Tarrafal
Conheci o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa em Brasília, no ano de 2010, num encontro sobre o futuro da língua portuguesa; e, na altura, ele confidenciou-me que tinha um romance concluído. Chamava-se O Novíssimo Testamento e foi o primeiro de sua autoria que publiquei na Dom Quixote. Uns anos mais tarde, chegava-me à mão, já com um prémio em cima, Biografia do Língua que, no ano seguinte, arrecadaria também o Prémio do P.E.N. para Narrativa. Estamos a apresentar hoje, na Livraria da Travessa, em Lisboa, às 18h30, o seu terceiro romance na Dom Quixote, O Diabo Foi Meu Padeiro, que fala sobre um assunto que interessará a muitos portugueses: o campo de concentração do Tarrafal. Publicado 45 anos depois do encerramento dessa terrível prisão, este é um romance que evoca todos os prisioneiros que por lá passaram... e também os carrascos, porque é fundamental lembrar para não repetir. A apresentação estará a cargo de João Soares. Apareçam.

É um livro que quero ler, por várias razões (gosto do título e da capa... mas é mais pela curiosidade sobre o lugar e a temática).
ResponderEliminarHá uma parte do texto da Rosário que resume o que é hoje a literatura: "Uns anos mais tarde chegava-ma à mão, já com um prémio em cima, Biografia da Língua, que, no ano seguinte arrecadaria também o prémio PEN, para narrativa".
A literatura hoje é muito isto, prémios, publicidade (mesmo que não passem de livros vulgares...). Os "lobos do lobismo" são terríveis...
Percebo o que diz, claro. Mas, quando o país tem uma percentagem mínima de leitores de literatura, não conseguem sobreviver da escrita e muitas vezes é irresistível concorrer a prémios para inéditos por causa do valor. O públlico também se impressiona mais com um prémio do que com o nome do autor. Temos de nos adaptar.
EliminarTambém percebo as palavras da Rosário.
EliminarTenta-se sobreviver a este tempo estranho... Mas não sei se isso é bom para a literatura.
Então quer dizer que estamos (pre)determinados à injustiça? Creio que devemos antes resistir e "desconfortar" o sistema, para (des)colononizá-lo o mais possível da razão instrumental. As pessoas também compram livros pelos temas banais, a questão é levá-las a comprar um que o "(des)banalize. Também as pessoas compram por força da autoridade de outro escritor: metam escritores frimados, vossos, a recomendar os livros dos novos. Arrisquem em poucos exemplares, podem ser só 10: geralmente um novo escritorsó quer sentir que valeu a pena todo o esforço. Editem menos livros estrangeiros. E o governo que faça qualquer coisas com as editoras independentes, como chiados e afins, que estão a criar uma império à custa do sonho de pessoas. Para mim isso é desumano. É o pior dos tarrafais modernos. É compactuar com um sistema que faz um uso baixo da vida humana. Crie-se regras justas para publicar e deixemos de brincar aos escritores. Estou farto de ver tão bons escritores sem uma vírgula publicada e eles não querem ouvir "adapte-se". É fácil dizer isso quando temos o poder do nosso lado.
EliminarUma editora verdadeira tem por máxima promover inovação e uma cultura superior, tal como a Universidade, nao pode deixar contaminar se pelo sistema assim. Tem obrigação de cumprir com uma papel social. Não, não, adaptar-se nunca.
EliminarJá vi que não me fiz entender: por minha culpa, porque no primeiro comentário deveria ter especificado que são «os autores» que não resistem a concorrer a prémios. Quanto a mim, não publico livros só por terem prémios, pode ficar descansado. A única coisa, portanto, de que pode acusar-me é de os publicitar em cintas e autocolantes, isso, sim, parte do sistema. Mas se servir para que o público os leia, não vejo nada de errado nisso - afinal, são BONS livros, e não só livros premiados. E fico-me por aqui.
EliminarBom dia com alegria
EliminarPenso já aqui ter citado um livro (https://www.versobooks.com/books/149-the-business-of-books) chamado "The Business of Books".
Ele resume um pouco o desencanto de alguém (um editor) que sempre remou contra a maré. Que entendeu o papel de editor como divulgador de novas ideias, não apenas do consagrado, do que tem potencial para vingar no mercado. Que olhava de soslaio para a figura do gestor de produto para o marketing.
Não me compete a mim julgar o papel dos editores.
Penso que todos nós acabamos por dançar conforme a música (leitores e editores)
O problema é que esta música parece importada dos produtos de grande consumo.
Cabe a cada um de nós filtrar a informação que nos chega e fazermos as nossas escolhas, de acordo com os nossos gostos, a nossa liberdade de escolha.
Os encómios, os prémios e tudo mais não me impressionam. Já desconfio, já estou de pé atrás quando os vejo. Vejo detergentes e não livros nos escaparates.
Este livro lava mais branco. Compre já!
Pessoalmente, nunca me vou adaptar.
Boas leituras
cp
Compreendo aquilo que está a ser discutido aqui. Custa-me muito ver editoras de mãos e pernas atadas, cada vez mais. E quantos livros, bons livros, que nunca virão a luz do dia, infelizmente.
EliminarOs prémios valem o que valem. Continuo sem perceber por que razão o júri é quase sempre composto por uma classe de burgueses, basicamente ligados à poesia ou à universidade. Quando não há espírito dialéctico não pode haver uma síntese justa, já dizia Hegel, e com razão, a meu ver. O júri devia ser constituído por pessoas ligadas a diversas áreas da literatura, que é muito vasta, diga-se de passagem. Se pusessem pessoas ligadas a mundos muito diferentes da literatura seria uma decisão justo, porque assim todos seriam obrigados a participar activamente no acordo, partindo de mundos diferentes para alcançar então o consenso. De modo que penso que estes prémios não são anda democráticos, apesar de à primeira vista parecerem. E talvez por isso os contemplados sejam sempre parecidos entre si, em termos gerais. Ah, e também tenho a dizer que os/as editoras deviam rodar de departamento. A rotatividade é importante para ganhar distância em relação ao tipo de obras recebidas, correndo-se depois o risco de seleccionar sempre obras parecidas entre si, já que cada editor/a tem seu próprio sistema de valores estéticos.
EliminarA questão é que um livro excepcional no espírito do nosso tempo, digamos assim, será sempre uma "aberração", e o que vai acontecer é que esse tipo de júri não terá distância para perceber isso, porque baseia-se naquilo que aceitou como sendo o seu valor estético ou experiência estética. Qualquer coisa que rompa isso vai ser sempre uma porcaria. Esquecem-se que o objectivo da arte é superar-se a si mesma.
EliminarAprecio o título. É livro para a minha leitura, logo que possa encetá-la. E ainda julgo que foi engenhosa a forma como o Mário Lúcio deu a volta ao aforismo popular de " se comer o pão que o diabo amassou".
ResponderEliminarConsidero também a proposta feliz da Rosário, quando diz " é fundamental lembrar para não repetir".
Este livro promete, e certamente que o vou ler, assim que possa adquiri-lo, ou seja vai para a lista de compras!
ResponderEliminarMas de certeza que não me escapa!
Os Tarrafais (políticos, não os campos de tamargueiras) não podem repetir-se, como já foi dito, e o repito ainda também eu! Já que os medos estão aí outra vez, como parece, e eu tenho bem mais medo de uma certa pseudo-esquerda e climático-animalistas do que da presumível direita fascista. Já todos mostraram amplamente que são capazes de reerguer os tais Tarrafais, que não campos de tamargueiras!
Permito-me ainda tecer um comentário ao "Pato Preto" (felizmente que alguém opta não pelo anonimato mas por um mais simpático e saudável, até urbano, pseudónimo) e ao nosso cp , para dizer que comungo daquilo que dizem, ambos. Há que entender as coisas como são e não como gostaríamos que fossem ou mesmo como deveriam ser, pois é assim o Mundo em que vivemos, com aquecimento global ou local, com consumismo, com miséria, guerra e fome. Mas também com tanta coisa maravilhosa à nossa disposição!
Saudações optimistas, cá desde a Cidade Morena!
Como diria uma grande amiga minha, se a vida te dá limões, aprende a fazer limonada.
EliminarMas, no meio desta cacofonia que é a edição de livros, em Portugal e não só, dá gosto procurar fruta com outro sabor.
Um grande bem haja, aí para a Cidade Morena
Saudações literárias e de estima intelectual
cp
De certeza absoluta que comeram o pão que o diabo amassou. Hão-de ser histórias difíceis, mas necessárias. Um dia hei-de lê-lo.
ResponderEliminarE que a tarde seja proveitosa.