Ler os mestres
Já aqui falei de um livro muito curioso de Adolfo García Ortega, O Comprador de Aniversários, que parte de uma cena de um ou dois parágrafos descrita em A Trégua, de Primo Levi, para inventar a vida e o passado de uma personagem e dos seus ascendentes na Hungria. Ora, vale a pena lembrar aqui o próprio A Trégua, que se assume como uma espécie de continuação da obra-prima Se Isto É Um Homem, do mesmo escritor italiano; porém, em lugar de descrever o terror do campo de concentração, A Trégua é dedicada ao que se passa a partir do momento em que os alemães, sabendo que os russos estão a caminho, fogem do campo de Buna, abandonando na enfermaria todos os convalescentes e doentes graves, entre os quais, de resto, se encontrava o próprio Levi, delirando de febre. Depois, a viagem até casa, em muitíssimas etapas, acompanhada de figuras verdadeiramente incríveis que se vão cruzando com Levi, alguns companheiros de desgraça e outros polacos postos ao serviço do exército russo, é uma espécie de odisseia cheia de momentos terríveis mas também muito especiais, de cumplicidade, medo, alegria, trauma. A libertação às vezes custa muito. Mas vale sempre a pena. A Trégua também.
"O comprador de aniversários" -uma autêntica pedra de gelo no coração, um livro maior do que o icebergue que destruiu o Titanic, um arrepio constante do que pode ser a maldade humana (tenho o livro de capa dura c/sobrecapa mole da excelente edição da Temas & Debates).
ResponderEliminarOs outros dois do Primo Levi também são excelentes (nada a ver com a moda que, sobre os campos concentração nazis, "andem" por aí).
TREBLINKA foi talvez o melhor livro que li sobre estes malditos campos de concentração.
Ó Seve
EliminarEu li, quando estudante, a 25ª Hora de Constantin Virgil Gheorghiu e aquela obra marcou-me. Vivi com a personagem Johann Moritz (Jacob, para parecer judeu) nos pesadelos que me acometiam. Fiquei ciente, a partir de então, que a Liberdade se conquista e não é uma dádiva; também me assegurei que a tirania se deve combater... com todas as armas.
Nesse livro, suficientemente plausível e explícito (ao contrário de muitos onde se acumula palha enfardada), encontram-se explicados os crimes, os autores, os erros e as sacanices. Não tomar partido, não saber distinguir onde se encontra o mal, é como confundir um elefante com um embondeiro.
Também me marcou por o seu autor estar preso, ter ficado quase cego e alimentando-se de cenouras para reaver a visão. Era essa uma tradução de Vitorino Nemésio.
Ainda hoje não ganhei coragem para reler a obra.
Estou a sentir nas minhas mãos esse livro do Virgil Gheorgiu, capa dura, vermelha com núvens brancas, do Círculo de Leitores, que li, muito, muito jovem e que também é uma das minhas referências sobre o tema (e sobre a vida), grande livro que, por acaso, de vez em quando, encontro em algumas bancas de feira juntamente com outro material usado (sapatos, calças, molduras, parafusos etc etc.-e a ele (livro) só lhe falta o celofane para poder dizer que "nunca fui lido"-).
EliminarÉ, sem dúvida outro livro que deixa marca.
Ó Fernando Costa lembro-me que mais ou menos na mesma época outro livro (também de capa dura do CL) que, de modo semelhante, me marcou, foi "O Senhor Presidente" do guatemalteco Miguel Angel Astúrias. Foram dois livros a que sempre quis voltar - mas ainda não calhou (não podemos ler tudo nem reler os livros que nos marcaram) - o tempo voa e ainda há tanto tanto tanto para ler..
EliminarTambém li a 25ª hora há muito ano e tenho ideia de ser um livro já velho e de páginas amarelecidas que alguém me emprestou, não me lembro da capa. Gostei imenso da obra e recordo uns óculos que sobreviveram ao proprietário e tinham poiso sobre a secretária da mulher. Não desejo lê-lo de novo.
EliminarAo que parece a 25ª Hora que todos lemos na nossa juventude, marcou-nos a sério…
EliminarJulgo que como os livros de Sven Hassel ou Erich Maria Remarque, Leon Uris , escritos por quem os viveu e ainda "a quente", têm essa particularidade, a de impressionar!
O que se escreveu depois, à distância e com base em recordações não-próprias, apesar de bem escrito e até muito bem, não tem já esse condão!
Saudações impressionadas, cá da Cidade Morena.
Tenho essa edição do Círculo de Leitores ( Fevereiro de 1974), tradução de Vitorino Nemésio e prefácio de Gabriel Marcel. A capa é realmente vermelho com manchas brancas que parecem nuvens e está muito bem conseguida com um arame farpado que atravessa da capa à contra-capa, passando pela lombada. O meu exemplar já não possui celofane, material que se tornava quebradiço e obsoleto, com o passar do tempo.
EliminarÓ Pacheco, também li esses três autores e ainda os possuo. Do Sven Hassel tenho dois ou três títulos. O autor via a guerra pelo lado da Alemanha, sendo os seus soldados naturalmente alemães. Era escrito com um humor a que achei graça na altura, embora hoje o considere forçado, principalmente em situações entre o caricato e o dramático.
EliminarSaudações da cidade do planalto onde, entre as 7,30 H e as 8,30 H da manhã corro, como um "galgo", no piso de terra batida do soberbo e frondoso parque municipal, com as suas sequóias (este meu "vicio" até já mereceu referência numa separata da "Visão").
Bea
EliminarCuriosamente o meu exemplar já tem o papel amarelecido; nem me lembro se já vinha assim. Havia um tipo de papel que ganhava esta "patine", presumo originada na chamada colagem ácida, que usava (ou usa) sulfato de alumínio. Pior acontece com os livros num papel do tipo couché-brilho, que mancha e cujas folhas impressas se colam de tal forma que proporcionam o descolar desagradável da camada brilhante.
Eu ainda mantenho a falta de desejo na releitura da "25ª Hora", embora presuma que o farei em qualquer altura imprevista. Por vezes é necessário recorrer a este "estado de choque" para percebermos e combatermos esse desejo bélico que anda por muitas cabeças tresloucadas e em bolandas (com raros intervalos lúcidos), apoiadas por outros trogloditas que apenas praticaram com uma arma numa barraca de tirinhos de feira. Para esses fenómenos que adornam as mesas de café com a palavrosa bravata belicista, não lhes fazia mal ler - creio ainda que penosamente - obras como esta ou aquelas apontadas pela Maria do Rosário.
Cumprimentos para si, dizendo-lhe que aprecio os seus comentários.
Nunca me atrairam nem fui leitor nem do Sven Hassel nem do Leon Uris, assustavam-me aqueles tijolos como o "Exodus" do Leon Uris.
EliminarMas já fui leitor dum outro escritor da mesma altura, o Hans Hellmut Kirst (quem não leu "A fábrica de oficiais" e um outro livro muito interessante em que HHKirst falava dos homens cesto, sobre os soldados que regressavam da guerra sem pernas e sem braços).
Creio no entanto que serão escritores completamente ultrapassados, que já ninguém lê e que repousam apenas na memória de alguns.
Quando falo da guerra é obviamente da 2•. e dos soldados alemães.
EliminarE a Bea não viu o filme com o Anthony Quinn e a Virna Lisi?
EliminarA capa do meu livro lembro bem, era do Círculo de Leitores e tal e qual como o Severino diz.
⚘
Maria
Volto para remendar um rasgão no meu comentário acima.
EliminarOnde refiro o celofane do meu exemplar (ausente do livro) queria dizer a sobrecapa em acetato transparente, material que vinha com os livros do Círculo de Leitores. O celofane, também referido pelo Seve como material envolvente de obra em segunda mão, é outra coisa.
Obrigada:). Essa gente que não sabe o que faz e que acorda tempestades em que não tem mão não podia sequer chegar perto do poder. Mas chega, e influencia, e esperneia e faz barulho. E ateia guerras. Não os julgo capazes de ler a 25ª hora e mesmo lendo não surtia efeito. Concordo com Miguel Sousa Tavares quando a propósito dos mandantes do mundo actual disse, "infelizmente, os deuses esqueceram-se dos homens".
EliminarNão vi o filme, Maria. E não sei se o quero ver.
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