Telepatia editorial

Esta é uma história de coincidências que agradaria ao Caderno Vermelho de Paul Auster e que aconteceu recentemente com o livro de Itamar Vieira Júnior, Torto Arado, vencedor do Prémio LeYa. Quando, em Novembro de 2018, começámos a preparar o livro, perguntei ao autor se tinha alguma ideia do que gostaria de ver na capa. Tratando-se de um romance que tem duas irmãs negras como protagonistas, Itamar enviou-me um grupo de fotografias de cariz etnográfico, entre as quais se inclui a que reproduzo aqui:


(1) Camponesas.jpg


 


Não a usámos, até porque as mulheres eram muito mais velhas do que as personagens, optando por uma solução diferente. Entretanto, a editora Todavia, uma editora literária importante, comprou os direitos do livro para o publicar no Brasil. Recentemente, chegou a capa da edição brasileira e era esta aqui:


image1.jpeg


 


Pensei, claro, que tinham perguntado ao autor o que gostaria de ver na capa e que ele teria enviado as mesmas fotografias que mandou para mim; por sua vez, Itamar pensou que os editores da Todavia teriam falado comigo e que eu lhes teria passado as imagens. Mas nada disso aconteceu, na Todavia quem fez a capa fê-la sem saber de nada. É a isto que eu chamo telepatia editorial. Não é mesmo incrível? Magia da boa, como fica bem ao Brasil.

Comentários

  1. Apesar do que diz a outra MRP, a verdade é que as coincidências existem mesmo e estão sempre a acontecer... basta estar atento.
    O Paul Auster é que tem razão :)

    Maria

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  2. Fantástica coincidência. Obrigado pela partilha!

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  3. Eu sou pelas coincidências, mas esta é assustadora, terá sido espionagem russa? O livro, é para tomar nota.

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  4. António Luiz Pacheco22 de julho de 2019 às 05:28

    Vejamos… reflectindo um pouco, não me admira a alegada coincidência, que não terá sido telepática mas porque deverão ter lido o livro, e, sentiram-no do mesmo modo que o autor, logo foram conduzidos no mesmo sentido para a imagem da capa.
    Espero não estar a ser desmancha-prazeres… eheheh!

    Aguardemos entretanto a saída do livro!

    Saudações racionais cá do Bairro Ribatejano!

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  5. Até custa a acreditar, mas a capa está muito bonita.

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  6. Até custa a acreditar em tamanha coincidência, mas a capa está muito bonita.

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  7. Mas afinal por que razão é que uma mesma coisa agrada a tanta gente, não será porque temos em comum muito gosto e pensamento? Também não me parece assim tão extraordinário haver uma sintonia entre a história e quem a lê à procura de motivos para uma capa. E a capa portuguesa que tal é?
    A foto, essa é que, conjugue bem ou mal com o romance, é uma maravilha, são duas mulheres de força, duras como a catana. Se não fora o pormenor das mãos.

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    1. Bea, não restam dúvidas que a capa é a estilização da fotografia, ambas belíssimas, penso eu.
      A coincidência está nessa foto sugerida pelo autor apenas à editora portuguesa, ter sido a escolhida pela editora brasileira, desconhecendo essa preferência do autor.
      Se isto não é uma coincidência... e até consigo imaginar a surpresa da Rosário ao ver a edição brasileira

      Maria

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    2. Pois.Obrigada, mas tinha entendido à primeira leitura. Acredito que há muita coincidência na vida, esta é mais uma. Como disse, verificou-se mesmo que há mais gente que, pela leitura do livro, chega à mesma foto.

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    3. António Luiz Pacheco22 de julho de 2019 às 10:43

      Concordo inteiramente consigo, Bea!

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  8. reparou naquela força de dar as mãos? Bom, talvez seja da magreza exagerada das duas.

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    1. Reparei, sim.
      É uma fotografia poderosa, não é? Talvez seja muito conhecida por lá.
      Fui ler a sinopse do livro e fiquei com vontade de o ler.

      Maria

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    2. António Luiz Pacheco22 de julho de 2019 às 16:32

      Bea: não é magreza exagerada… estas mulheres fazem trabalho braçal, são musculadas, secas de carnes! Como a maioria das mulheres mucuíças, mucuandas, mucubais, mumuílas, etc. que conheço, que vivem no "mato" e trabalham a enxada e a catana (panga em Moçambique e facão no Brazil) . São secas, musculadas, não "magras" . Um dia mostro-lhe algumas das milhares de fotos que possuo… acredite que é um espólio, humano, que nem sei o que lhe hei-de fazer! Mas é o que lhe digo, é gente que cresce a mamar até aos 3 anos, depois passa à quissangua e eventualmente ao malulo… vive a funje ou a bombó, por isso são assim secos, mas morrem cedo e com facilidade.
      É angustiante, acredite, quando se vê gente que pode comer o que quiser, e carne, que resolve não fazer… a escolha é própria dos que podem escolher, não dos demais. Estes que não podem, vivem e são assim!
      Saudações omnívoras e bem alimentadas cá do Bairro Ribatejano!

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    3. Obrigada pela informação tão detalhada:), gostei de saber e aprendi que não é magreza exagerada; ou é, mas com causas piores que ela. Há vidas tão difíceis que ao sabê-las ou delas ter notícia se sente a gente uns sortudos.

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  9. Aprecio a capa da edição brasileiro e também gosto da capa da edição portuguesa; todavia, acho estranho o autor não ter conhecimento, através da "Todavia", da forma como chegaram à imagem da "sua fotografia".
    Não sei se lerei o livro, não prometo, uma vez que desconheço se o texto reproduz fielmente o português do Brasil ou o de Portugal, uma vez que não acredito no tal acordo "horto-gráfico". Belonísia, por exemplo, também é grafada com "z" no Brasil e também se escreve Bibiana e Viviana (se ouvirmos na pronúncia do Porto).
    O tema é interessante, as duas personagens femininas também me parece que o sejam. Se o autor foi retirar o título à Marília de Dirceu, do Tomás António de Gonzaga (poema demasiado longo, ao espírito da época), como sugeriu um dos membros do júri, fê-lo através destes versos árcades pastoris:
    "qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
    ferro do torto arado".
    O arado rima com "descansado" no penúltimo verso.
    O título é feliz, fosse ele extraído do verso, do Borda d'Água ou de outro lado qualquer. Logo que tenha oportunidade, ronceiro e subtil como é meu costume nas livrarias, hei-de folhear um exemplar e decidir "in loco".

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco22 de julho de 2019 às 16:35

      Interessante comentário!
      Abraço!

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