Mais nervos
Temos certamente razões para andar nervosos (o clima, a saúde, as eleições, o estado do mundo...), mas estes nervos de que venho falar hoje são bem bons. É bonito ver que, num país que lê tão poucochinho (estou sempre a falar disto, bem sei, mas é verdade), uma revista de poesia como a Nervo subsiste e está melhor a cada número. Já vai em meia dúzia, e o número 6 sai com poemas de muitos autores portugueses consagrados (José Emílio Nelson ou Luís Quintais, por exemplo), poetas a caminho de o serem (Marta Chaves ou Renata Correia Botelho) e poetas (para mim, pelo menos) desconhecidos (Elsa Alves ou Teresa M. G. Jardim). A eles se juntam os estrangeiros Josep M. Rodriguez, traduzido por André Domingues, e Mordechai Geldman, traduzido por João Paulo Esteves da Silva (sim, o músico que é também poeta e tradutor). Vamos lá então lê-los e ficar ainda mais nervosos.
Não sou leitor de poesia.
ResponderEliminarNão entranha, apesar de algumas (raras) tentativas.
Apenas li (com gosto e prazer)
o poeta Pedro Homem de Mello.
E, claro, gosto do poeta popular António Aleixo.
EliminarO Pedro Homem de Mello é da área do folclore.
Engraçado os dois comentadores em acção, não serem leitores de poesia… enfim, pelo menos eu não o sou habitualmente, apesar de sempre dar uma vista de olhos aqui e ali para me informar.
ResponderEliminarApesar da minha condição de não-leitor, congratulo-me que uma revista dedicada ao tema, persista e sobreviva! Porque sei que precisamos de poesia, porque a poesia é uma coisa bela, porque a poesia é alma, e alma é humanidade.
Coisas de que bem precisamos!
Já agora, Pedro Homem de Mello é poeta sim, ó Severino, tanto quanto o António Aleixo!
E a propósito não resisto a dedicar-te este poema, a ti, que provavelmente o conheces pois se falamos de alma, este é a nossa!
Cântico negro
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe.
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!
.
– José Régio, em “Poemas de Deus e do Diabo”
Adequa-se como poucos aos tempos que vivemos, não achas?
Grande abraço cá da Cidade Morena, pois parece que hoje falamos sózinhos!
Obrigado caro Amigo Paxeco (é bom chamar amigo a quem nunca se viu e sentirmo-nos bem) - sabes a quem, há já alguns anos, ouvi (na TV em directo) dizer este poema do José Régio? Ao Presidente do F.C.do Porto, J.N.Pinto da Costa. Na altura impressionou-me.
EliminarTenho verificado que os leitores extraordinários deste blogue não papam poesia. Além disso, a avaliar pelos comentários, mal sabem expressar-se e escrevem muito mal. Este tipo de leitores nunca chega à verdadeira literatura, nem sequer a entendem. No entanto, satisfazem-se com o que lhes dão a ler. Até aqui, nada de nervos. Há leitores para tudo. Eu sei que a MRP sabe que há projectos literários melhores que "encher de nervos" um leitor pouco informado.
ResponderEliminarEm contrapartida temos aqui comentadores com uma linguagem correctíssima
EliminarIsso de papar poesia é o quê?
Comer as palavras?
Comer o papel?
Para denegrir a imagem da Rosário, necessita mesmo de nos meter ao barulho?
Não consegue fazer melhor, senhor professor doutor?
Ou será que só tem o sétimo ano de praia?
Bem me parecia...