Leitura paga
Já aqui discutimos muitas vezes se a leitura nas escolas não deveria ser uma prática mais regular e obrigatória. Há tempos até publiquei a história de uma escola (francesa ou espanhola, já não me recordo) que, a determinada hora da manhã, fazia tocar uma campainha para os alunos saberem que o quarto de hora seguinte tinha de ser obrigatoriamente dedicado à leitura. Muitos dos Extraordinários opuseram-se a essa actividade, dizendo que as obrigações nunca dão bom resultado e que até podia ser contraproducente e criar ódio à leitura. Acontece que descobri que se pode ir ainda mais longe… O escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura, deu uma entrevista em Itália ao La Repubblica em que conta – pasme-se! – que, quando os filhos eram pequenos, lhes oferecia dinheiro para lerem livros que eles depois tinham de resumir (como aquela analfabeta de que falei há dias). Ai, aqui no blogue, se nos tivessem feito isto, estávamos todos ricos por esta altura, não?
Bom dia com alegria
ResponderEliminarNada bate a motivação interior. A vontade gratuita e genuína de fazer algo.
Só essa é sustentável por si mesma e se pode perpetuar.
A "cenoura" poderá funcionar da primeira vez, como forma de experimentar algo novo ou criar um hábito.
Em "What money can't buy", do filósofo político americano Michael Sandel são relatados alguns efeitos perniciosos da introdução do prémio pecuniário, para acções que deveriam advir espontaneamente. Uma delas são as dádivas de sangue, em que o pagamento veio fazer diminuir a qualidade das recolhas, por via de toxicodependentes e outras pessoas em situações limite.
Boas leituras
cp
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"Oh Mr. Trout," nice Milo went on, there in Trout's suite, "teach us to sing and dance and laugh and cry. We've tried to survive so long on money and sex and envy and real estate and football and basketball and automobiles and television and alcohol - on sawdust and broken glass!"
"Open your eyes!" said Trout bitterly. "Do I look like a dancer, a singer, a man of joy?"
Fica o apontamento do livro que estou a terminar de ler, "Breakfast of Champions, de Kurt Vonnegut.Trout é um escritor, alter ego de Vonnegut.
Pagar para se ler é maçada - direi como Pessoa - semelhante a cumprir um dever laboral. Ler é liberdade e prazer, nunca pode ser obrigação ou qualquer outro estímulo acessório. Tem, neste caso, efeitos perversos e cria vícios.
ResponderEliminarÉ evidente que não me refiro aos que se situam no campo editorial (que hão-de passar por momentos terríveis de tédio ao ler obras que não lembravam ao Diabo a dormir), mas aos que recebem estes estímulos e reagem, pela vida fora, como o cão de Pavlov.
Leio quando me apetece, quando não tenho deveres que falam mais alto. E cito Schopenhauer - "seria bom comprar livros se pudéssemos comprar também o tempo para lê-los".
Embora ache estranho saber que há pessoas intolerantes à leitura (como as há aos medicamentos), não vou cair em exageros. E cito Jane Austen - "a pessoa que não sente prazer com um bom romance, seja cavalheiro ou dama, só pode ser intoleravelmente estúpida".
Acho que devo incutir, não aliciar e impor a leitura, designadamente procurando escrever coisas que se leiam com agrado. E cito o padre António Vieira - "o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive".
Suponho - ou tenho a certeza - que ler é uma necessidade, depois será um prazer, provavelmente transformar-se-á num vício salutar. E cito o rifão - "quem ler leia para saber; quem souber saiba para obrar".
Nunca ofereci dinheiro aos meus filhos para eles lerem; comprei-lhes livros e dei-lhes a oportunidade de os escolherem. Considera esta a minha citação.
Bom dia!
ResponderEliminarEm Portugal, mais precisamente em Almada, também existe um programa de leitura todos os dias durante 20 minutos na escola. É uma das actividades integradas num plano mais vasto designado de Read on que tem como objectivo promover a leitura entre os mais jovens.
https://readon.eu/home
Cumprimentos,
JL Ferreira
Eu já consegui pôr jovens e menos jovens a ler, falando-lhes com entusiasmo das minhas leituras, emprestando-lhes, ou mesmo oferecendo-lhes livros quando não os podiam comprar.
ResponderEliminarNão tenho filhos, mas se tivesse nunca lhes daria dinheiro para lerem, não me parece saudável nem recomendável. Tentaria antes ler com e para eles.
Já os 15 ou 20 minutos de leitura nas escolas parecem-me muito bem; não é nenhum suplício e alguns até podem descobrir que ler é bué da fixe
⚘
Maria
Nem de propósito, comecei a fazer isso recentemente com os meus filhos.. A mesada deles é definida em função do que leem (e têm de discutir comigo o que leram). Concordo com o prazer de uma leitura espontânea. Mas, em tempo de férias (e não só), consumido massivamente em televisão, jogos, enfim, é preciso sermos criativos. Não, não é possível estarmos todo o tempo com os nossos filhos (nem isso lhes faz bem). Não, não é possível ter sempre programas lúdicos e culturais (nem isso faz bem a família nenhuma). Não, não é possível estar sempre fora de casa (é bom recolher também). E, sim, é bom que estejam, em férias, também aborrecidos e "sem o que fazer", para que se expandam interiormente (os psicólogos/psiquiatras têm falado muito nisto: é importante que os miúdos saibam estar em "estado-tédio" - é uma importante questão de saúde mental, nos dias de hoje). Os livros podem fazer isso: essa necessária expansão interior, sem estímulos (os dos ecrãs). A leitura pode fazer isso. E a "mesada" é um truque. Para os "apanhar" num livro. Um livro por acidente é melhor que livro nenhum.
ResponderEliminarCom regras (há um limite do dinheiro que podem gastar em jogos, por exemplo), sensibilidade (ir falando dos livros, de como vai a leitura, das ideias novas, da vida e dos dias..) e alguma argúcia (ajudá-los a escolher um livro adequado à idade, que sabemos que apreciarão assim que começarem a ler, que tenha o equilíbrio entre a qualidade e a diversão, deixá-los escolher livremente dentre boas opções), o perigo dos efeitos nefastos de uma leitura induzida é reduzido (e sobejamente inferior ao benefício). Não obrigo os meus filhos, eles têm um incentivo. Sempre lemos alguns minutos antes de dormir. Sempre pediram histórias. Ainda hoje fazemos isso, juntos, e já têm 9 e 12 anos. Mas, durante o dia, eles são "requisitados" a toda a hora, pelos amigos online, ao telefone. Até nós, adultos, se nos foge o hábito da leitura pelo turbilhão do quotidiano, temos de parar e perceber como regressar a esse espaço (encontrar o incentivo).
Desde que implementei esta prática, os meus filhos ausentam-se durante, pelo menos, uma hora por dia do computador, do telefone, da televisão. Estão mais calmos, serenos, compreendem melhor o que lhes digo, aceitam mais facilmente as regras. Dei-lhes uma boa desculpa para não responderem aos pedidos constantes dos amigos que estão online. Estão a praticar a leitura, a melhorar o vocabulário, a chegar a mundos novos, a estimular o raciocínio, a libertar a mente e o espírito. No domingo à tarde, estive com o meu filho de 12 anos a ler na varanda, tranquilos, e a conversar sobre o que cada um estava a ler. O meu filho mais novo, de 9 anos, começou a entusiasmar-se com o livro (não infantil) que escolheu e, à luz de uma lanterna, antes de adormecer, leu mais de vinte páginas de uma assentada. Ficámos a ler os dois juntos até tardíssimo.
Há uma mudança de comportamento natural, assim que as crianças tomam um livro. Que importa como o livro lhes chega, se acabam por apreciá-lo? Se acabam por instalar o hábito de ler. Um dia, esse hábito estará com eles, bem como a lista de livros que foram acumulando ao longo da vida, juntamente com as ideias que eles lhes trouxeram. Brinquei com o meu filho mais velho e disse-lhe que até que fosse velhinho faria isto e que, um dia, esperava que ele me dissesse que não aceitaria dinheiro, porque o benefício tinha sido maior.. Ele sorriu e percebeu do que eu estava a falar. Ele sabe para que está a ler. E, se tive dúvidas no início, sobre esta prática, elas dissiparam-se quando o meu filho me perguntou: "Mãe, com o dinheiro que me dás, eu posso comprar um livro..?"
Um abraço a todos,
Rute Simões Ribeiro
Gostei imenso de lê-la, Rute.
EliminarE que belo trabalho está a fazer com os seus meninos.
Parabéns!
⚘
Maria
Que sorte !
EliminarOs meus pais davam-me listas de leitura "obrigatória" para as férias grandes que eu depois tinha de lhes resumir para eles apurarem se eu tinha lido ou não. Não morri por isso nem ganhei ódio à leitura.
ResponderEliminarA outra estratégia que tinham era deixarem-me à rédea solta na Feira do Livro de Lisboa e depois apresentavam-se nas bancas para pagarem a conta das minhas compras livrescas. Em troca eu também tinha de lhes apresentar resumos dos livros para eles terem a certeza que eu correspondia ao investimento. Acho isso das melhores memórias de infância.
Que sorte!
EliminarTambém acho! :)
EliminarInteressante tema, mas é daqueles sobre o qual é difícil opinar, pois não tenho experiência, salvo a minha que não pode ser conclusiva: sempre adorei ler!
ResponderEliminarCá em casa, só não lê quem não queira… e há quem não leia, mesmo! Mas há os que lêem… acho que nunca se obrigou ou pagou, apenas se fala de livros e sobretudo dos temas para que há livros, pois há livros sobre tudo ou que contêem o que quer que seja… sejam as cobras, mar, terra… pois eles aí estão , cerca de 5000 volumes. Procure-se e se achará o que se queira.
Tem sido assim!
Mas gostei de vos ler…
Saudações cá do Bairro Ribatejano!
Antes de ser mãe de um miúdo em idade de ler, seria a primeira a criticar todas as medidas para "obrigar" alguém a ler. Pois bem, agora não só implementei o tempo obrigatório de leitura, em que ele lê para mim, como existe um número mínimo para o número de páginas a ler por dia. Não me parece que esteja a ser contraproducente,vamos ver.
ResponderEliminarEscritor espanhol, acho, o Varguitas.
ResponderEliminarNaturalizou-se...