Pesadelo

Todos os escritores têm pesadelos, especialmente nas vésperas da saída dos seus livros. Em 2001, uns dias antes de ser publicado o meu segundo livro de poemas, sonhei que uma jornalista de quem eu não gostava me acusava de plagiar um poeta americano. Eu ia à procura do livro desse poeta e era obrigada a concluir que o meu era de facto uma mera tradução involuntária. Não conhecia o poeta, mas quem ia acreditar nisso? No sonho, o pior de tudo era que nem os meus amigos acreditavam em mim. Acordei nessa altura... Porém, nem o pior pesadelo pode equiparar-se ao que Naomi Wolf está a viver na realidade. A dias da saída do seu novo livro, a autora de História da Vagina recebeu uma lição horrível em directo num programa de rádio. É que a tese que defendia em Outrages: Sex, Censorship, and the Criminalization of Love assenta em casos de pessoas condenadas à morte por prática de sodomia e outros actos sexuais; só que a expressão «death recorded» nos documentos que consultou em vários tribunais não quer dizer «execução» ou «sentença de morte», como ela pensava, mas que o juiz se absteve de condenar o réu, convicto de que ele acabaria por receber o perdão real... A escritora nunca mais se vai esquecer disto, evidentemente,  o problema é que todo o livro se baseia em casos que, afinal, não aconteceram e dos quais ela partiu para fazer uma longa reflexão que, afinal, não tem sentido. O editor já deve estar a pensar em quantos livros vão ter de pôr no lixo. Ui, isto é que é mesmo um pesadelo.


 

Comentários

  1. Um pesadelo mesmo...

    Aqui há dias, já não sei porquê, fixei-me nas armadilhas do processo criativo. Pensei que não é coisa do outro mundo alguém ter a mesma ideia que nós, mesmo que more na China (com a globalização ainda é mais possível de acontecer, pois o Mundo finge que é quase todo igual...).

    E conclui que complicado mesmo deve ser a composição musical (não é por acaso que é a arte que convive mais com o plágio...), porque somos sobretudo influenciados pelo "ouvido". E quantas músicas escutamos pela vida fora, que "ficam cá"...

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  2. Bom dia com alegria e Feira do Livro

    O caso relatado é um pesadelo real, não imaginário, como muitos dos dos livros do senhor Freud.

    Poderá este monumental lapso ter a ver com a compressão do período criativo, a urgência em produzir, seja de que maneira fôr.

    Acontece na indústria automóvel, onde até às marcas de luxo mandam recolher carros às oficinas .

    Depressa e bem não há quem.

    No entanto, não me parece ser o caso. Se o livro é baseado numa premissa, convém verifica-la até à exaustão.

    A dúvida metódica cartesiana pode ser um bom auxiliar nesses casos.

    Boas leituras
    cp

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  3. Nesta era em que a metaliteratura se tornou tão praticada, poderão este tipo de sonhos ou de erros de escritores serem fonte de novas criações literárias...

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  4. António Luiz Pacheco5 de junho de 2019 às 03:34

    Deve ser "pesadelística" sim, essa situação!
    No entanto admira-me, porque ou a autora não fez o trabalho de casa, ou não sabe inglês… e corrijam-me aí os anglófonos: death recorded deverá significar morte registada… o que deveras me parece diferente de sentença de morte… mas isto sou eu a armar-me em esperto!

    Quanto à questão dos plágios, olhando à diversidade e imensidão daquilo que já foi escrito desde o início da humanidade escrevinhadora, penso que há sempre esse risco, ou por coincidência casual ou por influência de algo que lemos ou ouvimos, vimos, e o subconsciente nos pregue a partida.
    Afinal o escritor muitas vezes recria, ou seja baseia-se em factos que chegam ao seu consciente pelas mais diversas vias. Ou não é assim? Terá ele de inventar a 100%?

    Como disse Salomão vai para 3.000 anos (eu era muito pequeno nessa altura e já não me lembro bem, mas cito porque entretanto li…) "O que foi, é o que há de ser; o que se fez, isso se tornará a fazer. Não há nada de novo debaixo do sol”.

    Alguma obra, na actualidade, não plagiará sempre e inapelávelmente qualquer outra, ainda que num grau tão ínfimo que nem se dê por isso? Claro que não estou a falar de copianços escandalosos nem de aproveitamentos clamorosos das obras de outrem.

    E , já algum dos Extraordinários que escrevem, alguma vez teve a sensação de que alguém leu e usou aquilo que tenham escrito? É uma sensação forte… não digo que seja de ter sido roubado. Se tal for por um Escritor, pode até dar-nos uma sensação de orgulho, mas se for por um nem-por-isso, é algo que custa…
    Estarei a ser justo? Nunca vos sucedeu?

    Saudações pelágicas cá da Cidade Morena.
    (leram bem… pelágicas, de pelagos)




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  5. Ui... isto é tão mau... (e um péssimo exemplo de pseudo-ciência).

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  6. Há pouco em se lhe dizer do onírico na leveza de "Mendeliev" a Tabela Periódica (os anais) a Ciência, ou falácias o topor cultivado contra "Lavosier" e a história nem diferente menciona anseios em saudade as escritas. Percorrer o sentimento a prática, faz o exercício e a literatura posto o que se lê e moderadanente eu gosto de saborear o sonho de modo lúdico e o saboreamos a leitura. Sugiro e há quem goste de pesquisar em Baruc Spinoza, considerações com relação a metafísica e sonhos.

    Cláudia da Silva Tomazi

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  7. Mais um pesadelo (e daqueles enoooormes!!!...):
    Terá Naomi Wolf, no seu livro "A História da Vagina", com todo o descuido e falta de rigor que a caracteriza, omitido um alerta sério ao leitor para os perigos da "vagina dentata"?????

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2019 às 05:46

      Olhe que agora despertou-me a curiosidade - e ainda bem - porque confesso que não conheço esta autora! Mas vou googlar… grato pelo seu comentário!
      Abraço, sem dentes… cá da Cidade Morena!

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  8. O caso relatado tem alguma gravidade, é certamente embaraçoso - para a autora e para a sua editora - mas, em última análise, resulta de uma falha de interpretação, de uma deficiência na investigação, e não (aparentemente) de uma intenção de induzir em erro os leitores.

    Situação pior, em meu entender, foi a que aconteceu em Portugal em 2016: nesse ano não um mas sim dois (!) livros foram publicados de autores portugueses e em ambos a premissa era a vitória de Hillary Clinton na eleição presidencial norte-americana que se realizaria posteriormente, em Novembro. Como todos sabemos, isso acabou por não acontecer... Foram esses autores de algum modo criticados, ou até penalizados, pela sua insensatez e arrogância (possibilitadas, saliente-se, pela incompetência das respectivas editoras)? Não. Pelo contrário, depois disso ambos já publicaram novos livros e continuam a ser presenças regulares em vários órgãos de comunicação social nacionais enquanto «analistas», «especialistas» de/em política internacional. Refira-se, como curiosidade, que um deles é, na verdade, funcionário da Federação Portuguesa de Futebol...

    ... E este é apenas mais um exemplo (outros existem) de como neste país, e no que se refere a escritores, há uns... e os outros; enfim, de que os «pesadelos» literários são normais.

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