Ainda os títulos

Na semana passada publiquei aqui um post sobre os títulos na ficção e os títulos na imprensa, todos por vezes bastante enganadores: ou apontando para livros melhores do que realmente são, ou levando os leitores de notícias a crer em factos opostos aos verdadeiros. Na altura, porém, faltou-me dizer uma coisa que tenho aqui entalada desde que descobri que «a palavra começada por F» (uma tradução livre de «the F word»), quando aparece num título de um livro, seja ele de que autor for, faz com que o dito atinja o Top Ten em menos de uma semana. Não consigo perceber porque se sentem as pessoas tão atraídas por livros que lhes peçam na capa para não f... os outros, ou para aprenderem a dizer aos outros que se f... O que sei é que é matemático: todos os títulos que incluam a palavra F com o sentido metafórico de «lixar, tramar, chatear», têm sucesso garantido. Por isso, se (como suspeito) alguns dos Extraordinários têm livros em preparação ou prontos na gaveta (ou até já recusados por alguma editora a quem os mandaram), vão ao ficheiro do computador, parem no frontispício, prantem-lhe no título a palavrinha milagrosa e verão que os publicam em três tempos e com extraordinário êxito. Como 47% dos portugueses confessam não ler um único livro há seis meses, o melhor é facilitar.

Comentários

  1. Já somos duas a não perceber essa atracção pelo The F word em português, deve ser uma coisa muito lusa, as pessoas devem sentir-se muito "corajosas" ao pôr títulos assim, sei lá.
    Bem, corajosas e espertas, pois parece que vendem bem...

    Maria

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  2. Bom dia com alegria estival

    Back to basics.

    Crianças de tenra idade riem até ao infinito com os vocábulos cócó e xixi.

    Publicitários colocam homens de tronco nu musculado a vender detergentes nas paragens de autocarros

    O sexo, instinto básico do animal humano, atrai e, logo, vende.

    Mesmo que o faça de forma escatológica.

    Boas leituras e um risinho infantil
    cp aka Freud nos tempos livres

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    1. Bom dia com um certo receio dos 36° que aí vêm

      Back to basics?
      aka?
      Ou me engano muito ou o Severino pensará ao ler isto: muito gostam eles de falar inglês!

      Boas leituras.

      Maria

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    2. Ó extraordinária Maria sou eu e o Javier Marias que no seu recente livro (de crónicas) "Quando os Tontos Mandam" escreve a determinada página:
      -Os espanhóis enchem hoje as suas perorações de "braibstorming", "crowdfunding", "mainstream", "target", "share", "feedback" etc etc., portanto, parolos há-os em toda a parte.
      E quase de certeza que no top ten (também uso palavras universais, não confundir com estrangeiras) estará um livro com um qualquer título " O homem é f....."

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    3. I knew it!
      Nunca vamos estar de acordo, Severino, mas não faz mal, já ultrapassei esse trauma há tempos
      E as palavras que usa são universais, são estrangeiras e são inglesas - ora diga lá se não é mais fácil dizer top ten do que tabela dos dez mais vendidos, ou asap em vez de o mais depressa possível. A língua inglesa descomplica (ou simplifica) tudo; e o Marías, que aprecio bastante, não é o dono da verdade.
      Ah e a maioria dos espanhóis são uma nódoa a falar inglês.
      Have a nice Monday!

      Maria

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  3. António Luiz Pacheco15 de julho de 2019 às 01:28

    Ahahahahah!
    Pela minha parte não! É título que não usarei… prometo!
    Lembro-me de um título do MEC "O amor é f... " , e até é, bem o sabemos, porém eu sempre atribuí a notoriedade do livro quer ao autor que na altura era muito popular, e até me pareceu que o título se adequava. No meu caso, não o diria assim, a minha expressão seria "é tramado"!.
    Notem que uso de "palavrões" num texto, se achar que se enquadra e adapta a quem o profere, por uma questão de realismo - se é que se pode dizer assim. Mas no geral faço um esforço por usar expressões, interjeições, ou palavras que substituam o tal "palavrão", pois que sendo usado sem o tal critério, me soa apenas a obscenidade coisa de que não gosto, confesso.

    Saudações cá da Cidade Morena, onde a principal interjeição que exprime tanto surpresa como alguma irritação é "áka!" .

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  4. Essa teoria a mim não me diz nada, eu quero é que os títulos com F se f...

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  5. A literatura continua a ter alguns pruridos no emprego de expressões escatológicas ou brejeiras, o que já não faz o cinema e o audiovisual. Daí o F, o C e o P seguidos por reticências, que o leitor decompõe com facilidade.
    Por mim, que aprendi o palavrão pronunciando o verbo "fornicar", só tenho a invocar o rifão - "F... interrompida é f... perdida".

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    1. Depois de ter postado algum calão atrás, com o pedido de desculpas antecipado à MRP, tenho a dizer que há um prato no Minho que se chama Foda, inclusive com um festival que vem dando brado, talvez pelo nome. Trata-se de um manjar à base de cordeiro assado em forno de lenha e num alguidar de barro, geralmente servido com arroz.
      Para além da entrada na culinária, o Dicionário da Priberam trata o vocábulo sem reticências. Mas já cá não está quem comentou...

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    2. António Luiz Pacheco15 de julho de 2019 às 05:13

      Peço desculpa de me intrometer mas isto é a minha horta, eheheh!
      Não sendo embora o mui Extraordinário e apreciado Paulo Moreiras, reforço que a "Feira da Foda" , realiza-se na localidade de Pias, conselho de Monção e recupera uma velha tradição gastronómica como muito bem diz! Um borrego assado no forno, num alguidar de barro próprio e com o arroz a aparar o pingo…
      Fica o apontamento, que saquei do gúguel:
      O prato, denominado “Foda”, reflete bem o caráter afável e bem disposto do povo monçanense. Reza a história que: “os habitantes do burgo, como não tinham rebanhos, dirigiam-se às feiras para comprar o gado. E, como é habitual em todas as feiras, havia gado bom e mau.
      Mas a verdade é que os criadores de gado tinham como objetivo vender o seu gado ao melhor preço. E, para que aparentassem gordos, colocavam-lhes sal na forragem, facto que os obrigava a beber muita água.
      Na feira, pareciam pesados, com a barriga cheia de água, parecendo realmente gordos. Os incautos, que não tinham conhecimento da “manha”, compravam aqueles autênticos “sacos de água” e, quando se apercebiam do logro, exclamavam à boa maneira minhota: que grande foda!”.
      O termo foi-se vulgarizando e o prato gastronómico passou a designar-se “Foda“. De tal modo, que é frequente nas épocas festivas (Páscoa, Corpo de Deus, Senhora das Dores, Natal e/ou Fim do Ano) ouvir as mulheres do alto Minho, exclamarem: “Ó Maria, já meteste a Foda?”

      Eheheheh! A nossa gente, é, tramada…

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    3. Obrigado fico ao extraordinário Pacheco por esta explicação. O povo do Norte não costuma ter "papas na língua" e trata os "bois pelo nome".
      Li algures no Dr. Gúguel uma patranha que indica ter a palavra correspondente inglesa a sua génese nos casos em que o rei autorizava o dito acto, considerado como "Fornication Under Consent of the King", que conduz à sigla F.U.C.K. É evidente que se trata de uma mistificação popular, parecendo a curiosidade relativa ao tema hoje proposto.
      A ter que escolher um título com esta palavra, género de acrónimo, pedia na gráfica que colocasse, deste título, as iniciais em negrito e em outra cor, de tal forma a formar:
      "Faça-se
      O que
      Deve ser
      Apropriado"

      ou ainda

      "Fingir
      Orgasmos
      Demonstra
      Amor"

      É natural que, usando esta estratégia, qualquer de nós (usando a sua imaginação Extraordinária) teria na capa, em evidência, a palavra-chave do êxito comercial. Possivelmente o Pacheco terá outra, quem sabe com a última inicial no vocábulo toponímico Angola.

      A MRP abriu a caixa de Pandora, vai ter que colocar ordem nisto.

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    4. O povo do Norte não costuma ter "papas na língua" e trata os "bois pelo nome".

      Mas, pergunto eu, para não se ter papas na língua é preciso ser-se ordinário?
      Do meu ponto de vista é uma questão de educação, pois conheço muita, muita gente do Norte que trata os bois pelos nomes e não precisa de ser ordinária.
      É, na minha prspectiva, simplesmente berço!

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    5. Ó Seve, vou responder à sua pergunta, na convicção pessoal de que não é condição ser-se ordinário quando não se tem papas na língua. Melhor diria o velho da bengala, sentado ao soalheiro a fumar o seu paivante - "dizer de boca é manejo dos queixos".

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  6. Não sei se a curiosidade ainda mata gatos, sei sim que estas palavras despertam muita curiosidade, os motores de busca que o digam.

    Os sexólogos talvez expliquem o porquê: "foder" já foi um verbo mais prático e as pessoas adoram "teorias". :)

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    1. António Luiz Pacheco15 de julho de 2019 às 03:02

      Bom… fala-se da palavra começada por "f..." o que me faz lembrar uma velha anedota:
      Era uma pessoa tão velha, que a última vez que tinha dado uma, ainda se escrevia com PH … ahahahah!

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  7. A (des)propósito de títulos que têm como único propósito chamar a atenção: acabo de saber que já há uma "Costureira de Dachau"! Depois da praga de "O/A (introduzir profissão ou actividade) de Auschwitz", a imaginação esgota-se e agora é correr os campos de concentração de A a Z como se fossem estâncias de férias ou destinos exóticos. O que não varia é a badana: "Uma comovente história de coragem e superação (ou de amor e amizade) baseada (ou não) em factos reais"...A banalização da barbárie.

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    1. Tem razão, já não há pachorra para títulos desses. Costumava pegar num ou noutro livro para ler a sinopse mas agora nem isso faço: é mesmo a banalização da barbárie.

      Maria

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  8. Espero que esse conselho que dá aos Extraordinários seja irónico...

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  9. Meio dia.

    Comparemos a quantidade de comentários que este post tem com o de outros bem mais eruditos e teremos, mais uma vez, a prova de que o F vende.

    Quanto ao uso do vernáculo, diria que é uma questão de convenção social. Basta ir ao Porto para ver dois grandes amigos a tratarem-se por filhos de (bolinha).

    Outro exemplo, arrotar a seguir à refeição é sinal de satisfação em algumas culturas. Não o fazer fica mal.

    Enfim, tudo é relativo.

    Boas leituras
    cp

    PS: De volta de Kurt Vonnegut, um autor americano com uma visão muito relativa da América e do mundo

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    1. Acho que está a ser injusto, "senhor dos comboios" (podia escolher outra abreviatura, mais pontual e com menos avarias). :)

      Muitas vezes comenta-se comentários, quando tem interesse ou para dizer "larachas" como é agora o meu caso, e passa a dezena. Não é o éfe, digo eu. :)

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  10. Na sua forma de interjeição, assume contornos libertadores quando aplicada a :
    - Cancro
    - Depressão
    - Banco de horas

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  11. Grande conselho! Pena eu não o conseguir seguir... :)

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  12. Heheheh! Que raio de coisa esta de os meus pais nos terem educado sem ouvir um palavrão em casa...

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