Namora
Este é o ano de todos os aniversários, e é também o centenário de Fernando Namora, o médico-escritor de grande sucesso, autor de livros adaptados à televisão como Retalhos da Vida de Um Médico, condecorado postumamente pelo nosso presidente da República no dia da abertura da Festa do Livro em Setembro passado, escritor cuja obra extensa está de momento a ser republicada pela Editorial Caminho. Ele é objecto de uma exposição patente no Museu do Neo-Realismo, “e não sei se o mundo nasceu” Fernando Namora 100 anos, e nos dias 24 a 26 de Outubro será o tema de um congresso que decorrerá na Faculdade de Letras de Lisboa (24), no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira (25) e, por fim, na Casa-Museu Fernando Namora em Condeixa (26) com vários participantes de muitas áreas. A inscrição é obrigatória. O programa está no link abaixo. Ide ler os seus livros.
Ora bem!
ResponderEliminarAí está uma efeméride que vale a pena.
Fernando Namora é um grande e incontornável nome da nossa literatura contemporânea, um médico com o peso social que tinham na época e com a devida sensibilidade para os casos e os temas sobre os quais escreveu, que eram deveras os retalhos da sua vida.
Se me é permitido, e sem pretensões, julgo que o que faz Grande um Escritor, não é apenas o estilo, a verve ou forma como escreve, mas antes de tudo a sua condição humana, a forma como "vê" e aquilo que "vê" ao seu redor, ou seja tem de ter uma grande sensibilidade e capacidade para interpretar, só depois e tendo ainda essa qualidade de conseguir transmitir pela escrita aquilo a que assiste, temos então Obras Literárias.
Creio não ser por acaso que tantos escritores são ou foram, médicos, jornalistas e professores, talvez porque são actividades que os aproximam das pessoas, pela vertente humana e os sensibilizam para depois contar histórias também de forma humana e sentida.
Pela minha parte, honra a Namora!
Nunca será demais lembrar e celebrar os Autores que escreveram sobre nós, a nossa gente comum, vulgar de todos os dias.
Saudações e celebrações, cá da Cidade Morena!
Dele só li ainda Os Adoradores do Sol, livro de crónicas das suas andanças pelos países nórdicos e se não me engano Rússia. O Luiz Pacheco não tinha lá muito boa impressão do Namora. Seria inveja ou outra coisa? Já cá não está para nos dar a resposta.
ResponderEliminarNa colecção Médicos Escritores que O Público está a publicar às terças feiras saíu na semana passada "A Noite e a Madrugada" do Fernando Namora.
EliminarAinda uma questão: -Será que o Luiz Pacheco teria boa impressão de alguém?
O Luiz Pacheco era um gajo ordinário, mas em relação ao Fernando Namora a coisa pia um pouco mais fininho, Severino. Ele não só acusou, como provou através de exemplos (penso que escreveu mesmo um livrito sobre isso...), que Namora tinha plagiado Vergílio Correia (agora de momento não sei dizer quais as obras em causa, mas isso é público)...
EliminarE não menos importante, o Vergílio Ferreira concordou com o Pacheco...
(devia estar a pensar no Romeu Correia, quando escrevi pela primeira vez o nome de Vergílio Ferreira...)
EliminarSó por uma questão de esclarecimento, Luís, não me parece - a não ser que o tenha feito de viva voz - o Vergílio Ferreira tenha referido ou concordado com o Pacheco no que toca ao eventual plágio por parte de Namora. O Pacheco (não confundir com o nosso Extraordinário António Luís) referiu-se a este pormenor n' "O Caso do Sonâmbulo Chupista", deixando Namora indignado ao ponto de cortar relações com o Vergílio. Para além disso, Namora acabou por não oferecer o livro ao Vergílio, devido à aleivosia, o que deixou este muito triste.
EliminarLeia-se o que escreveu Vergílio Ferreira sobre o episódio:
"O Namora publicou um livro novo. Não mo mandou. Pela primeira vez em muitos anos. Reflexos da malandrice que lhe pregou o Luiz Pacheco e de que agora me julga responsável…”
E Eduardo Lourenço, por causa da tal acusação, disse que o Pacheco foi infame.
Vergílio Ferreira, que eu admiro como escritor, tinha um feitio beirão especial. Já mo dizia o Danton Nifo, que foi companheiro dele na Universidade e na Tuna Académica. Desacreditava Pessoa, Óscar Lopes, Mário Castrim e até Sophia de Mello Breyner. Mas era muito superior às arruaças escritas do Luiz Pacheco, este que se pelava para arranjar polémicas.
Luís Milheiro
Eliminarregresso para preencher uma lacuna. Os livros em causa são "Domingo à Tarde" (1961) do Namora e "Aparição" do Vergílio publicado dois anos antes. Tenho os dois. Não encontro plágio.
O Pacheco insistiu naquela sua "causa", inicialmente publicada num folheto de 8 páginas, de que imprimiu 5 ou 6 mil exemplares e depois reeditada, posteriormente, pela Contraponto (que até seria dele). Resta acrescentar que ele nem teria os dois livros, porque consta que ele foi para a Biblioteca Nacional comparar ambas as obras.
Como disse Eduardo Lourenço, ele foi infame; eu digo que foi uma pulhice.
Fiquei curioso, e dei uma espreitadela ao gúguel… vi lá qualquer coisa, mas inconclusiva!
EliminarNem percebi lá muito bem a ligação entre ambos, pois embora neo-realistas, parece-me que Fernando Namora se dedicasse mais ao meio rural (mas não só! ) e Romeu Correia fosse antes um escritor de meios mais marginais à sociedade. Talvez pelo percurso de ambos e as sua características pessoais como pela formação que os levaram um à medicina pelo Alentejo (que me parece ter tido grande importância na sua obra) e ao outro pelo desporto, vivendo nos tais meios da margem Sul mais urbanos ou suburbanos.
Vai-me perdoar as asneiras que estarei a dizer, porque de facto o meu "negócio" são mais as couves, as vacas e as sardinhas, pelo que estar armado em literato ou a pretender-me intelectual é de facto ter atrevimento, mas acho que estou no sítio e entre as pessoas certas para ser esclarecido e corrigido, e sou motivado pela minha paixão pela leitura, os livros e claro, os Autores!
Abraço Pachequiano cá da Cidade Morena!
Ah!!!! Boa!!!!
EliminarEstava justamente intrigado pelo alegado plágio!
Obrigado.
Caro Fernando Costa,
Eliminarembora Luiz Pacheco fosse uma pessoa pouco recomendável, nunca foi desmentido em relação ao famoso "plágio".
Em Julho de 1992, na Revista "Kapa" disse:
«Nem me digas isso, pá, o Namora é abaixo de cão, nem é abaixo de Namora, é abaixo de cão, isso eu escrevi! E, aliás, ainda por cima é gatuno, roubou lá umas coisas ao Vergílio Ferreira. Nesse ponto o Vergílio Ferreira tinha uma posição de grande valor intelectual e bagagem ensaística. Agora foi ultrapassado por este, o Saramago, que é muito mais novo. É inteiramente justo.»
Penso que o Pacheco fala da relação que fiz entre os nomes, do Namora, do Romeu e do Vergílio. Foi mesmo só de nomes, porque a escrita dos três é distinta.
EliminarPrincipalmente a de Vergilio, que sempre foi um "lobo solitário", na literatura e na vida. :)
Caro Luís
EliminarEsta troca de informações é importante: estamos a falar de figuras nacionais, controversas ou nem tanto, mas actores no palco da literatura portuguesa.
Apesar de longo - retirado de um blog - aqui vai como a coisa começou, narrada pelo próprio Pacheco, a meu ver com laivos de mercantilismo a aproveitamento para arranjar alguns "carcanhóis".
"E aquela história do Fernando Namora, O Caso do Sonâmbulo Chupista?
Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… e eu estou em Agosto na cervejaria Trindade com o Serafim Ferreira e com o Herberto Helder, que se está a queixar que aquela gaja, a Maria Estela Guedes, tinha feito um livro com textos que tinha roubado, e de repente o Serafim diz: “o pá, isso plágios é o que para aí há mais, eu tenho lá em casa a edição especial da Aparição que me deu o Vergílio Ferreira com coisas anotadas que o Namora lhe roubou...” E eu estou a ouvir aquilo e estou calado. No dia seguinte telefono para a Amadora, onde mora o Serafim, e pergunto: “ouve lá, aquela tua conversa de ontem, aquilo era blague de café ou era a sério?” “Não, tenho cá o exemplar da Aparição. Combinámos então o terrível crime nas escadinhas do duque, em que ao cimo das escadinhas eu digo: “ouve lá, tu vais fazer um panfleto e eu edito-te e vamos ganhar um bocado de massa os dois, estamos em Agosto, agora não se vende nada mas vende-se em Setembro”. E ele disse: “eu não posso fazer” – não perguntei porquê, devia favores ao Vergílio Ferreira ou ao Namora, porque o Serafim é um bocado marçano. E eu disse: “então passa-me para cá isso e faço eu”. Estive semanas ou talvez mais, um mês ou dois, a confrontar na Biblioteca Nacional, foi tudo verificado... eu mostrava às pessoas e as pessoas concordavam, aquilo era tudo roubado, o Namora, no Domingo à Tarde, tinha copiado partes do Aparição, do Vergílio Ferreira. Fui então ao O Jornal ter com o Rodrigues da Silva: “ouve lá, achas que isto aqui é publicável? Reposta dele: “o pá, o José Carlos Vasconcelos é muito amigo do Namora, nem pensar...” Ninguém queria publicar aquilo. Estavam com medo do Namora. Tive eu de publicar, melhor, tive de arranjar um gajo, o Vítor Belém, ele é que fez a edição. O Belém foi comigo à Tipografia Mirandela, na Travessa Condessa do Rio, perto da Calçada do Combro... era a gráfica desses gajos da extrema-esquerda… aquilo foi composto, eu revi provas, num papel muito ordinário... saiu num folheto de 8 páginas, fiz 5 ou 6 mil exemplares. Despachei tudo, vendeu-se à maluca, alguns iam parar às caixas do correio".
Peço à Rosário, mais uma vez, que desculpe tal quantidade de textos nos comentários (claro, da minha parte, que abri o dique), mas julgo que o assunto é importante para nós, leitores, escritores, editores e demais interessados em livros.
Prometo que é a minha última "intromissão", mas acabo de descobrir um download e reprodução das presumidas partes plagiadas, cópia do "Sonâmbulo Chupista" neste seguinte link:
Eliminarhttps://gripedasaves.wordpress.com/2015/07/10/o-caso-do-sonambulo-chupista/
São frases, floreados, imagens narrativas... Por favor!!
Tudo o que era muito próximo da realidade, a compreensão das condições reais da existência, a normalidade, isso merecia o desprezo de Luís Pacheco. Daí a sua aversão ao neo-realismo, penso eu. Se abordava os mesmos temas pegava-lhe pelo lado da abjeção, vertente onde se notabilizou.
ResponderEliminarPara além de um grande escritor, Fernando Namora era uma excelente pessoa, simples, sempre com uma palavra de incitamento, de que deixou largos testemunhos. No meu caso pessoal, nunca irei esquecer o encontro que tive com ele nas escadinhas de acesso ao andar superior da direcção da Bertrand, no Chiado. Ao saber que eu, ainda jovem aprendiz de escritor, tinha recentemente publicado um livro que a Bertrand distribuía, teve comigo uma conversa franca, de apreço, a par de conselhos que ainda hoje respeito.
ResponderEliminarComo escritor,é do melhor. Li toda a sua obra.
O facto de a exposição ter alguma itinerância, deixa-me satisfeito. É tempo de não considerar apenas Lisboa como local de encontro da cultura literária.
Li os retalhos da vida de um médico enquanto estudante de medicina, não fosse a leitura abrir me portas para um mundo que ainda desconhecia. Confesso, não adorei. O humanismo é transversal e intemporal, mas a obra de Fernando Namora pareceu-me um tanto desatualizada e a sua postura enquanto médico, ligeiramente (repito, ligeiramente) arrogante. Não obstante, serviu-me para compreender um Portugal que não me pertenceu.
ResponderEliminarDiria que Miguel Torga foi o médico escritor português que mais me marcou, e que continuo a ler com imenso prazer.
Gostos...
Extraordinária,sensível e sensata Maria, apesar de eu não ter a mesma opinião que a sua relativamente à postura do autor em apreço - que diz ligeiramente arrogante -, julgo eu que se deve apreciar a obra no contexto do seu tempo e do lugar onde exerceu a profissão de médico. E a Maria, que terá exercido a mesma profissão de Namora, não o terá feito nos ambientes de interior, nessa ruralidade quase neolítica, porquanto confessa que ao ler o colega compreendeu "o Portugal que não lhe pertenceu".
EliminarMiguel Torga é igualmente outro vulto, ambos médicos, igualmente firmados no tal Portugal profundo, que sobressai na maioria das suas obras, sendo ele também uma personalidade humana e afável, naquele seu consultório de Coimbra, salvo erro na Rua da Sofia.
São gostos, sim; eu também tenho muito gosto em ler os seus comentários.
Após a leitura do seu primeiro comentário e durante a escrita do meu, estive para dizer que fiquei feliz por saber de Namora uma pessoa simples e afável, algo que dificilmente poderia ter deduzido do seu trabalho literário. Dar lhe ei uma segunda oportunidade!
EliminarObrigada pelas suas simpáticas e sensatas palavras, foi um gosto ler esta resposta ao meu julgamento inicial, provavelmente precipitado.
Sei que Miguel Torga teve um consultório no Largo da Portagem, no mesmo prédio em que uns tios meus, "retornados" de Moçambique, exploravam um quiosque, no R/C. Miguel Torga era muito afável e conversava muito com o casal (ela é que é a minha tia "verdadeira", irmã do meu pai), ao aperceber-se de que eram transmontanos. Esses meus tios ainda são vivos, em Coimbra. A minha tia já completou os 90, o marido vai a caminho.
EliminarP.S. Lembrei-me agora do nome: os meus tios exploravam a Tabacaria Portagem.
EliminarFui agora confirmar com o meu tio, que tem quase 90 anos, mas movimenta-se muito bem no facebook ;)
EliminarDiz ele que o consultório de Miguel Torga era no prédio Montepio (no Largo da Portagem) e a Tabacaria era na entrada do prédio. Era, por isso, obrigatória a passagem diária do ilustre escritor e médico pelo humilde estabelecimento dos meus tios.
Não sei se Miguel Torga teve consultório noutro sítio.
Agradeço a sua intervenção no sentido de situar convenientemente a morada do consultório de otorrinolaringologia do Torga. Sabia que era ali pela rua da Sofia (por isso grafei "salvo erro", agora ressalvado), mas a Cristina tem razão. Depois de ir consultar os meios que a net dispõe, vim a descobrir que é a rua Comandante João Belo e Largo Marechal Gomes da Costa.
EliminarNunca estive com Torga. Falei com ele ao telefone, durante mais de meia hora, a propósito de um prémio literário que o município de Coimbra abriu com o seu nome; mais nada. Li-o, foi o melhor. Nesse consultório, Adolfo Rocha (Miguel foi o pseudónimo escolhido, dada a admiração por Miguel Cervantes e Miguel de Unamuno), segundo ele escreveu, quando o abriu "ali passava parte das manhãs e das tardes, sonolento, a atender os raros doentes que a notícia da minha chegada num jornal da terra ia trazendo".
Espero que a Rosário não fique incomodada com esta enxurrada de comentários que hoje trago, mas o facto de se falar de Livros e Autores e da participação de Extraordinários como a Cristina e outros de hoje, libertaram a minha disposição e tempo.
Obrigado à Rosário e a vocês.
Não encontro um Largo Marechal Gomes da Costa, em Coimbra. Chamar-se-ia assim antigamente?
EliminarSempre conheci a praça em questão como Largo da Portagem. Na infância e na juventude, estive algumas vezes na tabacaria dos meus tios, mas, infelizmente, nunca tive a sorte de falar com Miguel Torga.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Largo_da_Portagem_(Coimbra)
Fernando Namora foi dos primeiros escritores que li, emprestaram-me alguns livros. Não o julguei arrogante e gostei de "Retalhos da vida de um médico" e "Domingo à tarde". Comoveu-me a casa onde viveu na aldeia de Monsanto, imaginei-o a escrever à luz filtrada pelas janelas, a passar o arco que antecede a casa, calcorreando aquelas fragas. Depois da série Retalhos da vida de um médico na TV, fiquei ainda mais agradada do escritor e do homem que ali me surgiu tão humanizado. Não perdi um episódio e ainda recordo a música que anunciava o início da série. Por escrito sempre o julguei uma pessoa sensível ao mal de vivre. Foi o primeiro a colocar-me questões metafísicas quando eu não fazia ideia do que fossem e ficava apenas intrigada.
ResponderEliminarTorga é escritor e poeta de outro calibre. Cada um em seu meio, é grande e distinto. E fico bem contente que lembrem Namora no ano do seu centenário com uma homenagem e reedição de livros. Tem estado um tanto esquecido.