Testamento
Agora, que me vou poder passar a queixar de ser sexagenária (oh, como detesto a palavra), não posso deixar de falar de um livro que foi recentemente reeditado pela Quetzal de um grandíssimo poeta português que acabava de cumprir esses mesmos 60 anos quando o escreveu. Falo de Vasco Graça Moura e do seu testamento – Testamento de VGM, para ser mais precisa – que se republica no quinto aniversário da sua morte e é, como o próprio autor disse oportunamente, «um divertimento muito sério». Citando a editora, trata-se de «um poema autobiográfico» em que Graça Moura, com a elegância e o talento de sempre, «canta os amores, trabalhos, filhos, amigos, inimigos, a cidade natal, o ofício literário, a paixão pela pintura e a sua natureza mais íntima.» Fica aqui um exemplo do que vos espera e a recomendação: leiam-no (ao poema e ao livro).
deixo a meus filhos versos cultos
e também prosas às centenas
(os meus dois filhos são adultos
e as minhas filhas são pequenas)
e muito amor: não deixo apenas,
tudo somado, alguns direitos,
e fui bom pai, nunca fiz cenas
e fi-los sãos e escorreitos.
Apesar de, como é sobejamente sabido e do domínio público, eu não ser leitor de poesia, devo no entanto dizer que, poesia desta eu gosto… aliás, não ser leitor de poesia não significa que não goste de poesia, são coisas distintas.
ResponderEliminarÉ que para mim, nem toda tem significado, e só aprecio a que tem, ou faz sentido. É o caso desta que aqui é apresentada, que pode até para algum consumidor mais sofisticado ser demasiado simples, mas é assim que gosto dela, percebe-se bem a mensagem que contém.
Saudações poéticas cá da Cidade Morena.
Muito bom, Rosário!
ResponderEliminarAbraço!
Lília
Não tendo sido para mim um poeta excepcional foi VGM um intelectual de craveira. Infelizmente a impressão que muitos de nós temos é que muito poucos deste tipo de intelectuais, de saberes enciclopédicos, o século XXI gerará.
ResponderEliminarAtrevia-me mesmo a dizer que o passado já produziu quase tudo o que de verdadeiramente interessante e somativo, para além do recorrente "pisar de estrada", se produziu na literatura.
Revisitar os autores passados faz bem à alma.
Como não gosto de anonimatos cá vai a autoria do comentário anterior.
EliminarPedro: como o meu amigo, eu acredito que o saber (enciclopédico ou como queiramos designá-lo) das gerações contemporâneas esteja contido nos seus bolsos, dentro dos telefones-espertos, que são a memória actual!
EliminarQue impacto terá isso no futuro? Nem Deus saberá… porque ter o cérebro num bolso é mais cómodo do que trazê-lo dentro da cabeça, e se consulta com muito menos esforço, além de que guarda muitíssima mais informação! O que vai acontecer é que, eventualmente, porque menos utilizado, tenhamos gente no futuro muito mais hábil no dedilhar do que no raciocinar.
Às vezes acho que isso já se vai notando… mas pode ser impressão minha…
Abraço!
Ao que diz quem o conheceu, o Vasco Graça Moura era um superdotado para a criação poética, uma espécie de Mozart da criação lírica, tal facilmente ela lhe aparecia logo cheia de música. Ouvi (e li) testemunhos de quem presenciou a criação pelo VGM de poema (com rima !) de um momento para o outro e a propósito de algo que se passara no momento. Deliciei-me a ler a sua reescrita simplificada de "Os Lusíadas", belíssima heresia para tornar mais fácil o acesso ao original de Camões. Este testamento será também belíssimo !
ResponderEliminarcampo santo em leça da palmeira
ResponderEliminaro meu pai está em leça da palmeira, lá perto do farol da boa nova,
num cemitério varrido pela nortada e pelo cheiro a maresia,
não longe das melhores coisas do siza vieira e de lugares do antónio nobre,
não longe da petrogal e dos seus grandes cilindros metálicos,
não longe do lugar onde nasceu, numa casa depois demolida para as obras de leixões
quando ele era pequeno. um dia a mécia de sena trouxe uma fotografia,
cedida por um amigo comum, de um renque de casas junto ao mar.
fiquei com uma ideia da casa dos meus avós na leça de fins do século
e de como o mundo é ainda mais pequeno do que eu imaginava.
agora o meu pai já só escuta o ronco da sereia e as buzinas do nevoeiro,
e passa-lhe por cima, em cadências regulares, um facho de luz rasgando a noite.
agora já não vê as banhistas a menearem-se entre o sol, a areia e a água,
nem diz "olha, aquela é muito potável" com um riso que sempre irritou a minha mãe.
agora fiquei eu com a integral do balzac que ele passava a vida a ler,
e faz-me a maior das impressões que ele esteja para ali sem livros, sem o eça, sem nós todos.
o meu pai morava ali perto. no silêncio das luas já não sabe onde era a sua casa.
a gente passa nos dias do costume a deixar-lhe flores e algum recolhimento,
ou então um de nós diz "fui com a mãe pelo cemitério", sem falar no nome dele.
isso não é uma rasura, mas um sinal mais forte que perturba a densidade das palavras,
porque o meu pai tinha os olhos muito azuis, e essa cor às vezes fica ali no mar.
Vasco Graça Moura
Agrada-me a poesia de Vasco Graça Moura, mas desconhecia este testamento. Hei-de procurá-lo.
ResponderEliminarObrigada, Rosário