Em extinção

O jornal The Guardian trazia uma advertência para aqueles que estão em vias de escolher um curso ou um ofício, o de não optarem por uma série de profissões que estão em extinção. Algumas destas foram evidentemente tornadas obsoletas pelo aparecimento e a difusão em larga escala da tecnologia digital – quem é que hoje, por exemplo, manda revelar fotografias? – ou substituídas por máquinas «inteligentes» (as pessoas já podem pagar a conta do supermercado sem passar pela caixa, usando o leitor do código de barras, e nos casinos parece que as fichas das slot machines já são «cuspidas» por um dispensador); mas houve actividades que, infelizmente, desapareceram porque não houve jovens que se interessassem por elas (o trabalho nos teares é uma delas) ou porque já não fazem simplesmente sentido: quando se estraga um móvel, custa se calhar mais caro mandá-lo arranjar do que ir ao IKEA comprar um novo. A insegurança também acabou com coisas como as vendas porta-a-porta, e as câmaras de vídeo instaladas por todo o lado e os intercomunicadores dispensaram muitos detectives e porteiros. Mas foi a invenção da aldeia global, combinada com a disponibilização de toda a espécie de serviços online, a principal responsável por muitas profissões se encontrarem em extinção: os solicitadores, os agentes de viagens, as dactilógrafas, as telefonistas, os carteiros, os guarda-livros, os contabilistas… Hoje podemos fazer quase tudo sozinhos, desde que tenhamos um computador. Mesmo publicar livros, claro. O editor mais cedo ou mais tarde entrará na lista.

Comentários

  1. Bom dia com alegria

    Cara Maria do Rosário Pedreira,

    Em primeiro lugar, parabéns pelas horas extraordinárias que faz neste blog. A si e aos habituais convivas que fazem deste espaço virtual um dos meus favoritos.

    Relativamente ao post de hoje, devo precisar que os contabilistas não se encontram em extinção.

    Existem muitos empregados de escritório, vulgo mangas de alpaca no antigamente, que trabalham em tarefas ligadas com a contabilidade. Esses sim, em vias de extinção mais avançada.

    O TOC, agora pomposamente apostado de contabilista certificado, infelizmente é uma figura mais perene.

    Sem contabilista não havia BESgate. (Lá está, os que pensam, têm sempre vantagem... )

    Mas acedo que, com uma Fiscalidade menos rebuscada, um Estado tecnologicamente mais avançado (ter muitos computadores nunca foi sinónimo de eficiência), a profissão é robotizavel até determinada medida.

    Como aliás a esmagadora maioria das profissões.

    O que me deixa a sonhar com mais tempo disponível para ler.

    Aceite os meus cordiais cumprimentos e votos de permanência na blogosfera

    Boas leituras
    cp

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    1. Claro, tem toda a razão. Era mais no sentido de aquelas pessoas que nos preenchiam os impressos do IRS quando era tudo em papel e que agora, que tudo se faz online, foram dispensadas por muitos...

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  2. Maravilhoso mundo novo digital. Com ele há muito mais pessoas a escrever, a tocar. Agora é preciso dar o passo seguinte: que esses equipamentos fabriquem talento.

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  3. ''custa se calhar mais caro mandá-lo arranjar do que ir ao IKEA comprar um novo'' -
    é isto que o mundo de hoje quer - lixeiras.
    Eu, sendo apaixonada por fotografia analógica, não tenho se não a hipótese de revelar as minhas fotografias, algo que me dá imenso prazer.
    As promessas da inteligência artificial são verdadeiramente assustadoras, porém ainda muito aquém, sendo essa uma área muito mais complexa do que se faz imaginar, como sabem a maioria dos programadores.
    Custa-me ver estas profissões desaparecer, e imaginar o impacto que isto terá em determinados países claramente sobrepopulados, como é o caso do Brasil, em que há profissões tão aparentemente inúteis como a senhora que põe as compras no saco (para além da que as passa), ou o funcionário do elevador, que pura e simplesmente prime o botão referente ao andar pretendido (não vá alguém cair na infâmia de ir parar ao 2º andar, quando desejava o 1º). Há lugares no mundo em que para se sobreviver, se tem de inventar.
    À semelhança de amalivros, também aguardo que esses equipamentos produzam talentos.

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    1. Lembrei-me dos elevadores do Hospital de Santa Maria. Há uns anos, havia um funcionário em cada elevador para carregar nos botões (parece uma coisa tão longínqua) ou o funcionário que vendia bilhetes nos autocarros da Rodoviária Nacional.
      Não sei se os vendedores do Círculo de Leitores ainda existem, mas deve ser uma profissão com fim próximo.
      Por outro lado, acho que volta a haver mais gente a usar rolos fotográficos e quem possa revelá-los.

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  4. Julgo que a tecnologia dispensa muita tarefa de rotina morosa e hoje improdutiva. E transformou o desconhecido em conhecido, ou, pelo menos, tornou-o manejável.
    Tenho pena que desapareçam os amola tesouras com seu assobio típico e a pedra de amolar fixada na traseira da bicicleta, juntamente com guarda chuvas sem varetas ainda por consertar. Dos sapateiros que quase não há, o cheiro a couro de mistura com o da cola e da graxa em anúncio do lugar. Dos livreiros entusiastas e sabedores que esperavam os leitores em livrarias satisfeitas e aconselhavam isto e aquilo. Dos retalhistas que também falham e manobravam o metro de madeira com mestria a combinarem botões e bordados como ninguém. E mais.
    Mas é assim o progresso e até a vida, ganham uns sobre a perda de outros.

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  5. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2019 às 04:13

    Sou dos que nem por isso acreditam na "inteligência digital-artificial" ou lá o que não seja aquela saída das nossas funções de selecção e síntese. Existe em parte, mas nem é completa e nem nunca o será, pois as emoções que a compõem não são passíveis de serem introduzidas num cérebro artificial, até pela diversidade de sensibilidades que são a maior riqueza da Humanidade e talvez a sua única vantagem.

    As profissões vão evoluindo, surgindo novas e desaparecendo outras, é a evolução e não tanto a automatização nem a inteligência artificial, é até a economia quem o dita, mas não são as máquinas por muito espertas que possam ser!
    Junte-se a isso o comodismo, esse sim!

    Sai mais barato ir ao IKEA? Bom, e as minhas cadeiras de carvalho que eram da mobília de casamento dos meus pais? Vou substituí-las por fórmica ou um conglomerado piroso? Nem pensar… não havendo carpinteiro que as conserte, eu mesmo o faço, como já aconteceu aliás.
    E aposto que se publicitar nas redes sociais que componho móveis, vou ter trabalho… assim me dê eu ao trabalho de executar esse trabalho.
    Tenho um amigo, arquitecto de profissão, que nas horas vagas se dedicou a restaurar um velho piano que tinha na sala da casa de família… hoje é entendido até em vernizes, e, não tem mãos a medir para restaurar pianos de gente amiga e conhecida de conhecidos que lho pedem! Não quero dizer que ele deva mudar de profissão, mas sim que é tudo uma questão de oportunidade… um amigo do meu sobrinho mais velho ganha a vida com uma carrinha que adaptou com chuveiro e tudo, a dar banho a cães! Trabalha com agenda e está sempre cheio!!!

    Não, essa lista de empregos obsoletos pode não significar o fim, mas antes que há novas oportunidades com a evolução e as alterações. O Guardian será um bom jornal, todavia
    parece-me neste caso concreto, demasiado conservador na abordagem que faz.

    Saudações saudosas mas não saudosistas de quem tem uma nova carreira, cá na Cidade Morena e desde a Cidade Morena!

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  6. «Quem é que hoje, por exemplo, manda revelar fotografias?»

    Eu mando revelar fotografias. E uso uma máquina digital.

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  7. E pur si muove: o animal humano é infeliz se fizer tudo (ou quase tudo) sozinho. Caminhamos a passos largos para uma Humanidade autossuficiente e infeliz.

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  8. "O editor mais cedo ou mais tarde entrará na lista".
    A partir desta frase, suponho que será pertinente meditar na palavra editor - tanto pode ser uma empresa que edita, ainda que através de pessoas classificadas para esse trabalho,como pode ser a pessoa que edita por sua conta.
    Certamente serão formuladas as perguntas: a empresa ou quem promove a edição, constituem uma actividade e uma profissão; será que a pessoa que edita por sua conta não entra no ramo, fazendo disso profissão?
    Resumindo e concluindo, enquanto houver livros impressos, jamais deixará de haver editor, a não ser que se invente uma máquina "pensadora" que faça todo o trajecto editorial, desde a escrita (ou o desenho) até ao produto final. E, mesmo assim, terá de existir alguém que suporte os custos e faça circular o produto, a não ser que a designação passe a ser "distribuidor".
    Desde há muito que dito as minhas obras, a par de outras que me vão editando, a pedido, cabendo-me neste último caso, aceitar ou negar a tarefa, o que já aconteceu. Faço isto em função da génese ou autoria dos trabalhos, deixando de colocar a outros os custos (e os proveitos, como é natural), bem como os riscos de cada edição. Bater às portas das editoras, de chapéu na mão e a pedir "ó tido, ó tio", foi chão que deu uvas, porque o meu feitio independente acabava sempre por me acusar, principalmente quando havia alguma "nega".

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  9. Também penso que o editor nunca terminará.
    Poderá ter de mudar de mobiliário e encontrar-se numa sala mais pessoal, onde não se demore entre a pressão e o tédio. Mas haverá sempre o que terá de moldar os livros para lhes dar capa, formato. Mais importante ainda: aquele que arguindo conteúdos traça a linha amarela que separa as autênticas palavras, frases e parágrafos inteiros, que fazem de um livro ou documento uma tarefa feliz.

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  10. Vivemos tempos difíceis. A questão é que os editores já desapareceram. Pelo menos a sua autodeterminação. A autonomia de muitos é limitada pelos interesses do sistema. A maior parte dos editores são tecnocratas e nada mais. Pode haver um ou outro com mais poder ou autoridade em razão do seu currículo, mas também isso está a ser colocado em causa. As pessoss lêem cada vez menos e os bons livros são para uma elite à beira de um colpaso nervoso. Resumo: morte e ninguém quer saber.

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