O que ando a ler
Leio a obra vencedora do Man Booker Prize em 2018 – Milkman, de Anna Burns, nascida em Belfast, onde, de resto, decorre toda a trama do romance que, em certas coisas, me remeteu para Pátria, de Aramburu, talvez por ambos os enredos se desenvolverem no período anterior ao cessar-fogo pelos grupos terroristas (no País Basco e na Irlanda do Norte). A obra de Anna Burns tem como narradora uma rapariga que vive num bairro assinalado como sendo absolutamente anti-governo e onde todos os moradores (mesmo os que não pertencem às «milícias») são vigiados, fotografados, investigados, apanhados, levados para se tornarem informadores dos «do lado de lá»; onde todas as famílias (incluindo a dela) têm medo (até de ir ao hospital) e perderam pessoas que puseram bombas, ou estavam no sítio errado à hora errada, ou andam fugidas, ou foram mandadas embora; onde os heróis podem usar o nome «Milkman» e isso fazer com que o desgraçado do leiteiro a sério (personagem fascinante, aliás) vá parar ao hospital; onde ter dezoito anos e «um namorado mais ou menos» não salva a protagonista de ser coagida a ter sexo numa casa de banho por «um dos seus»; e onde o facto de um dos cabecilhas do bairro a abordar um dia na rua leva toda a gente a dizer que ela perdeu a cabeça e não a livra de sofrer as consequências disso (e são muitas!). A linguagem divertida e inventiva da narradora (que adora ler enquanto caminha) e as travessuras das irmãs mais novas compensam a dureza do ambiente, de uma violência latente, que não nos deixa espaço nem para respirar. Uma história passada nos anos 1970, com a Irlanda do Norte ao rubro. A tradução – e boa – é de Miguel Romeira. O livro é da Porto Editora.
Acabei de ler As Velas Ardem Até ao Fim, de Sandor Marai, Máquinas como Eu de Ian McEwann e A Harpa de Ervas de Truman Capote no âmbito do Clube de Leitura a que pertenço. Li também a excelente biografia de Joselia Aguiar sobre Jorge Amado. Ando a ler Paris Após a Libertação - 1944-1949 de Antony Beevor e Artemis Cooper.
ResponderEliminarLarguei a meio o "Máquinas como Eu" do MacEwan, o que não me costuma acontecer com os romances deste autor. Estou ficar velho. Mas adorei, embora seja um livro difícil, "A Irmã" do Marai, esse génio de "As velas Ardem até ao Fim".
EliminarTambém não gostei do Máquinas Como Eu, não sou fã de ficção científica, achei a história banal de um "ménage à trois com um robot" , não muito original. Gostei de Na Praia de Chesil e do filme .
EliminarAh ! Sim ! "Na Praia de Chesil" é um grande livro e o filme, que passou quase despercebido, tinha grande interpretações, nomeadamente da atriz irlandesa Saoirse Ronan (e o ator que desempenhou o rapaz também não era mau...).
EliminarDe Marai, sempre "as velas ardem ate ao fim", ainda que a "irmã" seja uma obra muitíssimo interessante e indubitavelmente profunda, que curiosamente poucos conhecem
EliminarNão li o livro, mas do filme gostei bastante. Surpreendeu-me pela positiva. Há muita verdade na ficção desse filme.
EliminarO livro é até melhor do que o filme (tempo narrativo é mais lento e minucioso do que o tempo de um filme). É surpreendente como um homem consegue escrever com tanta profundidade sobre a sensibilidade feminina. Parece um livro que só poderia ter sido escrito por uma mulher. Aprendi muito.
EliminarO que eu gosto de livros desses. Até me fazem acreditar um bocadinho que os homens não sejam uma espécie outra apesar de paralela.
EliminarPeguei e li um livro duplamente fora do tempo. Pertence à antiga série "Livros RTP" e foi escrito por José Régio, "O Vestido Cor de Fogo".
ResponderEliminarEsse de que fala a nossa anfitriã está bem dentro do tempo.
Tenho que reler esse romance do Régio. Li-o há uns trinta anos e única coisa que recordo dele é que achei ser um livro fascinante. Mas já não me lembro porquê.
EliminarA acabar " Cisnes Selvagens " para começar o " Outlander "
ResponderEliminarhttps://titicadeia.blogspot.com/
Li, de Jonathan Franzen, o livro de ensaios "O fim do fim da terra" em que a observação de aves, de que o autor é praticante entusiasta, se cruza com preocupações ecológicas. Muito interessante. Encontro-me agora a meio do enooorme "Correcções", do mesmo autor, e a gostar imenso! Pintar os EUA e o Ocidente no estertor da derrocada, é um tema que me diz muito. Há por aí, se dúvidas houvesse, muita gente talentosa (haja em vista a nossa anfitriã) nas mais diversas áreas, a realizar obra de mérito! O mundo, esse, e apesar destes oásis, é que não fica melhor.
ResponderEliminarEntusiasmado com a crítica que saiu no último fim de semana num jornal da nossa praça, também já cá tenho o "Leiteiro" em fila de espera... não sei é quanto tempo terá de esperar. Ando sempre com a matéria atrasada.
Estou a acabar de ler "Uma longa viagem com José Saramago" de João Céu e Silva e é muito interessante; mais uma vez fico com a imagem de um homem íntegro e um bom ser humano (com os seus "humanos" defeitos, evidentemente ), um homem inteligente e um grande, grande escritor que alguns políticos portugueses da altura, tentaram diminuir e vilipendiar, nomeadamente o "analfabeto" 1°Ministro/Presidente da República (Cavaco Silva). Uma vergonha!
ResponderEliminarJá tinha gostado imenso de "Uma longa viagem com António Lobo Antunes". Falta-me agora ler "Uma longa viagem com Miguel Torga".
João Céu e Silva é um bom jornalista e escritor.
Terminei ontem "os prazeres e os dias" de Marcel Proust que comprei em modo piloto na feira do livro do Porto (custava uma ninharia). Trata-se de uma coletânea de pequenos textos, contos e poemas do autor, escritos numa fase ainda precoce, "pré-recherche", e que sem eu contar, elevaram o escritor a um pódio íntimo que cada vez mais considero restrito. Obrigatória a leitura a quem gosta de prosa poética!
ResponderEliminarHoje vou transitar para um registo contemporâneo mais terreno e raw, com as "partículas elementares" do houellebecq, que também adquiri na feira do livro, sem saber bem porquê.
Espero ter feito uma boa compra...
Boas leituras!
As Partículas Elementares, oh, publiquei-o na Temas e Debates numa altura em que ainda o mundo mal conhecia Houellebecq e nao sabia o que se iria tornar.
Eliminar"As partículas elementares" - um dos melhores 50 livros que li até hoje! (há dez/quinze anos).
EliminarAinda em prelúdios e já a adorar!
EliminarMuito mais empolgante do que o "serotonina", último e único livro que li do autor, e que se me revelou um tanto deprimente... Desta vez não me traiu a intuição.
Saudações
Acabei de ler, "O Ruído do Tempo", de Julian Barnes.
ResponderEliminar(todos aqueles que simpatizam com ditaduras deviam ler...)
Grande verdade. De mala pronta à espera de que o venham buscar.
EliminarJá tinha ouvido falar deste livro. Acho que o vou oferecer para depois o pedir emprestado.
ResponderEliminarÉ um dos livros que coloquei na lista logo n aaltura do Man Booker quando li as reviews no Guardian. Haja tempo...
ResponderEliminar