliminarQue sorte que tem: uma carrada de livros do Vargas Llosa, ainda melhores do que o Pantaleão, à sua espera ! É como eu como Faulkner de que só li "O Som e a Fúria".
Eliminar"O HERÓI DISCRETO" do M.V.Llosa, grande livro!
EliminarEstá anunciado a edição em PT para Maio deste ano.
EliminarMiguel
Eu nem o Som e a Fúria consegui acabar.
EliminarObrigado pela informação ! Assim sendo, espero mais uns poucos meses.
EliminarNão gosto do título deste texto.
ResponderEliminarPorque não existem mãos inesperadas para transportarem livros, nem olhos inesperados para ler as suas palavras.
Até os analfabetos (felizmente uma coisa cada vez mais rara), podem e devem gostar de pegar em livros, sobretudo de tiverem imagens, para puder imaginar o significado das palavras...
A leitura será uma actividade minoritária, e, os livros podem aparecer em mãos inesperadas…
ResponderEliminarSim… se bem que tal possa parecer uma afirmação elitista, quando é realista.
Entendo perfeitamente as diversas vertentes ou abordagens da questão, eu leitor apaixonado, mas assumido e vulgaríssimo barrão.
O que a mim parece, e ainda bem, é que a leitura é escolhida mas não escolhe, são os barrões, futebolistas, modelos e outras gentes incultas quem estende a mão para os livros e nem por isso estes que lhes saltam para a mão.
Levar as pessoas a ler, sejam elas de qual estrato ou profissão calhe serem, é que se torna mais difícil, porque há que lhes criar o interesse pelo livro, pela leitura. Quantos advogados, economistas, médicos, engenheiros, não lêem fora daquilo a que são obrigados?
Creio que a leitura não está necessariamente associada a profissões e sim ao interesse nela, ao entretenimento, ao gosto e ao interesse.
Livros interessantes… bom, isso é que é outra história!
Saudações desta traça dos livros na Cidade Morena!
Ó extraordinário e caro amigo Paxeco, tiraste-me as palavras da boca:
Eliminar-"Quantos advogados, economistas, médicos, engenheiros, não lêem fora daquilo a que são obrigados?"
Basta ver o Joker (RTP1), professores (alguns professores universitários) que não fazem a mínima ideia de qual é o mais populoso país do mundo, licenciados nas mais diversas áreas que nunca ouviram falar no mais famoso livro do Ray Bradbury (muito menos do autor) e coisas que me põem a pensar...
É a realidade de hoje, de ontem e de amanhã!
E aquela totó que nunca ouvira falar que "ir ao baeta" era ir ao barbeiro? pensava ela que era ir tomar ar. Santa ignorância.
EliminarFico sempre surpreendida quando vejo jovens com um livro debaixo dos braços e raro, mesmo raro encontrar alguém com um livro numa esplanada, café , parque ou jardim público; mas nem tudo está perdido realmente....
ResponderEliminarE então no Metro é raro encontrar uma pessoa com um livro e a ler, quando aparece uma tenho vontade de a interpelar e dar os parabéns. É tão raro. As novas tecnologias relegaram os livros para os baús do esquecimento.
EliminarÉ de facto prática muito rara entre os tugas. Nós fomos ainda há pouco tempo um país com uma percentagem esmagadora de analfabetismo. Hoje temos o analfabetismo funcional.
EliminarOs estrangeiros (dos países mais desenvolvidos) ainda vão lendo alguma coisita. É vê-los nos espaços públicos. O contraste é flagrante.
Alguma coisita, porque quando os vejo a ler (os estrangeiros, na generaludade) são daqueles livros de usar e deitar fora...daqueles que não se usam marcadores mas sim dobrados nas paragens de leitura.
EliminarPortanto, nós, portugueses, não estaremos muito atrás da estrangeirada, é ela por ela...
Ora ainda bem. Haja quem lê. Sejam modelos ou futebolistas, que leiam. Mas se forem só esses três ou quatro...mal vai o mundo. Espero que haja muitos mais.
ResponderEliminarCom alguma frequência costumo ir a um espaço comercial (ao ar livre) onde as pessoas compram o que precisam mas compram muito mais o que não precisam, completamente "drogadas" com a febre das compras.
ResponderEliminarEu, qual "marciano", sento-me numa esplanada e serei certamente a única pessoa que ali aproveita o sol e o espaço para ler (um livro anda sempre comigo); nunca ali vi alguém a ler, nem um jornal, quanto muito, autómatos a olhar para o telemovel.
Quanto aos futebolistas lerem? Uma utopia, em 100.000 um poderá ler (penso que não exagero); já repararam no paupérrimo vocabulário dos futebolistas, a generalidade só sabe dizer "é preciso levantar a cabeça".
Para além daquele jogador do SPORTING CLUBE DE PORTUGAL, vi o Tarantini (do Rio Ave) a ler "O cemitério de Praga do Eco), mas creio que será uma excepção.
Exageras um bocado, Severino.
EliminarAntes da era dos telemóveis, havia vários jogadores que levavam livros para os estágios (alguns são hoje treinadores...).
A ideia de que só pensavam com os pés, é um "mito". E poderá estar ligada aos futebolistas semi-analfabetos (e eram muitos, sobretudo os que vinham das ex-colónias, pelas razões que todos conhecemos, havia um ensino para brancos e outros para os outros...).
Hoje é normal que existam menos leitores no mundo do futebol e da moda, mas isso também se passa nas nossas casas, os nossos filhos (a minha filha era uma boa leitora de livros até ao sétimo, agora no décimo "lê" sobretudo no telemóvel...).
Mas não há nada a fazer, quanto a isso... Eu pelo menos não tenho grandes ilusões.
O mundo deles é diferente do nosso.
A propósito de futebolistas leitores, não resisto a citar uma pequena história narrada pelo Enrique Vila-Matas (para mim, o mais criativo dos ficcionistas espanhóis). O Vila-Matas é adepto ferrenho do Barcelona, cidade onde vive. Quando o Luís Figo jogou no Barça, o Vila-Matas criou amizade com ele. Um dia teve a coragem de perguntar ao Figo "o que achas dos meus livros?". "São os melhores" respondeu-lhe Figo. "Porquê" retorquiu Vila-Matas. "Porque és meu amigo !" concluiu Figo.
EliminarTambém é preciso atentar no que disse, a propósito dos futebolistas, o grande pensador e treinador de futebol (falava do que sabia) José Maria Pedroto: "os futebolistas pensam com os pés".
ResponderEliminarÀs vezes também dão umas cabeçadas e lá metem um golito. Na verdade as suas performances dependem mais dos pés do que da cabeça, têm os agentes para lhes tratar das papeladas.
EliminarAconteceu João Pinto, antigo futebolista do Porto ter afirmado que lia e que o fazia habitualmente. Tendo respondido afirmativamente sobre se andava a ler algum livro naquele momento, à pergunta de qual, respondeu que não se lembrava do autor nem do título.
ResponderEliminarMas é autor de uma frase que integrou o Português que se fala. À pergunta que resultado previa para o jogo que se aproximava respondeu: "Prognóstico só no fim do jogo".
O futebolista em questão é o Francisco Geraldes e, recentemente, tive oportunidade de ouvir uma entrevista que lhe foi feita no âmbito do programa de rádio (também disponível em podcast) “Ponto Final, Parágrafo”. Nessa entrevista, ele referiu (e muito bem) o facto de a leitura não ser consentânea com o imediatismo que se pretende nos tempos atuais. Lê-se 20 páginas e, no imediato, não dá para se exibir nada.
ResponderEliminarAconselho que ouçam. Mais não seja para quebrar preconceitos.
https://www.comunidadeculturaearte.com/entrevista-francisco-geraldes-perdeu-se-um-bocado-o-habito-da-leitura-estamos-numa-bolha-de-consumo-rapido/
Acrescento que há uns tempos levei o carro à inspeção e o técnico que me inspecionou o carro interessou-se pelo livro que tinha pousado no banco do carro. A partir daí, enquanto o carro ia sendo vistoriado, gerou-se uma agradável conversa sobre livros, revelando-se o Senhor um ávido leitor, com especial conhecimento e preferência pelas obras publicadas pela editora Antígona.
Por outro lado, trabalho rodeada de licenciados na área de Humanidades e alguns acham normal e até incentivam os filhos a só lerem os resumos das obras literárias que fazem parte do programa escolar de Português, pois “não há pachorra para ler aquelas obras chatíssimas”.
Partilho as reflexões do escritor Gonçalo M. Tavares sobre a atual dificuldade de nos dedicarmos a atividades como a leitura: “hoje, escrever ou ler é quase um luxo. É ficar só, sem ninguém à volta, sem estar ligado à internet (…) são quase processos de resistência, revolucionários. Não estar ligado à internet, estar sozinho, implica ultrapassar uma quantidade de obstáculos (…) é um processo de abdicação. O contacto com a internet é o mais fácil.”
Fica a esperança, pois ontem fui ao Jardim da Estrela e encontrei vários jovens a desfrutar desse luxo. Um jovem casal, em que só ela lia (Rupi Kaur), com a cabeça no colo dele e os pés em cima do respaldo do banco de jardim (irresistível de fotografar); um jovem a ler em pé, ainda que virado de frente para um banco jardim vazio; e uma jovem de aspecto seráfico a ler um livro de aspecto antigo.