Títulos

Em todos estes anos de trabalho editorial, encontrei títulos francamente maus e nada apelativos nas primeiras versões de certos romances (que foi preciso alterar), mas também títulos óptimos que, por vezes, até prometiam livros melhores do que depois se revelavam. Pôr um título num romance ou num livro de poesia não é uma tarefa fácil, porque o título tem de sintetizar todo um programa ficcional ou poético e é aparentemente impossível dizer muita coisa em poucas palavras. Na imprensa,  mesmo assim, o título não tem de ser bonito, mas informativo e sintético. Noto, porém, de há uns tempos para cá como os títulos das notícias ultrapassam em larga medida a sua função. Falo por exemplo do facto de um jornal querer atacar um sistema político que não é da sua simpatia pondo títulos em parangonas que apontam para uma crítica a esse mesmo sistema e explicando depois em letra pequenina o contrário (e nós todos sabemos que muitos leitores só lêem as gordas). Um dia destes, por exemplo, o título de uma notícia fazia crer que os chefes militares queriam a trabalhar a tempo inteiro um soldado amputado (o que parecia chocante) quando, lendo as primeiras linhas, percebíamos que afinal os chefes o queriam no quadro permanente para que não sofresse dificuldades financeiras nem afastamento social. Enfim, uma coisa que devia ser directa tornou-se perniciosa, umas vezes por aselhice, outras por má-fé. Esperemos que a ficção não siga estas pisadas e passe a inventar títulos muito bons só para épater le bourgeois.

Comentários

  1. Os títulos tem de ser chamativos, todos (os dos livros pedem mais qualquer coisa, que nos leve a algum lado).

    Mas não precisam de ser "mentirosos", como os do tal mau jornalismo, exemplificado, do jornal que todos conhecemos, e que até o autor "revelação" dos últimos anos não achou piada ser criticado pelos seus pares por escrever por lá. :)

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    1. " Pôr um título num romance ou num livro de poesia não é uma tarefa fácil, porque o título tem de sintetizar todo um programa ficcional ou poético e é aparentemente impossível dizer muita coisa em poucas palavras. "
      É verdade, minha Amiga !

      js

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  2. António Luiz Pacheco11 de julho de 2019 às 01:48

    De acordo!
    .1 Quando se vai a um restaurante, na actualidade e àqueles possidónios, o nome do prato é a receita do mesmo… em vez de arroz de pato escondido, com as tradicionais rodelas de chouriço e presunto, leia-se: risotto em água de cocção de anatídeo, com a carne do mesmo finamente desfiada entre camadas, guarnecido com finas fatias de enchido tradicional e cubinhos de perna de porco bísaro curado em fumeiro artesanal.
    O ridículo já não mata… e ainda bem para as "celebridades".

    .2 As cachas dos jornais… nem se comenta! Dizem o que querem que se subentenda e não o que dizem depois na notícia… se publicidade enganosa, se aplicasse aos jornais, o déficit da economia baixava certamente, com o valor das multas aplicadas!

    .3 Nomes de romances… nem me atrevo a ir mais longe, pois o que disse é além de certo (acredito eu) como tem certamente um longo historial de casos. O que m'a mim parece, é que às vezes o autor dedica mais esforço das meninges combinadas com as células cinzentas em compor um nome "altamente" - que muitas vezes nem tem nada a ver com o romance! - do que ao próprio texto da obra!
    Ou seja, em calhando, devia haver livros só com o título… e uma breve resenha na contracapa. Para muitos autores que tenho lido, actuais e aliás de sucesso, bastava! E ficavam os livros a preço muito mais acessível, fora possibilitarem muita mais produção aos autores!

    Saudações tracejantes cá da Cidade Morena que amanheceu com um belo Sol (estamos no cacimbo) que o Bengato (o gato de Benguela) está ali muito contente a gozar, felinamente e preguiçosamente estendido em cima do capô da minha carrinha!

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  3. Extraordinário Pacheco,
    Essa versão do arroz de pato, ainda que um pouco reduzida, dava um belo títaro para um livro. Desses que agora as máquinas escrevem.

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  4. Engraçada esta coisa dos título: é assim na ficção, é assim na academia. Como vivo entre ambas, os títulos, ou a necessidade deles, são-me uma omnipresença. Às vezes aparecem-me na cabeça e elaboro a partir daí; outras vezes são a última coisa e, nestes casos acho que há sempre uma certa naturalidade que se perdeu...

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  5. Porque é que em Portugal deixou de haver cozinheiros, e passou a haver apenas Chef?
    Apenas saloice?

    "CONFESSO QUE VIVI" do Pablo Neruda é o melhor e mais bonito título de um livro que vi até hoje!

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    1. António Luiz Pacheco11 de julho de 2019 às 10:18

      De acordo, com ambas!!!!

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    2. Ó Seve, talvez pela mesma razão que os treinadores de futebol agora são todos Mister: parolice!

      Maria

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    3. Ó Maria curiosamente Mister é uma linguagem da tribo do futebol que não é de hoje nem de ontem, há certamente mais de meio século que Mister é uma palavra que os futebolistas sempre usaram, talvez por influência dos treinadores estrangeiros, nomeadamente ingleses que há décadas vieram para Portugal, porque nos anos 40, 50 praticamente todas as grandes equipas portuguesas eram treinadas por estrangeiros, treinadires pirtugueses eram raros.

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    4. Ó Seve, eu nunca me lembro de ouvir o Eusébio referir-se ao Béla Guttmann como Mister, but if you say so... eu acredito.
      E não vejo mal nenhum em usarmos nomes e expressões estrangeiras (parece que não é politicamente correcto) aliás, até sou uma das parolas que gosta de o fazer, if you know what I mean...
      Chef, Mister, Designer Gráfico, Top Model, Personal Trainer: a Língua Portuguesa aguenta tudo!

      Maria

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    5. Mas porquê usar, por dá cá aquela palha, expressões estrangeiras para além daquelas standard (OK, Yes...), que toda a gente entende?

      Acredite Maria que Mister é uma linguagem futebolística desde sempre (falo com conhecimento de causa).

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    6. Acredito, pois, Mister Severino (não me diga que já foi - ou é - treinador de futebol).
      Mas eu também conheço a designação Chef há décadas.

      Maria

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    7. Lembro-me do Chefe Silva, (chefe com e).
      Chef (sem e) não me lembro. Mas admito a minha ignorância.

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  6. Sobre o mesmo tema - Títulos de Livros - aconselho a leitura do post da MRP e comentários ao mesmo, ainda recentemente registado neste espaço. Se tiverem pachorra, leiam:
    https://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/para-o-que-lhe-havia-de-dar-517627

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