Crónica e mais centenários

Voltando ao que é uso e costume, aqui vai a crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-nov-2019/plastificados-11462717.html


Este tem sido o ano de todos os centenários e de todas as festas, mas preparem-se porque para o ano há mais. Antes de todos, Amália Rodrigues, que nasceu em 1920 (embora a data seja incerta e ela festejasse em dois dias diferentes, sem saber qual o verdadeiro); mas também o dramaturgo Bernardo Santareno, que foi igualmente médico e que será objecto de uma grande exposição da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Autores. Não se esqueçam que Amália, além de fadista, foi autora de imensas letras de fado, entre as quais a do conhecidíssimo Estranha Forma de Vida, letras essas que estão reunidas numa colectânea publicada pela Cotovia. Leiam-nas!

Comentários

  1. Crónica assustadora, como poderemos avançar, se as parvoíces continuam a vigorar?

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    1. Tem razão, é assustador.
      Acho que já não há volta a dar, há muito tempo que estamos a ser destruídos pelo pretenso progresso e pela ganância do lucro.
      Será que ainda comemos alguma coisa realmente saudável, genuína, natural?
      Penso que não.
      Entretanto, enquanto por aqui andamos, vamos aproveitar o fim de semana :)

      Maria

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  2. Felizmente que o muro de plástico é plástico, não nos tolhe a liberdade. Podemos derrubá-lo à vontade, espalhá-lo pelas lixeiras, pelos centros de recolha de resíduos, pelas unidades de incineração, pelas clareiras ao lado dos estradões que penetram as florestas e, enfim, por esses mares infinitos.

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  3. O homem vive numa eterna contradição… entre aquilo que deseja e aquilo que precisa.
    Sei o que digo, pois boa parte do meu trabalho reside justamente em descobrir aquilo que precisam e não aquilo que querem, e, a maior dificuldade reside precisamente em explicar e convencer disso quem quer sempre mais ou aquilo de que não precisa…

    Uma vez, vi duas flausinas (creio que mãe e filha) com o carrinho de supermercado atulhado de produtos alimentares de que ressaltavam guloseimas, bolos, bolachas e caixas de chocolates, mas que pegando num simples molho de grelos exclamaram: ai! 200 escudos? Não se pode…
    Não disse nada, mas a vontade de lhes dar uns tabefes foi grande, confesso!
    Que a Nestlé, a Lindt, a Cadbury e a Matutano ou a Jacobs se aforrem, não causa qualquer impressão, mas que o Horácio, a D. Marcolina, a ti Delfina e o ti Artur, o Estêvão Luiz Salvador, ganhem dinheiro com as suas hortas, parece que é um escândalo.
    E continua a ser assim… atacam-se e criticam-se os agricultores, mas exige-se comida boa e barata, para haver dinheiro para gastar no resto: comprar roupas de marca, telefones-espertos, ir de férias, ir aos cinemas, andar pelo centros comerciais e encher os carrinhos de supermercado de tudo o emai alguma coisa, mesmo que não faça falta … mas é na comida que se poupa e que pressiona para produzir muito, bom e barato, de forma ecológica e amiga do ambiente que os agricultores andam a exaurir e a destruir, que no resto é para gastar à vontade, venha de onde vier, seja lá produzido como seja!

    Adeus futuro… completamente!

    Bom fim-de-semana cá de uma terra atrasada, onde o dinheiro para a comida é tão escasso que nem se imagina!

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  4. Ao ler a sua crónica não pude deixar de pensar em como o homem é um animal que ameaça a sua própria espécie.
    Razão tinha já Thomas Hobbes (1588-1679), autor do clássico Leviatã e responsável por divulgar a célebre frase "O homem é o lobo do homem".

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  5. «o que mais o impressionava era a mudança radical de cores de uma Alemanha para a outra, como se viajasse da tristeza para a alegria».

    Estive a primeira vez em Berlim em 1984, tinha eu 19 anos, numa visita de estudo patrocinada pelo Goethe-Institut do Porto, e ainda ninguém imaginava que o Muro pudesse algum dia cair. Estávamos alojados em Berlim Oeste, claro, e reservou-se um dia para visitarmos a parte Leste. Atravessámos um "simples" muro, mas fiquei com a impressão de que tinha viajado milhares de quilómetros, tal era o contraste! Da cor para o cinzentismo, da alegria para a tristeza - foi mesmo assim. Dois mundos totalmente diferentes.

    E ainda hoje, passados trinta anos da reunificação, persistem muitas diferenças entre as duas Alemanhas.

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    1. E nas pessoas Cristina? Ainda nota diferença, percebe-se se é "de Leste"?
      Nos tempos que relata, sim, eu conheci um ou outro de Leste, estudantes mas sempre privilegiados pelo regime, que os deixava sair … Portugal chegou a ser "país de confiança" ali por 76, não sei se se recorda, tive uma amiga que foi estudar para a Alemanha de Leste e com ela vinha algum/a colega… os pais tinham ligações ao PCP como é óbvio. Era gente triste e curiosa, no início arrogante pelo convencimento de uma superioridade que lhes era inculcada, mas rapidamente passavam ao oposto, e percebiam que desconheciam tudo, apesar do nosso também atraso naquela época, mas pelo menos mais livres, para ler, ouvir música e ver cinema ou o que "nos desse na bolha"!
      A juventude actual nem imagina certas coisas… e ainda bem!

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    2. Bem, nós, lá por 76, ainda não tínhamos muita experiência de liberdade. Mas sim, já éramos livres. E o nosso atraso, em relação à RDA, até nem seria muito...

      Bem, as pessoas... isso dá pano para mangas.

      Em 1984, só estive um dia em Berlim Leste, não deu para conhecer verdadeiramente ninguém. As pessoas pareceram-me fechadas e apressadas, era sábado, as lojas e supermercados estavam quase a fechar (ao meio-dia), as prateleiras, fosse do que fosse, já praticamente vazias e pareceu-me que as pessoas andavam apressadas, na esperança de ainda poderem fazer algumas compras. As roupas que vestiam eram antigas e foleiras, as montras das lojas de moda eram uma desgraça, de uma pessoa se perguntar porque é que se davam ao trabalho de ter montras.

      De tarde, fomos a um café lanchar. Houve um jovem alemão que perguntou se podia sentar-se à nossa mesa. Acedemos. Não me pareceu nada arrogante, mas muito interessado em saber de onde éramos e como era o nosso mundo. Disse-nos, baixo e a olhar para todos os lados, como se tivesse medo, que queria passar a fronteira. Deixou-nos o seu contacto, deu uma foto dele a cada um de nós. Quando contámos o episódio aos nossos amigos do Oeste, disseram-nos que talvez não fosse um jovem interessado em sair do Leste, mas sim um agente da STASI (a PIDE daquelas bandas) a tentar saber quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Quem sabe...

      Nos primeiros anos da queda do muro, conheci alguns alemães de Leste, mas, em vez de arrogantes, eles pareciam-me muito interessados em tudo o que fosse do Ocidente, na ânsia de recuperarem o tempo perdido. Assim como gente que vem da província, ansiosa por se tornar gente da cidade.

      Hoje em dia, infelizmente, a extrema-direita e o racismo estão muito presentes nas regiões do Leste, devido aos baixos salários e ao alto desemprego. Depois de trinta anos, esses alemães ainda não atingiram o nível dos salários dos seus compatriotas do Ocidente, apesar de o governo ser o mesmo. Continuam fechados e melancólicos, a rumar para o "nosso" lado, deixando as suas cidades vazias.

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  6. Bom fim de semana

    O plástico também é uma estranha forma de vida.

    Boas leituras
    cp

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