Escolhas

Não sei se sabem, mas a FLIP, celebérrima festa literária brasileira anual, não tem sempre o mesmo curador (no passado, estiveram nesse lugar pessoas como Paulo Werneck, que é um dos actuais jurados do Prémio LeYa, e Josélia Aguiar, autora da biografia de Jorge Amado). Ora, a curadora deste ano, Fernanda Diamant, ao anunciar o autor homenageado (a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil), não sabia que estava a largar uma autêntica bomba. É que  Bishop não só não é uma autora nacional, como têm sido, creio, todos os escolhidos pelos curadores anteriores (e, segundo alguns intelectuais brasileiros, o Brasil está a precisar como nunca de se afirmar culturalmente por causa do governo ignorante e anti-cultura que tem), mas também é uma mulher que escreveu coisas muito desagradáveis sobre o país-irmão do "alto do seu horror às massas", como diz Alexandra Lucas Coelho num artigo do Público, e além disso aplaudiu o golpe militar de 1964. Todos pedem, claro, que não se deixe de ler a poesia de Bishop, que encontrou no Brasil a paixão da sua vida (a arquitecta Lota de Macedo Soares) e viveu ali uma relação certamente difícil nos anos 1950; mas ficam sentidos por, com tanta literatura brasileira no cânone, Diamant ter ido buscar um nome tão polémico. Mesmo entendendo que pensou mais no lado lésbico e feminista de Bishop, que é sempre um tema muito caro no Brasil, podia ter pensado duas vezes.

Comentários

  1. "Do alto do seu horror às massas". Desse mal também eu padeço. Ao fim e ao cabo, considero-me uma pessoa de bom gosto.

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  2. Bom dia com alegria

    Viva o politicamente correcto

    Boas leituras
    cp


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  3. Apesar de Elizabeth Bishop estar longe de ser uma escritora que eu admire, as traduções dela de autores como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, entre outros, ajudaram a projectar a literatura brasileira na língua inglesa (e, por conseguinte, em quase todo o mundo). Por isso, até acho que faz sentido a homenagem que a FLIP lhe pretende fazer, independentemente das suas opiniões políticas ou do seu "horror às massas".

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  4. Faz-se prático ou “apreciável” por honra ou não, a flip o invoca. E. Bishop, vale lembrar ser expressão Plutizer no Brasil (de causas) cativa anseios às letras.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  5. Diga-se o que se disser, na minha opinião há uma nota positiva, que convém realçar: pelo menos, atribuíram o prémio!

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    Respostas
    1. Quando escrevi prémio, devia tê-lo feito entre comas, uma vez que a homenagem pode ter esse significado.
      Devo acrescentar, aproveitando a adenda, para dizer que me parece que estas organizações - assim como as editoras - fazem estas "picardias" para causarem polémica ou notoriedade, uma vez que isto se transforma em publicidade. Logo, a Casa Azul de Paraty não foi excepção e deixou em comunicado a hipótese de rever a decisão, o que não sei se veio a acontecer (o que seria pior a emendo que o soneto). De facto, Bishop, não era brasileira, e nunca escreveu uma linha sequer em língua portuguesa (com ou sem acordo (h)ortográfico.
      E já agora - que não há duas sem três - o comunicado do Livre sobre o caso Joacine tem um clamoroso "Heis-nos" em vez de "Eis-nos" na frase da moção "Heis-nos chegados a um ponto em que as causas defendidas". Se não foram buscar o H ao meu (H)ortográfico, a forma "heis", é é antiga como a Sé de Braga, pertença do verbo haver na segunda pessoa do plural do presente do indicativo, que evoluiu para haveis.
      Finalmente rejubilo com a cura da Rosário, desejando que outra moléstia não venha...

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    2. HEIS-NOS
      Uma tristeza tal e qual como a arrogante personagem de um filme que é mesmo real.

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