O que ando a ler

Falei de raspão neste livro que ando agora a ler quando me referi ao número de títulos recentes que se prendiam com a figura da mãe, muitas vezes em tom de luto e saudade. Mas, na verdade, Em Tudo Havia Beleza, de Manuel Vilas, sendo um livro sobre a orfandade, é muito mais uma homenagem ao pai, o verdadeiro herói do narrador, do que à mãe; fui induzida em erro por ter conhecido o seu autor como poeta em Cartagena das Índias e tê-lo ouvido dizer um lindo poema sobre a ausência da mãe que consta também das últimas páginas deste livro. Mas o pai aqui é o Bach dos pais, enquanto a mãe, com o seu terrível feitio, é «só» a Wagner (o autor gosta de música e atribui nomes de compositores aos seus familiares). Intitulado originalmente Ordesa (um monte aonde o autor ia passear com o pai em pequeno), este livro de memórias e desabafos é talvez das coisas mais ressentidas e magoadas que li até hoje, porque, por um lado, perder pai e mãe é uma solidão indizível, sobretudo para quem não se sente amado por ninguém (incluindo os filhos); e, por outro lado, está sempre presente a raiva imensa de um membro de uma família pobre que queria melhor para os seus pais e se zanga muito com quem teve tudo de mão beijada, como, é só um exemplo, os monarcas espanhóis. Confesso que esperava uma coisa um nadinha diferente, menos rebarbativa, mas este foi considerado livro do ano por muitas publicações espanholas diferentes e de diferentes quadrantes, o que quer dizer que deve ser lido por toda a gente.

Comentários

  1. Estava a ler Cinco Travessias do Inferno, da Martha Gellhorn (uma jornalista que foi casada com o Hemingway), mas interrompi para ler a Biografia da Sophia, da Isabel Nery.
    Estou a adorar (vou a meio) e estou a ler com muita calma, e também com muitas interrupções, pois à medida que são mencionados poemas e contos gosto de os ir reler, ou seja, tenho leitura para mais uns dias.

    Maria

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  2. Bom dia com alegria e silogismos

    "este foi considerado livro do ano por muitas publicações espanholas diferentes e de diferentes quadrantes, o que quer dizer que deve ser lido por toda a gente."

    Que saudades dos tempos em que os livros prescidiam de frases laudatórias na capa, prescidiam do efeito manada e valiam por si mesmos.

    Boas leituras
    cp

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  3. Tudo muito certo, mas, o nome do autor? Fiquei curiosa.

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  4. Nem por acaso, comprei ontem o Ordesa na feira do livro de Madrid!
    Por enquanto a ler a Aparição de Virgílio Ferreira e ainda a "recuperar" da magnífica descoberta de Maria Judite de Carvalho, que fiz através do primeiro volume da sua obra completa, editada pela Minotauro.
    Dá-me muita alegria saber que há obras lusófonas excelentes por descobrir, sendo ambas as que referi, exemplos claros disso.

    Uma boa semana

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    1. Maria Judite de Carvalho foi uma grande escritora que merece ser (re)descoberta. Também eu estou grato à Minotauro pela reedição da sua obra completa. E que bom seria que a obra da Natália Nunes pudesse receber o mesmo tratamento.

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    2. Olá Maria, eu já tinha um livro da Maria Judite de Carvalho mas nunca tinha lido o Tanta Gente, Mariana.
      Comprei os dois primeiros volumes desta colecção e fiquei rendida à escrita dela.
      Tanta gente que não a conhece...
      E que bem que ela pintava, os retratos das capas são belíssimos.
      Boa semana.

      Maria (II)

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    3. Concordo com tudo :)

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    4. Vou acrescentar Natália Nunes à minha lista, muito obrigada!

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  5. António Luiz Pacheco3 de junho de 2019 às 03:42

    Pela sua indicação, mais do que pelos demais encómios tecidos, parece ser um livro interessante, se bem que actualmente eu lide mal com lamechices e pior ainda com livros de exorcismo pessoal ou revolta. Mas é um tema a ponderar, sim. Até porque há muitos mais psicóticos assassinos ou abusadores por este tipo de razões do que por outras causas que me escuso agora de nomear.

    O que ando a ler:
    - Acabei "Serpentes de Angola" de Paula Regina Simões de Oliveira, investigadora angolana da área farmacêutica. Que me ofereceram, devidamente assinado.
    - Ando às voltas com uma das minhas Bíblias, Manual de Conservação do Solo, publicação da Secretaria de Agricultura dos EUA, compilado por William X. Hull, e, com a curiosa particularidade de datar de 1937! Porém mantêm-se actual, pois foi feito no campo por homens de campo, não através de GPS e cartografia por satélite, talvez por isso seja tão prático e aplicável, simples de entender e fiável!

    Saudações pedológicas, cá da Cidade Morena!

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  6. No dia da morte de Agustina leio a "Carta ao pai" de Kafka.
    Bem como volto a Elias Canetti e descubro Bernard Malamud.
    Gostei entretanto de encontrar na FLL a edição da obra completa de Italo Calvino, um dos escritores do século XX que mais admiro.
    Coloco também em fila de leitura o "Tríptico da Salvação" do Mário Cláudio.

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    1. Comprei e li "O Barril Mágico" do Malamud em Abril/14 (fui ver ao livro).
      Gostei bastante e tencionava ler mais, mas há sempre tantos livros a descobrir...
      Imagine, Pedro, fiquei a saber da morte da Agustina por este seu comentário.
      Excelentes as escolhas que refere.

      Maria

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  7. Andava a ler "Novelas Exemplares", que é um calhamaço de 530 páginas publicado pela Ulisseia (2010), da autoria de Miguel de Cervantes.Interrompo para reler "A Sibila", romance de Agustina Bessa Luís, lido nos anos 60, quando eu frequentava o liceu. É, digamos, uma espécie de homenagem à escritora amarantina, hoje falecida.

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  8. "Em tudo havia beleza" - Manuel Vilas - tenho ouvido as melhores referências a este livro, está na minha lista dos próximos livros a ler.
    Estou a ler "O diário de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4" - o diário de um idoso e a sua vida num lar para idosos em Amsterdão, e a maneira como lida com a velhice, quando já não há objectivos, quando parece não haver mais nada para lutar. As visitas dos familiares ao domingo em 5 minutos, e aqueles que já não recebem visitas nem dos filhos, e aqueles que já não saem do lar, e aqueles que não passam da sala de convívio, aqueles que já foram e agora não são...
    Um livro não sei se comovente se confrangedor, uma realidade dos nossos dias, que obriga a pensar...um murro no estômago.

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  9. "este livro de memórias e desabafos é talvez das coisas mais ressentidas e magoadas que li até hoje, porque, por um lado, perder pai e mãe é uma solidão indizível". Vindo de si, MRP, até me apetece rir como o Joe Berardo. Será que tudo na sua vida acontece tarde demais?

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    1. Antes uma resolução tardia, do que inexistente. Que um dia se encontre, sr anónimo.

      Abraço

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  10. António Luiz Pacheco3 de junho de 2019 às 06:32

    Certamente que vai ser tema neste espaço Extraordinário, mas como já foi dito, fica-nos a sensação de pesar pela Escritora Agustina Bessa-Luis … não que eu fosse seu leitor dedicado, mas gostava sobretudo da sua postura e do seu espírito.
    Que esse mesmo espírito se tranquilize, lá no Campo das Escritas Eternas para onde vão os escritores.

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  11. Acabei de ler "o mundo segundo Bob", de James Bowen, que talvez não possa ser considerado literatura, mas é muito bonito, e " A. trégua ", de Mário Benedetti, a conselho do ASeve. O primeiro é a continuação de "A minha história com Bob", livro autobiográfico que conta como o autor encontrou um gato e como, por causa dele, mudou a sua vida. O segundo conta a história de um viúvo cinquentenário que se apaixona por uma jovem com metade da sua idade, por volta de 1950. Achei este excelente..
    Agora vou atacar a obra "As minas de Salomão", traduzida por Eça de Queirós, que já devia ter lido há muito.

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    1. António Luiz Pacheco3 de junho de 2019 às 11:02

      Traduzido por Eça, mas da autoria de um grande escritor victoriano, de aventuras, atenção!
      Os livros desse autor, inspiraram toda uma geração que se lançou na aventura do império britânico, com o mérito ou demérito que cada um lhe queira dar, mas na certeza de que Henry Rider Haggard foi um grande escritor.

      Saudações coloquiais cá da Cidade Morena!

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    2. Não quis menorizar o autor, mas apenas salientar o tradutor, como é feito na contracapa da edição do livro (pertence à Coleção dos Clássicos Juvenis Geração Público). Aliás, pergunto se alguém sabe se foi publicada outra tradução, pois o encómio que lhe fazem é o de que esta melhorou a obra, por isso duvido que depois da de Eça possa ter surgido alguma mais.

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    3. António Luiz Pacheco4 de junho de 2019 às 03:19

      Percebi que não menospreza Haggard! Apenas fiz uma chamada de atenção para o que ele foi e significou, o que é quase sempre desconhecido.
      No liceu mandaram-me ler a obra, incluída na "obra queirosiana", mas nunca foi explicado sequer o porquê da traducção ou quem foi Haggard, e penso que isso se devia ao sentimento sobre a concorrência colonial britânica, que naquele tempo talvez ainda se vivesse. Seria?
      Creio que Eça só pode mesmo ter melhorado a obra! Enfim, presunção nossa…
      Há outras traduções, mais recentes óbviamente dado que Eça a terá feito quase logo na publicação, e suponho que empolgado pela obra e o que se criou em volta dela e do autor. Temos de ver Eça como um romântico, victoriano, estarei errado?
      Vale a pena ler Haggard, sim!

      Sauadações coloquiais e obrigado por este bocadinho de conversa!

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  12. Acabei de ler "Da Costa, praias e montes da Caparica", de Luísa Costa Gomes (uma grande miscelândia, salva pelo saber histórico de Rui Mendes e Francisco Silva...).

    Estou a começar "Bahia de todos os Santos" de Jorge Amado...

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  13. Gosto muito da escrita de Agustína. Quando acabava um livro dizia "pronto, já basta de Agustina" mais tarde já estava a ler outro. Por acaso ando mergulhado num "antigo" - Balzac: "Ilusões Perdidas" - e não é que encontro ali uma espécie de mestre de Agustína!

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  14. A acabar de ler Ordesa...
    Muito bom
    Duro e cru mas um retrato da realidade
    Antes descobri Maria Judite Carvalho que não conhecia e gostei muito
    Boas leituras para todos e obrigada pelas sugestões e crónicas

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